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“Críticas, desafios e obstáculos não foram muros, mas sim Trampolins”

No Dia Internacional da Mulher, celebramos histórias que não cabem em estatísticas — histórias que se escrevem com coragem, resiliência e propósito. A entrevista com Manuela Domingues, tradutora desde 2007 e Líder do projeto MD-TRAD, é uma dessas narrativas que desafiam o óbvio. Porque o seu percurso não é apenas sobre palavras traduzidas, mercados conquistados ou projetos entregues. É sobre identidade. Evolução. Voz.
Num setor onde a precisão é regra, Manuela Domingues prova que a verdadeira tradução vai muito além dos idiomas — traduz culturas, aproxima pessoas e, sobretudo, reinventa quem a pratica. “As conquistas que mais me orgulham não se medem apenas pelos resultados alcançados, mas pela mulher que me tornei ao longo do caminho.” Nesta conversa inspiradora, descobrimos não só a profissional que construiu um projeto sólido e reconhecido, mas a mulher que se construiu a si própria, desafio após desafio. Porque, no fim, o maior legado não é o que entregamos ao mundo — é aquilo em que nos transformamos enquanto o fazemos.

A liderança feminina ainda é, muitas vezes, “mal traduzida”. Que conceitos sobre mulheres em cargos de decisão continuam a perder-se nessa tradução?
A minha experiência como tradutora desde 2007 e como gestora da MD-TRAD mostra que a liderança feminina continua muitas vezes “mal traduzida”, não por falta de soluções linguísticas, mas por automatismos culturais. Em muitas línguas, o poder é expresso no masculino genérico ou em formas neutras que ainda evocam a autoridade masculina, diluindo a presença das mulheres em cargos de decisão.
Traduzir é, para mim, transportar visões do mundo. Manter a neutralidade de género é uma forma de rigor profissional: não acrescentar enviesamentos, mas também não reproduzir os existentes. Em suma, manter uma tradução neutra e precisa é também um ato de justiça profissional e cultural.

A Manuela Domingues construiu a MD-TRAD num setor altamente exigente, onde rigor, credibilidade e confiança são essenciais. Em que momentos sentiu que ser mulher foi um desafio… e em que momentos percebeu que foi exatamente a sua maior vantagem?
Ser mulher no setor da tradução e gestão de uma empresa como a MD-TRAD trouxe desafios e oportunidades em doses iguais. Percebi rapidamente que a minha sensibilidade intercultural, a capacidade de escuta ativa e a empatia — traços frequentemente ligados à liderança feminina — eram também as minhas maiores vantagens. Permitiram-me construir relações de confiança profundas, adaptar mensagens com precisão e negociar soluções complexas de forma colaborativa. Essas qualidades não apenas reforçaram a posição da MD-TRAD, mas também transformaram desafios em oportunidades, mostrando que uma liderança baseada na combinação de rigor e humanidade pode ser estratégica e diferenciadora.

Liderar é, muitas vezes, caminhar sem mapa. Houve alguma decisão difícil no seu percurso profissional que hoje reconhece como um ponto de viragem — mesmo que, na altura, tenha sido desconfortável ou arriscada?
No meu percurso profissional, houve uma decisão que marcou um ponto de viragem claro: deixar uma posição estável como gestora de clientes efetiva, numa área predominantemente masculina, para criar a minha própria empresa. Foi, sem dúvida, a decisão mais difícil — e mais arriscada — da minha vida profissional. Na altura, implicou abdicar de segurança, de rotinas consolidadas e de uma estrutura conhecida para entrar num território de incerteza total.
Passar de um contexto onde os processos, os clientes e os fluxos de trabalho estavam definidos para a responsabilidade integral de uma empresa — da estratégia à execução, da gestão financeira à relação com clientes — exigiu uma redefinição profunda do meu papel profissional. Houve momentos de dúvida, naturalmente, mas também uma convicção clara de que queria construir um projeto alinhado com os meus valores, o meu rigor e a minha visão do trabalho linguístico. Trabalhei o dobro, aguentei mais pressão, e mesmo assim avancei, mostrando resultado, consistência e respeito. 
Hoje reconheço essa decisão como o maior ponto de viragem do meu percurso. Criar a MD-TRAD foi o maior desafio da minha vida, mas nunca me arrependi. Caminhar sem mapa revelou-se, afinal, a única forma de chegar ao lugar certo.

É uma Mulher com a capacidade de tradução em diversas línguas. Acredita que essa sensibilidade intercultural moldou a sua forma de liderar? De que maneira a escuta e a empatia entram nas suas decisões?
Sim, acredito profundamente que a minha experiência como mulher e profissional com capacidade de tradução em diversas línguas moldou de forma decisiva a minha forma de liderar. A tradução vai muito além da transposição de palavras — implica compreender contextos, intenções, silêncios e referências culturais. Essa prática constante de mediação desenvolveu em mim uma liderança mais consciente das diferenças, mais estratégica na comunicação e mais atenta ao impacto das mensagens.
A escuta ativa e a empatia entram nas minhas decisões como ferramentas estruturais, não apenas como qualidades pessoais. Escutar verdadeiramente significa recolher informação relevante antes de agir, compreender motivações e identificar necessidades implícitas. A empatia, por sua vez, ajuda-me a ponderar o impacto humano das decisões, fortalecendo relações de confiança e promovendo um ambiente de colaboração.

Ao longo da sua carreira, que obstáculos sentiu serem mais silenciosos — aqueles que não aparecem nos discursos sobre igualdade, mas que pesam no dia a dia das mulheres em cargos de liderança?
Ao longo da minha carreira, percebi que os maiores obstáculos não são os visíveis, mas os silenciosos: a pressão para estar sempre disponível, a necessidade de justificar constantemente decisões que aos homens parecem naturais, e a atenção constante ao tom certo — firme, mas não demasiado; empática, mas não emocional. Estes desafios, muitas vezes impercetíveis para quem observa de fora, influenciam a forma como se lidera e exigem vigilância contínua. Aprendi que reconhecer e lidar com estes obstáculos é essencial. Transformá-los em consciência permite liderar de forma mais segura, consistente e humana, sem ceder à pressão de padrões invisíveis que ainda condicionam a liderança feminina.

O sucesso feminino ainda é, muitas vezes, acompanhado de culpa: por não estar “sempre presente”, por dizer não, por colocar limites. Já sentiu essa pressão? Como aprendeu a geri-la?
Sim, já senti essa pressão e ainda a sinto. Existe uma expectativa implícita de que a mulher bem-sucedida esteja sempre disponível, pronta a responder, como se colocar limites fosse sinal de falta de compromisso. Essa culpa manifesta-se muitas vezes na dificuldade em dizer não ou em estabelecer prazos realistas sem receio de desagradar. A conciliação entre vida profissional e pessoal mantém-se uma dificuldade relevante. No entanto, aprendi a gerir isso com experiência e diálogo com os clientes, estabelecendo prazos humanamente possíveis e, quando necessário, trabalhando além do horário normal. Quando os clientes reconhecem o valor do trabalho entregue, abre-se espaço para conversas honestas sobre deadlines, carga de trabalho e expectativas. Hoje vejo a gestão de limites como profissionalismo: dizer não ou negociar prazos é uma forma de garantir qualidade, consistência e respeito pelo trabalho e por quem o realiza.

Que conquistas da sua trajetória lhe dão mais orgulho — não apenas pelo resultado, mas pela mulher que se tornou durante o processo?
As conquistas que mais me orgulham não se medem apenas pelos resultados alcançados, mas pela mulher que me tornei ao longo do caminho. Ter sido consistente quando a tentação de desistir existia, corajosa nos momentos de maior incerteza e determinada quando os desafios pareciam maiores do que os recursos disponíveis foram aprendizagens profundas, construídas dia após dia.
Enfrentei obstáculos elevados, momentos de dúvida e decisões solitárias, mas mantive sempre uma linha clara de exigência e responsabilidade. Construir uma empresa do zero, sozinha, exigiu resiliência, visão e uma capacidade constante de adaptação. Este ano, ao celebrar os 10 anos de vida da MD-TRAD, reconheço que essa trajetória me transformou tanto quanto o projeto que criei.
Mais do que o crescimento da empresa, orgulho-me da força interior desenvolvida ao longo desse percurso — uma força que não é ruidosa, mas firme; não é impulsiva, mas consciente. Ter chegado até aqui confirma-me que a consistência, a coragem e a perseverança continuam a ser os pilares mais sólidos de qualquer liderança duradoura.

Num mundo cada vez mais acelerado e orientado para resultados imediatos, como protege o tempo para pensar, decidir e liderar com profundidade — sem perder humanidade pelo caminho?
Numa empresa unipessoal, onde a responsabilidade estratégica e operacional recai inteiramente sobre mim, proteger o tempo para pensar é uma condição de sustentabilidade. Num contexto em que tudo passa pela mesma pessoa, a tentação de viver permanentemente na urgência é constante. Por isso, organizo a minha agenda com rigor, estruturando-a por prioridades, o que exige uma grande disciplina.
Ao mesmo tempo, proteger esses espaços é também uma forma de consolidar a vida pessoal. Defino limites claros entre tempo profissional e tempo privado, reconhecendo que equilíbrio não é ausência de intensidade, mas gestão consciente de energia. Reservar tempo para a família, para o descanso e para interesses pessoais não é um luxo — é o que sustenta a lucidez, a criatividade e a qualidade das decisões.

A MD-TRAD vive da precisão das palavras, mas também da confiança nas pessoas. Que valores são, para si, inegociáveis numa equipa — mesmo quando o contexto exige rapidez e pressão?
Na MD-TRAD, a precisão das palavras é fundamental, mas a confiança nas pessoas é o que sustenta verdadeiramente o trabalho. Por isso, existem valores que considero inegociáveis no meu trabalho, mesmo nos contextos mais exigentes.
O primeiro é o rigor: cada tarefa deve ser feita com atenção e responsabilidade, porque no nosso setor a qualidade não pode ser comprometida, mesmo quando o prazo é curto. Em segundo lugar, a honestidade e a transparência: comunicar dificuldades, limitações ou erros de forma aberta permite encontrar soluções coletivas e evita surpresas que poderiam comprometer o projeto. Outro valor essencial é o respeito — entre colegas, com os clientes e com o trabalho que fazemos. A pressão não deve justificar comportamentos agressivos ou decisões apressadas que prejudiquem o resultado.
Para mim, estes valores não são apenas princípios éticos; são instrumentos de liderança. Mantê-los mesmo em contexto de pressão é o que garante que a MD-TRAD continue a entregar excelência de forma sustentável e humana.

O erro continua a ser mais tolerado em líderes homens do que em mulheres? Como lida com a exposição ao erro e que relação construiu com a imperfeição ao longo do seu percurso?
Sim, estudos e experiências de campo confirmam que, historicamente, o erro tende a ser mais tolerado em líderes homens do que em mulheres. Enquanto os homens frequentemente beneficiam de uma margem de manobra maior, as mulheres são muitas vezes julgadas de forma mais severa, o que exige delas uma atenção extra à credibilidade e à forma como assumem decisões.
No entanto, ao longo do meu percurso, aprendi que a exposição ao erro é inevitável, mas que a forma como lidamos com ele define a qualidade da liderança. Desenvolvi uma relação construtiva com a imperfeição, encarando os erros como oportunidades de aprendizagem e de crescimento — tanto pessoal como profissional. Essa abordagem exige coragem e transparência: admitir falhas, refletir sobre elas e comunicar soluções não diminui a liderança; pelo contrário, fortalece a confiança, a autenticidade e a resiliência.

Quando olha para o futuro da liderança — especialmente no feminino — o que sente que ainda precisa de ser profundamente reescrito, e não apenas ajustado?
Quando olho para o futuro da liderança no feminino, sinto que ainda é preciso reescrever profundamente a perceção do poder e da autoridade. A autoridade feminina não é opcional: é essencial para construir um mundo mais humano, justo e pacífico. A sociedade e as organizações ainda associam o poder à masculinidade, e isso limita oportunidades e invisibiliza estilos de liderança mais colaborativos, empáticos e inclusivos. O verdadeiro avanço exige mudanças estruturais e culturais para que a liderança feminina seja reconhecida e valorizada como uma força natural e indispensável.

Se pudesse deixar uma mensagem para a próxima geração de mulheres líderes, não como conselho, mas como verdade aprendida na prática, qual seria?
Acreditem na vossa capacidade, mesmo quando o mundo vos diz o contrário ou tenta derrubar-vos, e assumam a liderança com coragem e responsabilidade. As críticas e os obstáculos não devem abalar-nos; pelo contrário, tornam-nos mais fortes e resilientes. Liderar não é sobre ser perfeita, mas sobre ser consistente, ouvir, decidir e aprender com cada desafio. Tal como costumo dizer: “Críticas, desafios e obstáculos não foram muros, mas sim trampolins. Cresci, liderei, venci — e da minha vitória floresceu a MD-TRAD”. E nunca se esqueçam de que a vossa presença nos lugares de decisão não transforma apenas empresas, mas também sociedades, abrindo caminho para um futuro mais igualitário e inclusivo.

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