“Faça da sua Saúde Mental uma Prioridade”
A saúde mental deixou de ser um tema periférico para se afirmar como um dos pilares centrais das organizações contemporâneas. Num contexto marcado por exigência constante, mudanças aceleradas e crescente pressão sobre os profissionais, torna-se urgente repensar o papel do bem-estar psicológico no trabalho — não como benefício, mas como estratégia.
É neste enquadramento que surge a reflexão de Tânia Gaspar — Psicóloga Clínica, Doutorada em Psicologia e Gestão e Coordenadora do Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis. Em entrevista à Business Voice, destaca a importância de construir culturas organizacionais mais conscientes, onde a saúde mental seja integrada de forma estruturada, preventiva e sustentável. Mais do que responder a problemas, o desafio está em antecipá-los e criar ambientes onde as pessoas possam, efetivamente, prosperar.
Se a saúde mental tivesse um “barómetro social”, qual seria hoje a previsão: tempestade emocional, céu nublado ou sol a tentar romper? E porquê?
Se a saúde mental tivesse hoje um “barómetro social”, diria que a previsão seria mista: para algumas pessoas, tempestade emocional; para outras, céu nublado, com alguma dificuldade em deixar o sol romper. Vivemos num contexto marcado pela incerteza, pela sensação de que valores antes considerados estáveis estão agora a ser questionados, e por uma exposição quase permanente a conflitos, violência e tensão à escala mundial. Muitas pessoas sentem-se a viver num tempo em que “os deuses devem estar loucos”, sem referências seguras e com pouca confiança no futuro. Face a este cenário, há quem reaja com revolta, irritação e raiva, por vezes projetadas sobre os outros, sobretudo sobre os mais frágeis ou as minorias, transformados em bodes expiatórios. É mais fácil colocar a culpa em alguém do que tolerar a complexidade e a impotência. Mas há também quem responda de outra forma: através da apatia, do desinvestimento, do cansaço emocional e de uma espécie de entorpecimento, como se fosse perdendo a mão sobre a própria vida, sobre as decisões e sobre o futuro. O mais protetor, do ponto de vista da saúde mental, é recentrar no que está ao alcance de cada um: perceber o que podemos fazer, onde podemos agir e onde podemos cuidar. Não controlamos o mundo, mas podemos fazer a diferença em cada dia, em cada gesto, na família, no trabalho, na comunidade. Sermos mais atentos, mais generosos e mais cuidadosos connosco e com os outros não é pouco: é uma forma concreta de resistência saudável.
Vivemos numa era de hiperconexão, mas muitas pessoas sentem-se mais sozinhas do que nunca. A tecnologia está a aproximar-nos… ou a criar uma nova forma de solidão?
Vivemos numa era de hiperconexão, mas isso não significa, necessariamente, maior proximidade emocional. Pelo contrário, muitas pessoas sentem-se hoje mais sós do que nunca. A solidão tem vindo a ganhar expressão em jovens e adultos. Nos estudos do Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis, cerca de 50% dos jovens e dos profissionais refere sentir-se sozinho. E são precisamente estes grupos que revelam mais sintomas depressivos, mais ansiedade e burnout, uma perceção mais negativa dos ambientes de trabalho e das relações laborais, e expectativas futuras menos positivas. A solidão está ligada a uma sociedade cada vez mais individualista, competitiva e pressionada, em que o stress pode intensificar uma lógica de “salve-se quem puder”. A tecnologia pode ter um papel muito positivo: aproxima famílias em contexto de migração, facilita a conciliação entre vida pessoal e profissional e permite manter contacto frequente com amigos e redes de apoio. No entanto, também pode contribuir para uma nova forma de solidão. Sem sabermos sempre o que vem primeiro — o ovo ou a galinha —, sabemos que o uso excessivo de ecrãs e redes sociais está frequentemente associado a piores índices de autoestima, maior comparação com ideais irreais de sucesso e felicidade, mais isolamento social e défices nas competências de relação interpessoal. Ou seja, pode haver muita ligação e pouca verdadeira intimidade. A tecnologia é útil quando complementa as relações “analógicas”; torna-se problemática quando as substitui e quando deixa as pessoas menos preparadas para estar, conviver, escutar e relacionar-se presencialmente. Saber estar com os outros é importante, mas saber estar consigo próprio, de forma confortável e equilibrada, também é essencial.
Se pudesse eliminar apenas um mito sobre saúde mental que ainda persiste na sociedade, qual escolheria — e que impacto teria essa mudança?
Se pudesse eliminar apenas um mito sobre saúde mental que ainda persiste na sociedade, escolheria este: a ideia de que as pessoas com doença mental, ou com menor saúde mental, são fracas. É um mito profundamente injusto, desumano e perigoso. A perturbação mental pode acontecer a qualquer pessoa, em qualquer fase da vida, independentemente do género, da idade, da nacionalidade, da cultura ou da condição social. Além disso, a fronteira entre saúde mental e doença mental nem sempre é clara. Como saber se temos uma ansiedade esperável ou uma ansiedade patológica? Como distinguir tristeza de depressão? Cansaço de burnout? Muitas vezes, a diferença está na intensidade, na frequência e na duração dos sintomas, no sofrimento psicológico provocado e no impacto que têm na vida social, familiar, académica e profissional. Se este estigma diminuísse, as pessoas poderiam reconhecer mais cedo os sinais de alerta, falar sobre eles sem vergonha e procurar ajuda antes de a situação se agravar. Isso permitiria prevenir perturbações mais graves e reduzir o impacto no presente e no futuro. Precisamos, por isso, de falar mais e melhor sobre saúde psicológica, e de investir em literacia em saúde mental desde cedo, nas escolas, universidades e locais de trabalho. Tem de haver espaço para a fragilidade, para a vulnerabilidade, para a voz, para a partilha e para o respeito pela diversidade humana. Enquanto a perturbação mental continuar a ser vista como fraqueza, muitas pessoas vão continuar a sofrer em silêncio, com consequências muito mais elevadas para si, para as famílias, para as empresas e para a sociedade, incluindo em termos económicos.
Há quem diga que estamos a viver uma “epidemia silenciosa” de ansiedade e burnout. Estamos realmente pior ou simplesmente mais conscientes e mais dispostos a falar sobre o tema?
Quando se fala de uma “epidemia silenciosa” de ansiedade e burnout, é importante distinguir perceções de evidência. E a evidência científica aponta, de facto, para um agravamento. Os estudos que coordeno numa perspetiva life span — nomeadamente o Health Behaviour in School-aged Children, da Organização Mundial da Saúde, com crianças e adolescentes, o Observatório Ibérico de Ambientes de Aprendizagem Saudável e Participação Juvenil, com jovens universitários, e o Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis, com profissionais e reformados — mostram que, no período pós-pandemia, os indicadores positivos de saúde mental, como a felicidade e a satisfação com a vida, diminuíram, enquanto sintomas psicológicos como ansiedade, depressão, irritabilidade e burnout aumentaram em diferentes grupos etários. Portanto, sim, estamos pior em vários indicadores e isso não é apenas uma questão de perceção. Ao mesmo tempo, também é verdade que hoje se fala mais sobre saúde mental e que existe mais abertura para reconhecer sofrimento psicológico nos diferentes contextos. Isso é muito importante e representa um avanço civilizacional. Mas ainda não basta. Continuamos a precisar de mais espaço de escuta e prevenção nas escolas, nas famílias, nos locais de trabalho e nas políticas públicas. Falar mais sobre o tema é essencial; transformar esse discurso em ação concreta é indispensável.
Se a saúde mental fosse tratada com a mesma prioridade que a saúde física nas empresas, escolas e políticas públicas, como seria o mundo daqui a 10 anos?
O mundo daqui a dez anos seria substancialmente melhor. Como psicóloga clínica, a experiência da prática confirma-me diariamente que quem faz psicoterapia vive, em geral, com maior consciência de si, das suas emoções, pensamentos e comportamentos. Conhece-se melhor, compreende melhor os outros e desenvolve competências de gestão emocional e de relação interpessoal que protegem o bem-estar e previnem o adoecimento. Não podemos erradicar os riscos, os acontecimentos de vida difíceis, as perdas ou o sofrimento. Isso faz parte da condição humana. Mas podemos criar pessoas e contextos mais preparados para lidar com tudo isso. Se a saúde mental, na sua globalidade, fosse de facto uma prioridade, teríamos cidadãos mais conscientes de si e dos outros, mais capazes de cuidar da sua saúde mental, de prevenir a doença mental e de ajudar atempadamente quem precisa. Teríamos escolas mais protetoras, empresas mais humanas, comunidades mais coesas e uma sociedade mais saudável, mais forte, mais solidária e mais sustentável.
Se tivesse de deixar apenas um conselho simples, quase um “primeiro socorro emocional”, que qualquer pessoa pudesse aplicar nos dias mais difíceis, qual seria?
Diria o seguinte: faça da sua saúde mental uma prioridade. Se não cuidar de si, quem cuidará? Isso implica promover o autoconhecimento, aprender a compreender e a gerir emoções, desenvolver relações interpessoais positivas e baseadas na empatia, e escolher um estilo de vida saudável: dormir bem, alimentar-se de forma equilibrada, fazer exercício, procurar os amigos e não se isolar. Mas acrescentaria ainda um elemento essencial: encontrar propósito. Ter objetivos, sentido e direção ajuda-nos a enfrentar melhor os dias difíceis. Como diz a frase, “não há ventos favoráveis para quem não sabe para onde vai”. Quando sabemos o que é importante para nós, torna-se mais fácil relativizar os obstáculos, persistir e manter o rumo. Cuidar da saúde mental não é um luxo nem um sinal de fraqueza: é uma condição essencial para viver com mais equilíbrio, consciência, dignidade e esperança.