“A Saúde Mental deve ser gerida como um Ativo Preventivo Estratégico”
Esqueça a conversa confortável sobre saúde mental. Esta não é mais uma entrevista — é um alerta. Enquanto o mundo celebra a “quebra de tabus”, há uma verdade menos conveniente a emergir: falar mais sobre saúde mental não significa tratá-la melhor. E é precisamente nesse ponto de fratura — entre consciência e eficácia — que a visão de Gisela Maia, Fundadora, Diretora Executiva e Coordenadora Científica da MediBrain, bem como Membro Fundadora e da Direção da Associação Portuguesa de Neurofeedback e Neurotecnologia, ganha relevância disruptiva.
Na MediBrain, não há espaço para abordagens superficiais ou soluções genéricas. Aqui, o cérebro não é interpretado por metáforas, mas por dados. Sinal a sinal. Padrão a padrão. A integração entre neurofisiologia, medicina e bem-estar deixa de ser um conceito aspiracional e transforma-se num sistema clínico rigoroso, onde cada decisão é sustentada por décadas de experiência em neurofisiologia clínica — uma área onde errar não é uma opção técnica, é uma falha de leitura da própria mente humana.
Mas talvez a ideia mais incómoda — e necessária — desta conversa seja outra: estamos melhores a diagnosticar, mas não necessariamente a resolver. O aumento do sofrimento psicológico não é apenas um reflexo de maior consciencialização. É também um sintoma de um sistema que ainda não conseguiu escalar soluções eficazes, sustentáveis e verdadeiramente personalizadas. Identificamos mais. Tratamos… nem sempre melhor.
É aqui que o neurofeedback e a neurotecnologia deixam de ser tendências e passam a ser ferramentas críticas. Não como promessa futurista, mas como resposta concreta a um problema atual: como transformar conhecimento cerebral em mudança real e mensurável na vida das pessoas?
A entrevista à Business Voice não traz respostas fáceis — e ainda bem. Aporta, sim, uma provocação clara: se continuarmos a tratar a saúde mental com modelos do passado, mesmo com mais abertura social, estaremos apenas a sofisticar o diagnóstico de um problema que persiste por resolver.
E talvez o verdadeiro progresso comece exatamente aí — quando deixarmos de confundir falar sobre saúde mental com, efetivamente, conseguir mudá-la.
A saúde mental continua a ser maioritariamente abordada de forma reativa, intervindo, na maioria das vezes, quando o problema já está instalado. Considera que, enquanto sociedade, estamos a falhar ao não integrar a prevenção mental como um pilar obrigatório da saúde, ao mesmo nível da alimentação ou do exercício físico?
Sim, enfrentamos uma falha sistémica que urge corrigir. Esta lacuna resulta, em grande parte, de um estigma histórico: a aceitação social de uma patologia cardiovascular ou respiratória é, ainda hoje, superior à de qualquer condição do foro psiquiátrico. Esta assimetria na perceção pública leva-nos a negligenciar a sintomatologia precoce, o que acarreta repercussões neurofisiológicas profundas. A neuroplasticidade ensina-nos que o cérebro é um órgão dinâmico e moldável; aguardar pela instalação da patologia é ignorar o vasto potencial de resiliência neural que poderíamos cultivar.
Simultaneamente, sob o prisma da gestão em saúde, a abordagem puramente reativa revela-se ineficiente e financeiramente insustentável para qualquer sistema. A saúde mental deve ser gerida como um ativo preventivo estratégico — com métricas tão rigorosas e prioridade tão elevada quanto a higiene cardiovascular. Esta mudança de paradigma deve começar na base: a literacia emocional e a saúde do cérebro devem ser pilares educativos integrados nas escolas desde os primeiros anos de formação.
Vivemos numa era em que emoções naturais como ansiedade, tristeza ou frustração são rapidamente rotuladas como patológicas. Até que ponto acredita que estamos a assistir a uma medicalização excessiva da experiência humana, e quais podem ser as consequências disso a médio e longo prazo?
Mais do que uma medicalização excessiva por definição, creio que enfrentamos as consequências de uma procura de ajuda manifestamente tardia. No exercício da minha prática clínica e de diagnóstico observo que, quando o paciente finalmente recorre ao especialista, o quadro clínico apresenta já uma cronicidade que torna a terapêutica farmacológica muitas vezes inevitável para a estabilização imediata. Contudo, existe uma perigosa confusão conceptual: a tristeza e a ansiedade são afetos intrínsecos à experiência humana, mas não são sinónimos de depressão ou perturbação de ansiedade generalizada.
É imperativo desenvolvermos autoconsciência e mecanismos de regulação emocional; caso contrário, ao patologizarmos o desconforto inerente à vida, comprometemos severamente a nossa capacidade adaptativa e a plasticidade comportamental. Sob o ponto de vista da gestão estratégica, a consequência a médio e longo prazo é a cristalização de uma sociedade com baixa tolerância à frustração e uma dependência química que apenas mascara problemas estruturais. É fundamental que a medicina e a sociedade saibam distinguir com clareza o "sofrimento existencial" — que requer introspeção e resiliência — da "disfunção neurofisiológica", que exige intervenção clínica especializada.
Num contexto de hiperconectividade, pressão constante para performance e ausência de pausas cognitivas, será legítimo dizer que o verdadeiro “doente” é o estilo de vida contemporâneo — e não apenas o indivíduo?
Sem dúvida. O indivíduo é, frequentemente, o sintoma visível de um sistema em profundo desequilíbrio. A pressão para uma performance ininterrupta, que analisamos exaustivamente em contextos de liderança e alta gestão, colide frontalmente com os limites biológicos do processamento cognitivo humano. Vivemos num estado de "burnout sistémico", onde as exigências da economia da atenção excedem a nossa largura de banda neuronal. Contudo, é imperativo reconhecer a nossa quota de responsabilidade individual. No meu percurso académico e clínico, observo que a eficiência cognitiva seria drasticamente superior se existisse uma disciplina rigorosa na higiene do sono e na manutenção de hábitos saudáveis.
Muitos dos profissionais que me procuram com o objetivo de otimizar a atenção e o rendimento apresentam, após uma análise clínica ou recurso a exames diagnósticos, quadros graves de privação ou desregulação do sono. Em muitos casos, bastam breves questões diagnósticas sobre as rotinas de repouso para identificar comportamentos altamente nocivos que inviabilizam qualquer aspiração à alta performance. Antes de tentarmos "curar" o cérebro, precisamos de parar de agredir a sua fisiologia básica através de um estilo de vida que ignora a necessidade vital de recuperação.
Apesar dos avanços significativos na neurociência, o estigma associado à saúde mental continua profundamente enraizado. Na sua perspetiva, esta resistência deve-se mais à falta de literacia científica ou a barreiras culturais e sociais mais difíceis de desconstruir?
A resistência é multifatorial, mas o peso cultural é o mais difícil de desconstruir. Embora a literacia em saúde tenha avançado, o estigma reside na perceção da saúde mental como uma "fraqueza da vontade" em vez de uma "disfunção biológica". Superar isto exige não apenas dados (a medicina de precisão a favor das neurociências clínicas), mas uma mudança de narrativa social que humanize a biologia cerebral.
Enquanto especialista em neurofisiologia e neurociências, acredita que ainda subestimamos o papel do cérebro na forma como percebemos a realidade, tomamos decisões e até sabotamos o nosso próprio bem-estar?
Subestimamos de forma significativa. Como especialistas, observamos que o senso comum ainda encara o cérebro como um espelho da realidade, quando, na verdade, ele funciona como um simulador preditivo. Grande parte do que percebemos é moldado por experiências prévias e reforços neurobiológicos que, muitas vezes, são mal geridos, resultando em decisões enviesadas e comportamentos autodestrutivos. Um exemplo flagrante é a desvalorização do sono, frequentemente sacrificado em prol de uma produtividade ilusória. Reconhecer os limites e os mecanismos da nossa biologia não é uma limitação; é o passo fundamental para otimizar o nosso bem-estar e assumir o controlo consciente sobre as nossas escolhas.
O conceito de “bem-estar” tornou-se omnipresente, mas também altamente comercializado. Como é que um cidadão comum pode distinguir entre soluções baseadas em evidência científica e aquilo que poderíamos considerar apenas “wellness de superfície”?
A distinção fundamental assenta na validade científica. É imperativo diferenciar o bem-estar como produto de consumo do bem-estar como estado fisiológico. O 'wellness de superfície' foca-se na promessa imediata e na estética da solução; em contrapartida, a abordagem baseada em evidências foca-se no mecanismo biológico subjacente. O cidadão deve questionar se a solução proposta é sustentada por ensaios clínicos ou apenas por narrativas de marketing. Dada a sofisticação das estratégias comerciais atuais, a literacia em saúde e o acompanhamento por profissionais de saúde qualificados são as únicas garantias de uma escolha informada e segura.
Que ideias erradas sobre o funcionamento do cérebro e da saúde mental continuam a circular — inclusive em contextos aparentemente informados — e que impacto podem ter na forma como as pessoas procuram ajuda?
Persistem mitos resilientes, como a falácia dos '10% da capacidade cerebral' ou a dicotomia cartesiana que separa a saúde mental da saúde física. Esta fragmentação teórica é perniciosa: ao dissociar a mente do seu substrato biológico, promove-se a ideia de que patologias psiquiátricas são falhas de 'força de vontade' e não desequilíbrios na neuromodulação ou na conectividade estrutural. A ausência de biomarcadores de rotina em exames de imagem convencionais é frequentemente mal interpretada como inexistência de patologia, perpetuando o estigma. É imperativo compreender que a saúde mental é um pilar indissociável da saúde sistémica; negligenciá-la, ignorando a sua base neurofisiológica, eleva drasticamente o risco de desfechos críticos, como o suicídio.
O neurofeedback é frequentemente apresentado como uma tecnologia inovadora e quase futurista. Na prática clínica, considera que estamos a tirar pleno partido do seu potencial ou ainda existe um atraso significativo na sua adoção e compreensão?
Embora seja uma tecnologia de vanguarda, o Neurofeedback enfrenta ainda um hiato significativo entre o seu potencial científico e a sua adoção clínica, fruto de um défice na literacia técnica e na formação académica. Esta metodologia, que assenta nos princípios do condicionamento operante para promover a autorregulação cerebral, exige uma aplicação criteriosa. A sua eficácia não é universal; depende de uma avaliação neurofisiológica detalhada que pondere o perfil clínico e o regime medicamentoso do paciente. Portanto, a superação do atraso na sua adoção passa por validar o Neurofeedback como uma intervenção complementar de precisão, cuja eficácia é maximizada apenas quando gerida por especialistas altamente qualificados e em contextos clínicos estruturados.
Na sua opinião, o Neurofeedback e a tDCS devem ser vistas como um complemento às abordagens tradicionais, como a psicoterapia e a farmacologia, ou poderá vir a desafiar profundamente esses modelos no futuro?
É o elo que faltava. Não creio que substitua a psicoterapia ou a farmacologia em todos os casos, mas desafia o modelo tradicional ao oferecer uma via não invasiva e biológica para a mudança comportamental. No futuro, será a base de uma medicina personalizada, permitindo-nos "ajustar" a função cerebral com precisão cirúrgica.
Na MediBrain, como é que se traduz, na prática, a integração entre neurofisiologia, medicina e bem-estar, garantindo que não se trata apenas de um conceito, mas de uma abordagem clínica efetiva e diferenciadora?
Na MediBrain, a integração entre neurofisiologia, medicina e bem-estar transcende a teoria, materializando-se num workflow clínico rigoroso e diferenciador. A nossa abordagem assenta na análise exaustiva do sinal cerebral, conduzida por médicos especialistas com décadas de experiência em neurofisiologia clínica — uma disciplina que exige uma interpretação técnica de alto nível.
A nossa diferenciação reside na convergência da eletrofisiologia clássica com o processamento digital quantitativo, permitindo uma precisão diagnóstica sem precedentes. Ao cruzarmos estes dados objetivos com a prática clínica e a psicologia, desenvolvemos planos de intervenção personalizados que tratam o indivíduo como um ecossistema biológico.
Este compromisso com o detalhe estende-se até ao ambiente terapêutico: variáveis como a cromatologia, a luminotecnia e a configuração visual foram cuidadosamente projetadas para otimizar a resposta neurofisiológica e maximizar a eficácia da intervenção. Trata-se, em última análise, de uma medicina de precisão aplicada, onde o rigor científico e a gestão da experiência do paciente convergem para garantir resultados superiores
Hoje em dia, muitas instituições falam de abordagens integradas, mas na realidade funcionam de forma fragmentada. O que distingue, na sua visão, uma verdadeira integração clínica de uma simples agregação de serviços?
A distinção fundamental reside na interoperabilidade de dados e na adoção de um modelo de Medicina Baseada em Valor. Enquanto uma agregação de serviços funciona como um mero 'centro comercial' de especialidades isoladas, uma verdadeira integração clínica opera como uma unidade transdisciplinar focada na maximização dos resultados de saúde por cada recurso investido.
Na MediBrain, as decisões de um neurologista informam diretamente a estratégia do psicólogo e vice-versa, sob uma visão holística e estruturada do indivíduo. Este fluxo materializa-se em reuniões clínicas semanais, onde os dados de cada paciente são discutidos de forma rigorosa para garantir a melhor trajetória de tratamento. Além disso, a nossa diferenciação assenta na integridade ética: comunicamos com transparência que nenhuma prática garante a infalibilidade, focando-nos em gerir expectativas reais e em entregar valor tangível em vez de alimentar promessas ilusórias
Se tivesse a oportunidade de redesenhar o sistema de saúde mental em Portugal de raiz, que mudança estrutural consideraria prioritária para gerar impacto real e duradouro na vida das pessoas?
A mudança estrutural prioritária seria a transição de um modelo reativo para um modelo de prevenção primária e descentralização. Redesenharia o sistema através da criação de unidades de 'Saúde Cerebral' integradas nos cuidados de saúde primários, desviando o foco da psiquiatria de urgência para a literacia e deteção precoce. A utilização estratégica de biomarcadores neurofisiológicos permitiria identificar vulnerabilidades antes da cristalização da patologia. Uma mente funcional é o alicerce de uma tomada de decisão assertiva e, por extensão, do desenvolvimento social. Elevar a saúde mental a uma prioridade máxima não é apenas uma necessidade clínica, mas um imperativo económico e humano que começa na desconstrução do estigma e na intervenção precoce.
Num cenário em que a tecnologia permite cada vez mais monitorizar, otimizar e até “treinar” o cérebro, onde devemos traçar a linha entre promoção de saúde e uma pressão silenciosa para estar constantemente no máximo desempenho?
A linha deve ser traçada na ética da autonomia. O objetivo do treino cerebral deve ser a saúde e a flexibilidade cognitiva, não a transformação do ser humano numa máquina de produtividade. Devemos otimizar o cérebro para que o indivíduo tenha qualidade de vida, e não para que seja um recurso mais eficiente para o mercado.
Num mundo onde falar de saúde mental deixou de ser tabu, mas onde o sofrimento psicológico continua a crescer de forma silenciosa, estaremos realmente a evoluir — ou apenas a tornar-nos mais conscientes de um problema que ainda não sabemos, de facto, como resolver?
A evolução é evidente na quebra do tabu, mas a eficácia das soluções ainda não acompanha a escala do desafio. O aumento do sofrimento psicológico sugere que estamos a identificar melhor a patologia, mas a falhar na entrega de resultados sustentáveis. Atualmente, lidamos com uma 'consciência de diagnóstico' que carece de uma 'capacidade de intervenção' robusta. Para evoluirmos verdadeiramente, precisamos de ir além da narrativa e investir em abordagens que integrem dados objetivos e biomarcadores, permitindo tratar a saúde mental com o mesmo rigor científico de qualquer outra especialidade médica. Só quando a consciencialização for acompanhada por uma mudança no modelo de cuidados é que poderemos falar de uma resolução efetiva.
Gisela Maia é Diretora Executiva da MediBrain, onde lidera equipa de profissionais detentora de uma visão transformadora na prestação de cuidados de saúde neurológica e psiquiátrica. Com uma base académica sólida e multidisciplinar, é licenciada em Neurofisiologia, doutorada em Neurociências e detém um MBA em Gestão das Organizações e Serviços de Saúde.
A sua trajetória é definida pelo compromisso com a gestão integrada, focando-se na criação de um ecossistema clínico onde as neurociências convergem de forma absoluta. A sua abordagem privilegia a sinergia entre a Neurologia, Neurofisiologia, Medicina do Sono, Psiquiatria, Psicologia e Neuropsicologia, integrando ainda técnicas de vanguarda como a Neuromodulação.
Especialista em desenhar modelos de funcionamento holísticos e inovadores, dedica-se a superar os desafios do setor privado, estabelecendo novos padrões para o futuro da saúde mental através de uma prática clínica profundamente colaborativa e centrada na compreensão global do sistema nervoso.