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Entre o Ruído e a Escuta: Repensar a Saúde Mental em Portugal

Num tempo em que o ruído é constante, falar de saúde mental é, paradoxalmente, um exercício de escuta. Na entrevista com Isabel Prata, Presidente da Sociedade Portuguesa de Psicologia Clínica (SPPC), emerge uma visão que foge ao lugar-comum: a saúde mental não é apenas ausência de doença, mas presença de sentido. Psicóloga Clínica, Psicoterapeuta e Psicanalista, e sócia nº 1 de uma sociedade, a SPCC, que ajudou a fundar, Isabel Prata convida-nos a olhar para o indivíduo como um território em construção — feito de histórias, silêncios e contradições. Mais do que respostas rápidas, defende o valor do tempo, da relação terapêutica e da profundidade num mundo que insiste na superficialidade. Porque cuidar da mente não é otimizar, é compreender. E talvez seja esse o ponto mais disruptivo: num século obcecado com produtividade, parar para sentir pode ser o ato mais revolucionário de todos.

A saúde mental ganhou visibilidade pública, mas essa exposição traduziu-se em mudanças reais no acesso a cuidados — ou continuamos a assistir a uma “ilusão de progresso”?
Desde a pandemia as questões da saúde mental ganharam visibilidade e houve uma redução do estigma, especialmente junto das pessoas mais novas, para as quais procurar ajuda psicológica ou fazer psicoterapia se tornou um recurso normal. Mas os serviços de saúde mental não acompanharam a evolução da sociedade e o aumento da procura de cuidados não foi acompanhado por maior capacidade de resposta. Não há profissionais em número suficiente, o que faz com que haja pouca diversidade de recursos, sobrecarga dos que existem e os acompanhamentos das pessoas sejam muito espaçados, tornando-os pouco eficazes. Em saúde mental a regularidade e a intensidade das intervenções são necessárias para obter resultados e, com os recursos disponíveis, não acontece. Assim, a acessibilidade está muito longe do que é necessário. 

Portugal enfrenta níveis elevados de ansiedade e depressão. Estamos perante uma falha estrutural do sistema ou uma consequência inevitável do estilo de vida contemporâneo?
Temos de pensar nas duas dimensões: Existem contradições no sistema que comprometem a saúde mental: a promoção da competição em vez da colaboração; a promoção do individualismo em lugar da comunidade de interesses; a enorme acentuação da desigualdade na distribuição da riqueza, ao mesmo tempo que se acusam os pobres por serem pobres, em vez de se pensarem as condições estruturais responsáveis por este estado de coisas. 
E, neste sistema, os estilos de vida contêm inúmeros fatores de risco para a saúde mental, como os horários laborais excessivos que implicam também horários longos para as crianças nas creches e escolas, compromisso do tempo familiar de qualidade e sobrecarga dos adultos que têm dificuldade em equilibrar a vida profissional e pessoal.

A resposta dominante continua muito centrada na medicação. Estamos a negligenciar a intervenção psicológica e a tratar sintomas em vez de causas profundas?
Se nos centrarmos apenas na medicação, sim. Dar medicação é, muitas vezes, responder a uma pequena parte dos problemas. As pessoas com dificuldades psicológicas e de saúde mental necessitam ser ouvidas e desenvolverem-se do ponto de vista emocional e relacional. Para isso, a psicoterapia é a resposta adequada, em conjunto ou não com medicação.
Acrescentaria que o tratamento dos problemas de saúde mental tem de ser multidisciplinar e não inclui apenas medicação e psicologia, outros profissionais devem fazer parte da rede de cuidados. 

Qual tem sido o papel da Sociedade Portuguesa de Psicologia Clínica na promoção da prevenção da saúde mental em Portugal — e porque é que a prevenção continua a ter tão pouca expressão prática?
A Sociedade Portuguesa de Psicologia Clínica contribui na promoção da qualidade dos cuidados. Nesta área, a formação pós-graduada e a formação ao longo da vida dos profissionais são absolutamente necessárias, bem como a partilha profissional entre pares. É nesses campos que temos o nosso papel: fazemos formação de especialidade em psicoterapia psicodinâmica e formação permanente, aberta não só a membros da SPPC, como a profissionais da área da saúde mental e estudantes. Mantemos uma vida associativa dinâmica, em que os membros podem encontrar um lugar de debate e apoio para a sua prática profissional. Procuramos também desenvolver a investigação clínica, que faz parte do programa da formação. Temos um protocolo com a Ordem dos Psicólogos Portugueses de credenciação da nossa formação para acesso à especialidade avançada em psicoterapia.
Sobre o pouco investimento na prevenção, a boa prevenção para a saúde mental implica intervenções ambientais e comunitárias com promoção de mudanças no sistema e nos estilos de vida, o que gera resistências. Além disso, ela atua no médio prazo e estamos muito condicionados pela procura de resultados imediatos.  

A saúde mental no trabalho tornou-se tema central. As empresas estão verdadeiramente comprometidas com o bem-estar psicológico ou apenas a responder a pressões reputacionais e de mercado?
Genericamente, em Portugal não existem, por parte das empresas, grandes preocupações com o bem-estar psicológico dos trabalhadores. Talvez haja exceções, há empresas com serviços de ação social e clínicos que são bons recursos nessa área. Há iniciativas e linhas orientadoras para as empresas serem lugares de trabalho saudáveis, e fazem-se rankings sobre esse tema, mas penso que não é a maioria. 
Podemos relacionar esta ausência com a estrutura do sistema em que vivemos, centrado na produtividade e com tendência para excluir as questões emocionais. Ora isso é um erro, sabemos que ao cuidar do bem-estar psicológico dos trabalhadores há aumento da produtividade e evitam-se baixas médicas. Num relatório de 2023, da Ordem dos Psicólogos Portugueses, sugere-se que as perdas de produtividade por absentismo e presentismo devidos a questões psicológicas custam às empresas portuguesas até 1,4% do seu volume de negócios. Intervenções sobre o bem-estar psicológico poderiam reduzir estas perdas em pelo menos 30%. Portanto compensa investir no bem-estar psicológico dos trabalhadores.

A psicologia clínica em Portugal ainda enfrenta desafios de reconhecimento e valorização. O que precisa de acontecer para que a profissão tenha o peso que merece nas políticas públicas?
Atualmente está bastante claro o valor social da psicologia clínica, nomeadamente como as intervenções psicológicas, nas comunidades, junto das famílias e das pessoas individuais, podem não só aumentar o bem-estar como contribuir para diminuir custos da saúde. Não sei o que precisa de acontecer, foi interessante e inesperado, o resultado da pandemia, que trouxe as questões da saúde psicológica para a agenda social. Penso que as novas gerações estão mais preocupadas do que as anteriores com o bem-estar emocional e acredito que o maior reconhecimento da psicologia vai acontecer a par com o seu acesso às posições de decisão. 

Se tivesse poder para implementar uma mudança estrutural imediata no sistema de saúde mental em Portugal, qual seria — e que resistências acredita que surgiriam?
Na saúde mental, como em muitas outras áreas, Portugal tem boas leis, mas depois tem um problema crónico da sua aplicação, sempre com recursos humanos e financeiros insuficientes. Se pudesse, o que faria seria criar melhores condições de implementação de medidas existentes. E aumentaria o número de psicólogos atribuídos às diferentes equipas de saúde mental do SNS: é preciso perceber que um psicólogo clínico e um psicoterapeuta, para ser eficaz tem de fazer atendimentos com uma duração suficiente (pelo menos 30’ a 50’), regulares e com intensidade. As resistências provavelmente surgiriam relacionadas com a dificuldade de compreensão da especificidade das intervenções da psicologia, que justificam esta medida.



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