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Cuidar da Mente é Viver Melhor


Numa era em que o ritmo acelerado da vida desafia diariamente o nosso equilíbrio emocional, a saúde mental deixa de ser um tema secundário para assumir um papel central no bem-estar individual e coletivo. É neste contexto que Elisabete Sousa surge como uma voz inspiradora e transformadora. Fundadora da marca Heal & Grow Elisabete Sousa, é Psicóloga, Coach e Formadora e tem dedicado o seu percurso a ajudar pessoas a reconectarem-se consigo mesmas e a encontrarem propósito. Nesta entrevista à Business Voice, partilha a sua visão sobre os desafios atuais da saúde mental, a importância do autoconhecimento e como pequenas mudanças podem gerar um impacto profundo na qualidade de vida.

Vivemos numa era de soluções rápidas e “cura instantânea”. A saúde mental também caiu nessa lógica? O que se perde quando se tenta acelerar processos que são, por natureza, profundos?
Vivemos, de facto, numa cultura marcada pelo imediatismo, na qual se privilegia o que é rápido e acessível. A saúde mental não ficou à margem desta lógica; pelo contrário, tornou-se um dos seus campos mais influenciados.
Contudo, os processos emocionais não se configuram como problemas técnicos — são, antes, expressões da experiência humana que exigem tempo, escuta e elaboração. Quando se tenta acelerar aquilo que, por natureza, requer um ritmo próprio, compromete-se a possibilidade de integração. O que se alcança, frequentemente, é um alívio transitório, mas não uma transformação sustentada.
Observa-se, atualmente, uma crescente dificuldade em tolerar o tempo necessário ao processamento emocional. Procura-se uma resposta rápida para estados internos que, na sua essência, necessitam de ser compreendidos e integrados, e não simplesmente eliminados.
Esta cultura de gratificação imediata tende a moldar a forma como nos relacionamos com o sofrimento psíquico: em vez de o reconhecer e escutar, há uma tendência para o suprimir ou resolver de forma expedita. No entanto, é precisamente no espaço do tempo e da reflexão que ocorre a verdadeira elaboração emocional.
Sem esse tempo, não há integração consistente, apenas um alívio momentâneo que, por si só, não sustenta mudanças duradouras.

Fala frequentemente de maturidade emocional. Como distingue alguém emocionalmente maduro de alguém apenas “funcional” na sociedade?
A funcionalidade orienta-se, predominantemente, para as exigências externas; a maturidade emocional, por sua vez, enraíza-se na relação com o mundo interno.
Uma pessoa funcional é capaz de cumprir, adaptar-se e corresponder às expectativas do meio. No entanto, essa capacidade não implica, necessariamente, uma ligação autêntica a si própria. Em muitos casos, pode traduzir apenas um funcionamento eficaz ao nível da sobrevivência psicológica.
A maturidade emocional manifesta-se, de forma mais profunda, na capacidade de:
•    reconhecer e regular os próprios estados emocionais, sem se deixar absorver por eles;
•    tolerar a frustração, evitando respostas impulsivas ou desorganizadas;
•    assumir responsabilidade pela própria experiência, sem recorrer a uma posição de vitimização persistente.
Trata-se de uma distinção subtil, mas significativa: enquanto a funcionalidade se organiza em torno do que é esperado externamente, a maturidade emocional desenvolve-se a partir de uma consciência interna mais integrada e autêntica.

Até que ponto a vitimização tem sido romantizada no discurso atual sobre saúde mental? Estamos a empoderar ou a fragilizar as pessoas?
Atualmente, sinto que se observa uma maior abertura para a expressão emocional e conexão com a vulnerabilidade e com a dor, o que constitui um avanço significativo.
No caso de haver um estado maior de vitimização, torna-se problemático quando esta deixa de ser um ponto de partida e de processamento emocional e passa a ser um lugar de permanência constante.
Empoderar é reconhecer a dor e, ao mesmo tempo, devolver à pessoa a sua capacidade de conectar consigo própria, se auto responsabilizar e agir sobre a própria vida.

A Elisabete Sousa propõe uma abordagem estruturada e humana no seu trabalho. O que significa, na prática, unir método e consciência num processo de desenvolvimento pessoal?
Trata-se de intervir com intencionalidade e direção, sem comprometer a profundidade do processo.
O método organiza e estrutura o percurso terapêutico, confere clareza, sequência e coerência à intervenção. A consciência, por sua vez, atribui significado à experiência, permitindo que cada etapa seja efetivamente integrada, e não apenas cumprida de forma automática.
Na prática, este processo implica:
•    desenvolver uma maior autoperceção e, também, compreensão das circunstâncias do momento atual;
•    compreender as causas subjacentes às próprias reações emocionais e comportamentais;
O método orienta o caminho; é a consciência que possibilita uma transformação genuína e sustentada.

Existe hoje uma “indústria do bem-estar” em crescimento. Na sua perspetiva, o que separa uma verdadeira transformação de uma ilusão de progresso?
A diferença reside na profundidade da mudança.
A ilusão de progresso é muitas vezes estimulada por uma cultura que valoriza resultados rápidos e visíveis. nesses casos, alteram-se hábitos, consomem-se conteúdos, experimentam-se práticas, mas nem sempre se verifica uma transformação ao nível estrutural.
A mudança genuína pode ser menos evidente no imediato, mas revela maior consistência ao longo do tempo. Manifesta-se na forma como a pessoa regula o stress, se posiciona nas relações e toma decisões em contextos diversos.
Num mundo orientado para a recompensa imediata, é comum observar-se uma menor tolerância a processos que exigem continuidade e investimento prolongado. Tal tendência cria a sensação de evolução sem verdadeira mudança.

Muitas pessoas procuram “sentir-se melhor”, mas evitam enfrentar aquilo que realmente precisam de transformar. Na sua experiência, porque é que o desconforto ainda é tão evitado — e qual é o verdadeiro custo dessa fuga?
O desconforto, em algumas situações, algumas pessoas, por vezes, tendem a evitá-lo, quando na verdade, em muitos casos, este desconforto constitui precisamente o ponto de partida para processos de reorganização interna. Paralelamente, vivemos num contexto que favorece a constante presença de estímulos, a facilidade de distração e a valorização da rapidez, que podem reduzir a capacidade de permanecer em contacto com a experiência interna. Esta dinâmica fragiliza o espaço necessário à reflexão e à elaboração emocional.
O custo desta fuga raramente é imediato e, por isso, pode passar despercebido. No entanto, manifesta-se na repetição de padrões: dinâmicas relacionais que se mantêm, decisões que não evoluem, formas de funcionamento que se perpetuam.
Evitar o desconforto não resolve a dificuldade; tende, por vezes, a adiá-la.
Em última análise, o verdadeiro custo não reside no desconforto em si, mas na manutenção de uma vida pouco consciente, conduzida de forma automática e com reduzida capacidade de escolha, uma vida vivida em piloto automático.

Se tivesse de desconstruir um dos maiores mitos sobre saúde mental que a sociedade ainda perpetua, qual seria — e porquê?
O mito de “sentir-se bem sempre”. A saúde psicológica não se reduz ao bem-estar momentâneo; implica, sobretudo, a capacidade de lidar com a realidade interna e externa de forma mais consciente e integrada.
Existem momentos em que o crescimento psicológico envolve desconforto. Tal não indica, necessariamente, que algo esteja errado; frequentemente, sinaliza que um processo de mudança está em curso.
Reduzir a saúde mental à procura de estados permanentemente agradáveis contribui para a construção de expetativas irrealistas e pode comprometer o envolvimento em processos mais profundos de transformação.
Um outro equívoco frequente é a ideia de que “o tempo resolve tudo”. O tempo, por si só, não promove mudança; sem intencionalidade e reflexão, os padrões tendem a manter-se.

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