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“A Terapia é um processo de Responsabilização Individual”

A saúde mental já não cabe no silêncio — exige confronto, verdade e mudança. Na sua entrevista à Business Voice, Sandra Neto, Especialista em Psicoterapia Sistémica e Familiar, Terapia de Casal e Sexologia Clínica, desmonta mitos, expõe fragilidades estruturais e desafia a forma como empresas, casais e indivíduos encaram o equilíbrio emocional. Sem filtros, traz para o centro da conversa aquilo que durante demasiado tempo foi empurrado para as margens: a urgência de cuidar da mente com a mesma seriedade com que se cuida do corpo — ou do negócio.


Nos últimos anos tem-se falado cada vez mais de saúde mental, mas ainda existem muitos mitos e preconceitos. Na sua perspetiva, quais são os principais equívocos que ainda persistem na sociedade e de que forma podem comprometer o bem-estar emocional das pessoas?
Dentro daqueles mitos e preconceitos já amplamente conhecidos, como a ideia de que procurar um psicólogo é sinal de fraqueza, ou de que está necessariamente associado à presença de doença mental, ou ainda a desvalorização do sofrimento emocional através de expressões como “isso passa” ou “tens de ser mais forte”, importa dizer que, apesar de familiares, continuam a merecer toda a nossa atenção. São crenças ainda muito presentes e que, inevitavelmente, contribuem para o afastamento das pessoas de um acompanhamento psicológico, muitas vezes necessário.
Ainda assim, e considerando que estes temas têm vindo a ser progressivamente mais expostos e discutidos, gostaria de aproveitar este espaço para trazer para a reflexão aquilo a que considero serem os “mitos do agora”, mais subtis, mas igualmente impactantes, e que, pela sua atualidade, me parecem particularmente preocupantes.
Com o crescimento exponencial das redes sociais, assistimos a uma democratização da informação que, embora positiva em muitos aspetos, levanta também sérios desafios. A saúde mental tornou-se um tema amplamente falado, mas nem sempre com o rigor que exige. Hoje, diferentes áreas e pessoas sem formação especializada partilham conteúdos, opiniões e “fórmulas” sobre bem-estar psicológico, muitas vezes simplificando processos complexos. Esta sobrecarga de informação pode gerar mais confusão do que clareza, promovendo autodiagnósticos, comparações constantes e expectativas irrealistas sobre aquilo que é e não é, um processo terapêutico.
Outro aspeto que considero relevante é o desconforto que ainda existe em torno do próprio ato de ir ao psicólogo, algo que me chama ainda mais atenção desde que abri o meu projeto – Sobre Nós. Estar numa sala de espera ou à porta de uma clínica de psicologia continua, para muitas pessoas, a ser vivido com algum peso ou até vergonha. Este detalhe aparentemente simples revela que o estigma não desapareceu e que, apenas se tornou, por vezes, mais silencioso.
Importa também desconstruir a ideia, muitas vezes alimentada por representações culturais, de que a terapia é um espaço rígido, distante ou excessivamente formal. Pelo contrário, o processo terapêutico assenta numa relação humana, próxima e ajustada a cada pessoa. Parte do meu trabalho, incluindo a forma como me posiciono nas redes sociais, passa precisamente por tornar este processo mais acessível, transparente e menos intimidante, ajudando a aproximar as pessoas daquilo que realmente significa estar em terapia.
Por fim, um dos maiores equívocos atuais é a crença de que existem soluções universais e aplicáveis a todos. A terapia não é um conjunto de respostas prontas, mas sim um processo de responsabilização individual. Implica disponibilidade, tempo e envolvimento, e parte do reconhecimento de que cada pessoa é única, com a sua história, o seu contexto e o seu próprio ritmo. Nesse sentido, torna-se essencial desenvolver uma maior capacidade de filtrar o que consumimos, compreendendo que nem tudo o que vemos ou ouvimos é ajustado à nossa realidade, nem todos estamos no mesmo momento de prontidão para determinados processos.
Estes mitos comprometem o bem-estar emocional ao perpetuarem o estigma, criarem ruído informativo e afastarem as pessoas de um contacto mais consciente consigo próprias. 

Enquanto especialista em psicoterapia sistémica e familiar, terapia de casal e sexologia clínica, de que forma as dinâmicas familiares e relacionais influenciam a saúde mental de um indivíduo? Que sinais devem as pessoas observar para perceber quando uma relação começa a afetar negativamente o seu equilíbrio emocional?
Gosto muitas vezes de começar por uma imagem simples: a de que todos nós chegamos ao mundo com uma “mochila” vazia. Ao longo da vida, vamos preenchendo essa mochila com recursos e ferramentas que nos ajudam a lidar com o mundo — crenças, formas de pensar, de sentir e de nos relacionarmos. E, inevitavelmente, as primeiras pessoas a colocar “conteúdo” nessa mochila são os nossos pais ou cuidadores. É por isso que as dinâmicas familiares assumem um papel tão estruturante: são o nosso primeiro contexto de aprendizagem emocional e relacional.
Crescemos, em grande parte, por modelação. Observamos, absorvemos e reproduzimos. É no contexto das relações parentais que construímos as primeiras referências sobre o que é o amor, como se comunica, o que é aceitável — ou não — numa relação. A investigação mostra-nos que determinados padrões tendem a repetir-se ao longo das gerações, não de forma determinista, mas com alguma probabilidade: por exemplo, contextos marcados por agressividade, ausência de validação emocional ou dificuldade na gestão de conflitos podem influenciar a forma como, mais tarde, nos posicionamos nas nossas próprias relações. Aquilo que aprendemos como “normal” tende, muitas vezes, a ser replicado — mesmo quando nos faz sofrer.
Ainda assim, é fundamental sublinhar que não somos apenas produto do nosso contexto. Somos seres bio-psico-sociais, o que significa que, embora sejamos influenciados pelas nossas experiências e relações, também temos capacidade de reflexão, escolha e transformação. A consciência sobre os nossos padrões é, muitas vezes, o primeiro passo para quebrar ciclos e construir formas de estar mais ajustadas e saudáveis.
No que diz respeito aos sinais de alerta numa relação, é importante estarmos atentos a mudanças no nosso próprio estado emocional. Quando uma relação começa a gerar cansaço constante, ansiedade, insegurança ou uma sensação de estarmos a perder contacto connosco próprios, é importante parar e refletir. A dificuldade em expressar necessidades, o receio da reação do outro, a sensação de não sermos valorizados ou respeitados, ou a tendência para normalizar comportamentos que nos geram desconforto são indicadores relevantes.
Mais do que olhar apenas para a relação em si, é essencial olhar para aquilo que a relação nos faz sentir e naquilo em que nos vamos tornando dentro dela. Relações saudáveis não são isentas de conflito, mas devem ser espaços onde existe segurança, respeito e possibilidade de crescimento.
No meio de tudo isto, há uma pergunta simples, mas profundamente reveladora, que pode funcionar como um importante sinal de alerta: sou eu própria nesta relação?

Vivemos numa era marcada por grande exigência profissional, pressão social e hiperconectividade digital. Que impacto têm estes fatores na saúde mental das pessoas e que estratégias podem ajudar a criar maior equilíbrio entre desempenho, descanso e vida pessoal?
Mais do que nunca, faz sentido começarmos com uma pergunta desconfortável, mas necessária: estamos a viver ou apenas a sobreviver?
Vivemos numa era de elevada exigência, onde o desempenho, a produtividade e a constante disponibilidade parecem ter-se tornado critérios centrais de valor pessoal. A hiperconectividade digital veio intensificar este cenário, diluindo fronteiras entre trabalho e vida pessoal e criando a sensação de que estamos sempre “ligados”, sempre acessíveis, sempre em resposta. Todos queremos respostas rápidas e na hora para tudo. Este ritmo contínuo tem um impacto direto na saúde mental, contribuindo para estados de exaustão, ansiedade, dificuldade em desligar (não apenas do trabalho, mas também de nós próprios) e, consequentes burnouts. 
Por vezes, parece que o mundo nos pede para sermos quase “máquinas” ou até “polvos”, capazes de dar resposta a múltiplas exigências em simultâneo, com eficiência constante e pouca margem para falhar. Neste contexto, o descanso começa a ser visto como um luxo ou até como improdutivo, quando, na realidade, é uma componente essencial da nossa vitalidade, equilíbrio emocional e funcionamento saudável. Não há desempenho sustentável sem recuperação.
A verdade é que estamos, de certa forma, numa fase experimental. Somos talvez a primeira geração a viver este nível de estímulo, exigência e aceleração, o que nos coloca também no lugar de “era piloto” na procura de respostas para a pergunta: como é que se faz isto de forma saudável?
No entanto, está na altura de nos aliarmos enquanto sociedade ao famoso ditado “se não os consegues vencer, junta-te a elas” e, por isso, acredito que criar equilíbrio não passa por eliminar exigências, mas por desenvolver uma relação mais consciente com elas. Isso implica aprender a definir limites, reconhecer sinais de cansaço antes da exaustão, criar momentos reais de pausa e, sobretudo, legitimar o descanso como necessidade e não como recompensa. Implica também repensar a forma como nos mediamos a nós próprios, afastando-nos da lógica de produtividade constante e aproximando-nos de um funcionamento mais humano, mais flexível e mais sustentável.
No meio de tantas exigências externas, talvez o maior desafio seja interno: voltarmos a ouvir o nosso próprio ritmo e perceber que cuidar de nós não nos afasta do desempenho, pelo contrário, é aquilo que o torna possível.

No contexto da psicologia do desporto e da alta performance, muitas vezes fala-se da importância da força mental. Como se constrói essa resiliência psicológica e que ensinamentos desse universo podem ser aplicados no dia a dia de qualquer pessoa, mesmo fora do desporto?
A chamada “força mental” não é algo inato ou reservado a atletas de alto rendimento, é uma competência que se constrói, de forma intencional, através da forma como pensamos, nos organizamos e nos posicionamos perante os desafios.
Um dos primeiros pontos, e muitas vezes o mais negligenciado, é a orientação. É difícil falar de resiliência ou consistência quando não sabemos claramente para onde estamos a ir. No contexto da alta performance, existe sempre um ponto de partida bem definido: o que quero alcançar? quais são os meus objetivos? 
Fora do desporto, muitas pessoas vivem com uma sensação de desorientação, o que dificulta o foco, a tomada de decisão e a persistência. Ter clareza sobre o objetivo é o que dá direção ao esforço.
Outro aspeto fundamental é a capacidade de manter o foco, não apenas no resultado, mas no desempenho e no caminho até lá. Na alta performance, não basta querer ganhar, é essencial analisar continuamente o que está a ser feito, ajustar estratégias e perceber o que pode ser melhorado. Este tipo de pensamento aplicado ao dia a dia permite-nos sair de uma lógica passiva e entrar numa lógica de crescimento e evolução contínua.
A responsabilização é também um pilar central. Desenvolver força mental implica assumir um papel ativo nos próprios resultados, focando a energia naquilo que está ao nosso alcance. Nem tudo depende de nós, mas aquilo que depende deve ser assumido com compromisso. Esta mudança de perspetiva, de um lugar mais reativo para um lugar mais responsável, tem um impacto direto na forma como lidamos com desafios e adversidade.
Neste processo, o trabalho com metas torna-se essencial. Grandes objetivos podem facilmente tornar-se abstratos ou até paralisantes se não forem devidamente estruturados. A capacidade de os “ramificar”, ou seja, dividi-los em etapas concretas, mensuráveis e ajustadas à realidade, permite maior clareza, consistência e motivação ao longo do percurso e não nos esquecermos do que queremos. 
Por fim, a força mental constrói-se também através de uma visão mais diretiva e intencional sobre a própria vida. Não se trata de controlo absoluto, mas de presença, decisão e alinhamento entre aquilo que queremos e aquilo que fazemos diariamente. A vida tem-nos colocado em piloto automático e estas características devolvem-nos um lugar central naquilo que é a nossa vida.
No fundo, aquilo que a psicologia do desporto nos ensina é que a consistência supera a intensidade, que o processo é tão importante quanto o resultado e que, muitas vezes, a maior mudança acontece quando deixamos de esperar pelas condições ideais e começamos a trabalhar com aquilo que já está nas nossas mãos.
Porque, na verdade, a pessoa mais forte não é a que tem mais capacidades, mas sim a que sabe utilizar, de forma consistente e intencional, as capacidades que tem.

A saúde mental está frequentemente ligada à qualidade das relações afetivas e à forma como comunicamos emoções. Que papel desempenham a comunicação emocional e a intimidade na construção de relações saudáveis e no bem-estar psicológico?
A qualidade das nossas relações está profundamente ligada à forma como comunicamos e, sobretudo, à forma como comunicamos emocionalmente. No entanto, há um ponto prévio que muitas vezes é esquecido: como posso comunicar aquilo que sinto, se nem sempre sei identificar ou compreender o que se passa dentro de mim?
É muito comum ouvirmos expressões como “eu sempre fui assim” ou o uso frequente de “sempre” e “nunca” na comunicação. Para mim, estas são quase palavras proibidas, porque fecham espaço à reflexão e à mudança. As pessoas tendem a aceitar aquilo que são sem, necessariamente, compreenderem o que são ou porque o são e, sem esse nível de consciência, torna-se muito difícil construir uma comunicação emocional clara, ajustada e autêntica.
Vivemos também um tempo em que queremos tudo dentro de uma relação. Procuramos novidade, intensidade e surpresa, mas, ao mesmo tempo, desejamos estabilidade, segurança e previsibilidade, aquilo que sustenta a intimidade emocional. Este equilíbrio não é impossível, mas exige consciência e intenção. O desafio é que, muitas vezes, nem sabemos exatamente o que queremos, nem quem somos dentro da relação, o que torna ainda mais difícil comunicar necessidades e construir um vínculo ajustado.
A comunicação emocional, sobretudo nas relações amorosas, pode muitas vezes parecer um jogo de tentativa-erro, quase como um Euromilhões, onde se tenta acertar na forma certa de dizer, no momento certo, da maneira certa. Mas, ao contrário de um jogo de sorte, a comunicação aprende-se, constrói-se e afina-se com disponibilidade, escuta e intenção.
Já a intimidade é um conceito mais amplo do que muitas vezes se pensa. Gosto de a imaginar como um guarda-chuva com várias varetas: a intimidade emocional, física, sexual, intelectual, entre outras. Quando uma dessas dimensões falha ou está fragilizada, o equilíbrio da relação pode ficar comprometido. Não se trata apenas de proximidade, mas de conexão, de nos sentirmos vistos, compreendidos e seguros na presença do outro. 
Para mim, a comunicação emocional e a intimidade são as paredes mestras da casa de uma relação. São aquilo que sustenta, organiza e dá estabilidade ao vínculo. Quando estão presentes e bem cuidadas, contribuem não só para relações mais saudáveis, mas também para um maior bem-estar psicológico individual. Quando falham, é muitas vezes aí que começam a surgir o distanciamento, a frustração e a sensação de desencontro.
No fundo, investir na forma como comunicamos e na forma como nos conectamos é investir diretamente na qualidade das nossas relações e, inevitavelmente, na nossa saúde mental.

Se tivesse de deixar três recomendações práticas para que as pessoas cuidem melhor da sua saúde mental no dia a dia — seja na família, no trabalho ou nas relações — quais seriam e porquê?
Mais do que recomendações clássicas, gosto de pensar em princípios que nos orientam na forma como nos relacionamos connosco e com a vida.
A primeira seria: desenvolvam interesse e curiosidade por vocês próprios. Muitas vezes, passamos grande parte da vida em piloto automático, sem questionar o que sentimos, o que pensamos ou porque reagimos de determinada forma. Quanto maior for o nível de consciência sobre nós — sobre os nossos padrões, necessidades e limites, maior será a capacidade de fazermos escolhas mais ajustadas. E isso reflete-se em tudo: nas relações, no trabalho e na forma como cuidamos da nossa saúde mental.
A segunda recomendação é um convite mais desconfortável: não se acomodem onde não estão felizes. É natural existirem fases de dúvida, cansaço ou insatisfação, mas permanecer continuamente em contextos que nos esgotam, sem questionamento ou ação, tem um custo emocional elevado. Muitas vezes adiamos decisões, adaptamo-nos em excesso ou convencemo-nos de que “é assim mesmo”, esquecendo-nos de que a única coisa verdadeiramente certa que temos é esta vida. E cuidar da saúde mental também passa por termos coragem para nos reposicionarmos.
Por fim, algo que me parece essencial e, ao mesmo tempo, muitas vezes negligenciado: amem. Mas amem para além do sentido romântico a que estamos habituados. O amor é uma força estruturante dá-nos energia, propósito e vitalidade. Pode estar nas relações, mas também em experiências, interesses, projetos, lugares. Talvez devêssemos desafiar-nos, de forma consciente, a apaixonarmo-nos por algo novo ao longo da vida: um desporto, uma amizade, uma cidade, uma nova fase. Porque é nesse movimento que nos mantemos vivos, ligados e em crescimento.
No fundo, cuidar da saúde mental não passa apenas por evitar o que nos faz mal, mas por aproximarmo-nos, de forma intencional, daquilo que nos faz sentir vivos.



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