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“Juntas somos mais Fortes”

Maria João Antunes não fala de empoderamento como tendência — fala como prática. Com 35 anos de experiência no mundo corporativo, mais de 25 em cargos de gestão de topo, transforma vivência em visão e liderança em impacto. Autora de Ecos da Mudança e Empoderamento Feminino em Ação, prova que o otimismo não é ingenuidade — é estratégia. Uma entrevista que inspira, provoca e lembra: mudar o mundo começa por assumir o nosso lugar nele.

Se o Dia Internacional da Mulher deixasse de existir amanhã, que conversa urgente acha que ainda estaria por fazer — e porque continua a ser evitada?
Se o Dia da Mulher deixasse de existir amanhã, podia ser pelo lado mais negro, a falta de liberdade a impedir a sua celebração, como em Portugal antes do 25 de Abril de 1974. Mas esperemos que não!
Se acontecesse de novo, acho que teria faltado verdadeiramente AÇÃO, vontade genuína do poder político em alterar a situação. Porque este dia é frequentemente reduzido a homenagens, flores, uma forma simpática e confortável, mas que depois do dia 8 de março, passa o efeito.
O que é evitado são debates profundos sobre o que já foi feito, o que falta fazer, bem como questionar porque ainda não foi feito e decidir fazer.! Evita-se, sobretudo, envolver os homens numa conversa que ameaça o seu status quo: questionar a masculinidade tradicional é questionar o modelo de liderança que temos.
Será que valorizamos a agressividade e a competitividade porque são realmente as melhores qualidades para liderar, ou porque foram as qualidades que sempre garantiram o poder aos homens? Este tipo de conversas ameaça a forma como as empresas, a política e a sociedade estão organizadas. Basta olhar para a percentagem residual de mulheres no topo das empresas e no cenário político.

É autora do livro “Ecos de Mudança”. O que mudou em si ao ouvir homens refletirem sobre o papel das mulheres — e o que ainda precisa, claramente, de mudar nos mesmos?
O que mudou em mim? Esperança.
Ao ouvi-los, percebi que há muitos homens de diferentes idades e condições que genuinamente acham que esta desigualdade não faz sentido. A disponibilidade que encontrei foi real, pelo que, além da esperança, passei sem dúvida a sentir os homens como aliados potenciais.
Mas o que ainda preciso mudar neles? Precisamos que mais homens se juntem a esta causa e que passem da teoria à prática. É preciso sensibilizá-los para a importância da diversidade, quebrar crenças estereotipadas enraizadas numa cultura machista e paternalista. Não é fácil, eu sei, mas também sei que se nada fizermos nada vai mudar.
Sobretudo, é preciso coragem para enfrentar um trabalho estrutural que começa na educação desde a primária até à faculdade. Um povo educado escolhe o respeito, não a discriminação. Enquanto houver grávidas despedidas, mulheres a ganhar menos pelo mesmo trabalho, assédio normalizado, violência e morte, estamos longe do que precisamos.
Muitos homens nunca pensaram seriamente no tema porque vivem num mundo que os protege. O que precisa mudar neles é a disponibilidade para serem aliados de verdade com tudo o que isso implica de desconforto, perda e transformação.

Ao longo do livro, cruzam-se conquistas, feridas, silêncios e coragem. Que custo pessoal ainda não reconhecido muitas mulheres continuam a pagar para poderem simplesmente ocupar o seu lugar de voz e decisão?
Felizmente há mulheres que chegam ao topo e que desenvolvem carreiras brilhantes sem sentirem um custo pessoal acrescido.  Eu própria cheguei à administração de uma grande empresa multinacional e nunca me senti inferior, tive uma vida pessoal de verdadeira igualdade. E não sou a única.
Mas os números mostram-nos que apesar do esforço há mulheres que não conseguem lá chegar. E para muitas que chegam, o preço é elevado. 
A maternidade é talvez o maior custo invisível. A responsabilidade pela educação dos filhos continua a cair sobre as mães, e isso pesa numa carreira de topo. As mulheres deviam exigir dos parceiros uma partilha real, mas isso não apaga o facto de o sistema as colocar nesta posição.
Depois, há o escrutínio. As mulheres precisam de provar muito mais do que os homens. Cada erro é amplificado e cada sucesso visto como exceção. Quem quebra tetos de vidro é muitas vezes pioneira: não há mentoras, não há manuais. E há um peso adicional, esmagador e solitário: o de ser embaixadora do próprio género. Se falham, não falham como indivíduos; falham como "prova" de que as mulheres não são capazes, já no homem a falha é normalizada.
Por fim, há ainda um custo silencioso: a erosão lenta da paz de espírito, da saúde mental, da identidade. Muitas mulheres acumulam papéis, de mãe, mulher, cuidadora, líder e quando chegam ao topo, não experimentam a plenitude do sucesso. Estão apenas exaustas! Exaustas de ser, num mundo que ainda lhes exige o dobro e não remunera igual.

Vivemos uma era de discursos rápidos e ativismo “de vitrine”. Como distinguir um verdadeiro aliado da causa feminina de alguém que apenas reproduz o discurso socialmente aceite?
Vivemos a era do ativismo de vitrine, onde os likes valem mais que a ação. Mas como distinguir o verdadeiro aliado?
O verdadeiro aliado age primeiro na esfera privada. Divide o trabalho doméstico, educa os filhos para a igualdade, não sacrifica a carreira da parceira. O falso aliado contenta-se com posts bonitos no Dia da Mulher.
O aliado genuíno escuta com humildade, partilha e não se ofende quando uma mulher corrige a sua perspetiva. O seu ego não depende de ser visto como "woke". Confronta o amigo da piada sexista, o colega que assedia, o pai que perpetua estereótipos. Sabe que o seu papel não é "salvar" mulheres, mas sim questionar outros homens nos espaços onde elas não estão.
Muito importante também, o verdadeiro aliado entende que a igualdade exige redistribuição de poder. Sabe que pode perder regalias, um cargo, um lugar na lista, o protagonismo para que uma mulher o ocupe e aceita isso sem se vitimizar. Apoia a promoção de uma mulher, não quer igualdade apenas enquanto for confortável.
Por fim, percebe que perder privilégios não é perder direitos é ganhar uma sociedade mais justa onde ele também pode ser mais humano.

Olhando para o seu percurso pessoal e profissional, em que momento sentiu que deixou de pedir “lugar à mesa” e passou a construí-la — e que impacto é que isso teve nas escolhas que fez a partir daí?
Na verdade, eu nunca pedi um lugar à mesa ganhei-o pela competência, pela experiência, pela resiliência. Sempre lutei sem preconceitos e nunca deixei que me rebaixem-se por ser mulher, estudei e preparei-me, pedi ajuda quando achei que precisava. A competência e a autoconfiança é uma grande arma.
Quando cheguei ao topo, felizmente trabalhava numa multinacional que não discriminava por género nos cargos de direção/gestão. Mas sei que essa não é a regra.
Muitas mulheres são humilhadas, silenciadas pela chefia ou pelos pares. Há homens com medo de perder o seu lugar, CEOs que preferem escolher homens por preconceitos enraizados: porque as mulheres procriam, porque têm de sair cedo para cuidar da casa, ou simplesmente porque o ego não lhes permite ver uma mulher naquela posição.
Mas também existem mulheres que são coagidas em casa e acabam por se anular. E depois ainda existe o outro lado, algumas mulheres adotam uma atitude "masculina" para serem reconhecidas, perdendo a autenticidade. Outras calam-se com medo de críticas e veem as suas ideias serem apresentadas por colegas como se fossem deles. Outras ainda usam uma linguagem cuidadosa para não parecerem ameaçadoras. Por isso, reafirmo, é preciso preparação, resiliência, autoconfiança, coragem para avançar. Se os homens falam, porque é que nós havemos de ficar caladas? É importante exigir respeito e clareza e se não conseguimos sozinhas, devemos pedir ajuda.
“Se não te sentas à mesa, fazes parte da ementa”!

Que pergunta ainda ninguém lhe fez sobre as mulheres — e que gostaria muito de responder neste 8 de março?
Sabemos que os homens precisam de mudar o seu comportamento, o seu mindset para a igualdade de género e que precisam estar ao nosso lado, dai este meu último livro! Mas, e as mulheres o que precisam de fazer, podem fazer mais?
Sim, as mulheres podem e precisam de fazer mais. Mas esse mais não é um fardo é um despertar.
Precisamos de acordar para o facto de que muitas de nós ainda carregam culpas que não lhes pertencem. A culpa de não ser a mãe perfeita, a culpa de ambicionar uma carreira, a culpa de querer tanto quanto o companheiro. 
Se o sonho profissional é igual ao do marido, a logística familiar também tem de ser igual, Ponto final!   A mulher cuidadora não pode apagar a mulher que sonha e não se trata de escolher, trata-se de exigir, sem receios.
Num mundo que nos obriga a provar o dobro, temos de ser estrategistas. Dizer não às tarefas invisíveis que nos consomem sem nos projetarem. Negociar sem medo de parecer agressivas. Ocupar lugares de poder mesmo quando a insegurança sussurra que não estamos prontas, porque os homens avançam com menos certezas e mais ousadia. E nós somos tão competentes como eles. 
Há mulheres que não querem uma carreira de topo. E está bem assim. O problema não é esse. O problema são as que querem e não conseguem, porque o sistema as trava, porque os parceiros não partilham, porque a culpa as imobiliza.
A estas digo: preparem-se, busquem ajuda se precisarem, lutem e saiam da vossa zona de conforto.  Ainda podemos fazer mais!  simples, mas às vezes parece difícil, falo da colaboração entre as mulheres, a isto chama-se sororidade. É que juntas somos mais fortes!!!



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