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Quando o Feminino Transforma a Liderança

Determinada, estratégica e movida por propósito, Patrícia de Jesus Monteiro, Advogada e Fundadora da PJM Advogados, é a prova de que liderança no feminino não é tendência — é transformação. Nesta entrevista especial dedicada ao Dia Internacional da Mulher, fala-nos de coragem, posicionamento e da importância de ocupar o lugar à mesa das decisões com competência e convicção. Porque igualdade não se pede. Exerce-se.

Se o sistema jurídico tivesse sido desenhado de raiz por mulheres, o que seria estruturalmente diferente — e o que isso diz sobre o poder hoje? 
De acordo com a minha perspetiva, o sistema jurídico português deveria ser regido com base nos seguintes conceitos: a) Equidade: foco nas necessidades específicas de diferentes grupos e remediar as disparidades; b) Legislação de apoio à Maternidade: ser mais progressista, garantindo direitos às mulheres com foco no controle sobre os seus próprios corpos, no acesso a serviços de saúde e na educação sexual; c ) Violência de Género: criar mecanismos de proteção mais robustos e sensíveis às vítimas, além de programas de prevenção e de educação; d) Licença Parental: a legislação laboral poderia incluir uma licença parental mais equitativa, beneficiando homens e mulheres, para incentivar a participação dos pais na criação dos filhos; e) Participação Igualitária: estruturalmente, o sistema poderia ter maior diversidade e representação nos cargos de liderança f) Multiculturalismo: tirar partido da diversidade cultural. 

A advocacia ainda é um palco onde as mulheres precisam de provar duas vezes mais para serem reconhecidas? Em que momentos sentiu isso de forma mais clara? 
Em Portugal, apesar de eu não sentir, a advocacia ainda é vista como uma profissão onde as mulheres enfrentam desafios para serem valorizadas. A questão mais particular é o "Equilíbrio entre Vida Profissional e Pessoal”. A exigência de longas horas de trabalho e a pressão para estar disponível 24 sob 24 horas pode ser um handicap, especialmente para aquelas que também são responsáveis pela gestão da casa e cuidados familiares, podendo levar ao desconforto e à necessidade de justificativas constantes para prioridades pessoais. Ainda nos dias de hoje é surpreendente, como por exemplo, muitas mulheres dizem que é melhor ter advogado homem porque o marido não respeita mulheres! E a maioria das mulheres ainda precisam lidar com a perceção de que não são tão competentes quanto os seus colegas masculinos. Isto ocorre em interações quotidianas, como numa simples consulta jurídica, em audiências ou mesmo durante negociações, onde a assertividade das mulheres pode ser vista de forma negativa! 

Liderar sendo mulher implica inevitavelmente confrontar estereótipos. Já sentiu que firmeza é confundida com dureza e empatia com fragilidade? Como se equilibra essa narrativa? 
Muitas de nós em posições de liderança enfrentamos uma panóplia de sentimentos, entre firmeza e dureza, assim como, entre empatia e fragilidade. Esses estereótipos podem ser desafiadores e, por vezes, podem impactar a forma como a liderança feminina é avaliada. A título de exemplo: quando atuo com firmeza em determinadas posições, sou apelidada como "dura" ou "difícil", enquanto muito provavelmente os homens podem ser vistos como assertivos. Para equilibrar estes setores, é importante que as mulheres se sintam confortáveis em afirmar a sua posição, comunicando-a de maneira clara e assertiva, com uma abordagem que demonstre respeito e abertura ao diálogo. 

Enquanto fundadora, que tipo de cultura fez questão de criar na PJM Advogados que talvez não tivesse encontrado noutras estruturas tradicionais? 
A PJM Advogados cultiva uma cultura que valoriza: a)Relação próxima com o cliente: um compromisso com a diversidade de géneros, etnias e formações, promovendo um ambiente onde diferentes vozes e perspectivas são valorizadas; b) Colaboração e Trabalho em Equipa: colaboração entre advogados / juristas e profissionais de outras áreas, quando necessário, fomentando a troca de ideias e inovação nas soluções jurídicas; c) Valorização do equilíbrio entre vida profissional e pessoal; d) Crescimento e desenvolvimento pessoal dos mais jovens no acesso à profissão, através dos nossos estágios. 

A meritocracia é muitas vezes apresentada como neutra. Na sua experiência, ela é realmente neutra ou ainda carrega vieses silenciosos? 
A nível empírico, as pessoas não têm as mesmas envolvências nem começam todas do mesmo lugar. Acesso à educação de qualidade, redes de apoio e de contato, estabilidade financeira e capital cultural variam muito. O que parece “mérito” muitas vezes é também resultado de oportunidades anteriores. Quem define o que significa “mérito”? Olhando para a etimologia, o termo "mérito" vem do latim "meritum" ou "meritus", que significa “bondade", "serviço" ou "valor”, originado do vocábulo "merere" ou "mereō" que significa merecer, ganhar, adquirir, conquistar. Estes critérios refletem valores culturais e institucionais que podem favorecer certos percursos profissionais. Pela minha experiência, raramente é neutra. 

Se pudesse deixar uma mensagem incómoda — mas necessária — ao setor jurídico neste Dia Internacional da Mulher, qual seria? 
Na realidade, aos “olhos” da sociedade, as mulheres devem “se proteger e não atacar”; o que muitas vezes acontece é transferir para as mesmas a responsabilidade por violências que não criaram. Justiça não é pedir que o alvo se defenda melhor — é impedir que o agressor continue a agir. Exigir silêncio, recato ou autoproteção constante das mulheres não é neutralidade; é omissão. A Justiça verdadeira não ensina apenas defesa; confronta também a origem da agressão.

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