Pesquisar

Utilizamos cookies para garantir que tenha a melhor experiência no nosso site. Ao continuar a utilizar o nosso site, você aceita o uso de cookies e a nossa Política de Privacidade.

“Gostaria de deixar um legado de Inspiração”

O Dia Internacional da Mulher não é apenas um marco simbólico — é um teste à coerência das organizações e à coragem das suas lideranças. Em 2025, ao assumir o cargo de CEO do Grupo Gesvalt, Sandra Daza não inaugurou apenas um novo ciclo de gestão; consolidou uma visão onde mérito, rigor e diversidade coexistem como pilares estratégicos, e não como declarações institucionais. Num setor exigente e historicamente homogéneo, a sua liderança afirma-se com discrição firme e ambição clara.
Nesta entrevista, reflete sobre o significado contemporâneo do Dia Internacional da Mulher, desafiando narrativas confortáveis e propondo uma mudança estrutural: menos celebração circunstancial, mais compromisso efetivo. Porque a verdadeira igualdade não se proclama — constrói-se.

Ao longo de mais de 20 anos na Gesvalt, o que mudou mais em si: a líder que é atualmente ou o mundo empresarial que a rodeia?
Ambos evoluíram, sem dúvida. O mundo empresarial mudou radicalmente nas últimas duas décadas e, embora, na essência, eu continue a ser a mesma pessoa, a trajetória profissional, a experiência adquirida e os conhecimentos acumulados inevitavelmente transformam-nos e fazem-nos evoluir. No meu caso, a minha passagem pela Gesvalt permitiu-me crescer progressivamente como líder, aprendendo a tomar decisões com visão estratégica e a gerir equipas em ambientes complexos e incertos. Experiências como a crise de 2008, juntamente com os grandes desafios da internacionalização ao entrar em novos mercados, o impacto da pandemia a nível global e a transformação digital que estamos a enfrentar nos últimos anos, ensinaram-me a adaptar-me rapidamente a circunstâncias em mudança, a antecipar tendências e a equilibrar a inovação com a solidez operacional.

Assumiu a Direção Geral da Gesvalt em 2015 e, em 2025, o cargo de CEO. O que é mais desafiante: chegar ao topo ou manter uma visão clara quando se está lá?
Ambos os momentos representaram grandes desafios. Chegar lá implica esforço, dedicação e constância; mas manter a liderança requer um equilíbrio entre a continuidade do legado recebido e a capacidade de inovar e transformar-se para continuar a crescer. É precisamente isso que reflete a aposta em novas iniciativas que estamos a levar a cabo na Gesvalt, como o lançamento da Gesvalt Data e o impulso decidido para a digitalização e a sustentabilidade, orientadas para oferecer um maior valor acrescentado, antecipar as necessidades do cliente e reforçar a competitividade da empresa. Além disso, a criação de novas áreas ou a aposta em novos serviços significa nunca perder o pulso do mercado, manter uma atitude de aprendizagem permanente e saber rodear-se de uma equipa empenhada e envolvida, capaz de partilhar uma visão comum e de transformar desafios em oportunidades.

Houve algum momento na sua carreira em que sentiu que ser mulher fez diferença, positiva ou negativamente, nas decisões que lhe foram confiadas? 
Talvez no início da minha vida profissional, a combinação de ser uma mulher jovem fez com que eu tivesse de apresentar mais méritos do que outros colegas para ganhar a confiança necessária para liderar alguns projetos, mas com o passar do tempo, em geral, senti-me valorizada da mesma forma que os meus colegas. 

Se tivesse de definir a sua liderança em três palavras que não costumam aparecer nos manuais de gestão, quais seriam e porquê?
Curiosidade, resiliência e empatia. Porque um líder não se restringe a liderar, também aprende constantemente, adapta-se aos desafios e compreende genuinamente as pessoas à sua volta. Essas qualidades, além dos conceitos tradicionais, são as que constroem relações sólidas e promovem equipas empenhadas.

Na sua trajetória para a liderança de topo, que crença sobre si mesma teve de «desaprender» para poder avançar?
Tive de abandonar a ideia de que errar é sinónimo de fraqueza e que um líder deve ter controlo absoluto sobre tudo. Compreendi que o erro faz parte da aprendizagem e que delegar acrescenta valor.

O Dia Internacional da Mulher ainda faz sentido no mundo empresarial atual ou é um lembrete necessário de que a igualdade não é algo que se possa dar como garantido?
Embora tenhamos avançado muito, a igualdade de oportunidades ainda não é uma realidade universal. É um lembrete de que a equidade não deve ser dada como certa e que ainda há um caminho a percorrer. Este dia promove a reflexão coletiva e a ação para que o talento feminino seja verdadeiramente reconhecido e valorizado da mesma forma que o masculino.

Que tipo de poder considera mais transformador numa líder: o poder de decidir, o poder de influenciar ou o poder de inspirar?
O poder de inspirar. A inspiração e o exemplo são a base de uma liderança autêntica e duradoura. Inspirar motiva, mobiliza e deixa uma marca que transcende a tomada de decisões diárias. E sinceramente acredito que, no final, ter uma pessoa que nos inspira é o que gera impacto tanto nas equipas como na organização e, além disso, promove o empenho e a retenção de talentos.

Que conselho daria a uma mulher altamente competente que sente que ainda precisa de dar mais provas que os outros para ser reconhecida?
Eu diria para primeiro reconhecer o seu próprio valor. Essa sensação muitas vezes decorre da “síndrome de impostor” com o qual muitos de nós temos de lidar: a insegurança de não sabermos se estamos suficientemente preparados para enfrentar um desafio. Mas é preciso ter presente que o melhor reconhecimento deve vir de nós próprios e confiar nas nossas capacidades, celebrar as nossas conquistas e agir com segurança. Só assim será possível projetar essa confiança para que os outros também a reconheçam. Se duvidarmos de nós, os outros também duvidarão de nós.

Olhando para o futuro, que legado gostaria que fosse associado ao seu nome, não apenas como diretora executiva, mas como mulher líder?
Gostaria de deixar um legado de inspiração, especialmente para que outras mulheres confiem na sua voz e visão, liderem com integridade e criem ambientes diversificados e meritocráticos. Aspiro a que a minha passagem pela Gesvalt seja associada ao crescimento sustentável, à excelência profissional e ao impulso de uma liderança que transcenda os resultados imediatos, coloque as pessoas no centro e contribua de forma positiva e duradoura para o setor e para a sociedade.



Mais Artigos Relacionados "Sociedade"