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“Ser mulher no Direito, hoje, é ser a arquiteta do seu próprio Destino”

No Dia Internacional da Mulher, há percursos que falam mais alto do que qualquer discurso. O de Raquel de Sousa Branco é um deles. Formada em Solicitadoria, licenciada em Direito, a nossa interlocutora construiu o seu caminho com determinação, estudo e coragem — num universo onde a competência ainda é, tantas vezes, posta à prova no feminino. Nesta entrevista, deixa uma mensagem clara, sem rodeios nem concessões: “Acreditem no vosso valor, cultivem competências e não se intimidem pelos obstáculos.” Mais do que celebrar a data, esta é uma conversa sobre atitude, ambição e a força tranquila de quem sabe que o lugar da mulher é onde ela decidir estar.

No sentido de dar a conhecer ao nosso leitor, quem é a Raquel de Sousa Branco e que análise perpetua da sua carreira até aos dias de hoje? 
A Raquel de Sousa Branco, é, acima de tudo, uma mulher de convicções. Natural de Cinfães, acredita que a advocacia é muito mais do que a mera aplicação da lei, é uma ferramenta de proteção de valores. O meu percurso não foi linear, formei-me em Solicitadoria em Barcelos e, movida pelo desafio, rumei a Lisboa onde me licenciei também em Direito. Trabalhei alguns anos na área jurídica ligado ao investimento e ao imobiliário, nos quais exigiram crescimento e determinação. Em 2022, mudei-me para o Porto sozinha, cidade onde hoje foco a minha carreira na área do contencioso. Orgulho-me de ter construído a minha independência, fruto exclusivo do meu trabalho e resiliência. Paralelamente à minha carreira jurídica, mantenho um foco constante no investimento e na diversificação de ativos, acreditando que a solidez financeira é o pilar que sustenta a liberdade de decisão. Aos 31 anos, analiso a minha carreira como uma metamorfose, transformei obstáculos em alavancas de crescimento. De cada desafio, extraí um conhecimento profundo sobre a minha capacidade de superação. Hoje, a minha prática reflete uma maturidade que equilibra a exigência técnica com uma visão humanizada. Não me limito ao status quo, procuro o próximo nível de excelência, tendo a integridade e a paixão como pilares. O meu propósito é garantir que a “Raquel de hoje” seja um contributo real para salvaguardar os direitos daqueles que, como eu em tempos, precisam de uma defesa intransigente.

O que a motivou a seguir carreira no Direito e em setores historicamente dominados por homens? Houve algum momento decisivo que a fez perceber que queria trilhar este caminho?
A minha motivação nasceu da convicção de que a justiça deve ser uma salvaguarda real, e não apenas teórica. O momento decisivo surgiu quando percebi, por experiência própria, a importância da proteção jurídica em momentos de vulnerabilidade. Decidi ser a advogada que eu própria precisei de ter, alguém que aplica a lei com humanismo e eficácia.
Quanto aos setores historicamente masculinos, como o imobiliário e o investimento, encarei-os como um desafio natural. O facto de ter iniciado a minha vida independente aos 18 anos, trabalhando e estudando em simultâneo, deu-me a coragem necessária para não me intimidar. Percebi cedo que o mérito é a resposta definitiva a qualquer estereótipo. A minha trajetória, marcada por mudanças de cidade sem rede de apoio, ensinou-me que o sucesso não se pede, conquista-se com trabalho e resiliência.

Ao longo da sua carreira, quais foram os maiores desafios de ser mulher num ambiente tradicionalmente masculino, e como os superou?
O maior desafio foi a necessidade de validar constantemente a competência num meio onde a autoridade masculina é, muitas vezes, presumida. Superei-o com uma preparação técnica irrepreensível e firmeza estratégica, tanto no imobiliário em Lisboa como no contencioso no Porto. Aprendi que o conhecimento anula o preconceito e que a minha atitude define o meu espaço. Transformei a subestimação alheia numa vantagem competitiva, enquanto outros se perdiam em formalismos, eu focava-me em ser a profissional mais preparada e orientada a resultados. No Direito, como na vida, a minha maior força é a independência e o foco absoluto na solução.

Na sua visão, a presença feminina no Direito acrescenta uma perspetiva diferente? Se sim, de que forma?
Sem dúvida. A presença feminina acrescenta uma visão holística que transcende o rigor técnico. No contencioso, não lidamos apenas com processos, mas com vidas e expectativas que exigem uma leitura apurada das entrelinhas. A minha perspetiva permite conciliar a firmeza necessária em tribunal com uma inteligência emocional estratégica, essencial para antecipar conflitos e humanizar a justiça. Este equilíbrio entre a perceção humana e a letra da lei permite-me encontrar soluções disruptivas e ajustadas à realidade.

Como equilibra a exigência profissional com a vida pessoal, sem se perder nas pressões de um setor competitivo? 
O equilíbrio conquista-se através de uma gestão rigorosa de prioridades. Atuo num setor de exigente, mas a paixão pelo que faço torna a intensidade sustentável. Não abdico de rotinas que blindam o meu bem-estar, como o treino físico regular. Sou, acima de tudo, criteriosa na forma como invisto o meu tempo. Acredito que a consistência nasce da disciplina e da capacidade de ajustar a balança às exigências de cada fase, sem nunca perder a essência. Procuro na minha vida pessoal a paz que a vida profissional muitas vezes consome, o meu tempo livre é o meu ativo mais precioso.

O Direito é um setor muitas vezes associado à tradição e regras rígidas. Onde vê oportunidades para a inovação feminina transformar estas estruturas?
Embora assente na tradição, o Direito tem espaço para evoluir na forma como é praticado. A inovação feminina surge na capacidade de conciliar rigor técnico com visão estratégica e sensibilidade humana. Questionar modelos rígidos, gerir o tempo e os conflitos de forma mais eficiente e colocar as pessoas no centro do processo permite modernizar o setor sem comprometer a sua solidez. A inovação passa também pela evolução das plataformas digitais, como o Citius, cuja centralização e melhoria na tramitação dos processos pode tornar a justiça significativamente mais célere e eficaz.

Quais mudanças positivas que já observou ao longo da sua carreira em relação à inclusão e valorização das mulheres no Direito? Este também é um papel que deve ser realizado pelas Mulheres? 
Hoje, vejo mulheres que, em vez de esperarem por espaço, o criam. Observo uma valorização crescente da competência técnica que foca no resultado, independentemente do género. Contudo, a verdadeira valorização começa em nós, é nosso papel não aceitar a mediocridade.
Promover a inclusão no Direito significa fomentar uma cultura de mérito e, acima de tudo, de autonomia financeira. Através do sucesso individual e da mentoria, mostramos que a advocacia, não é apenas uma profissão de elite, mas uma ferramenta de liberdade e poder pessoal. Ser mulher no Direito hoje é ser, fundamentalmente, a arquiteta do seu próprio destino.

Se pudesse mudar uma única barreira estrutural ou cultural que ainda dificulta o progresso das mulheres no seu setor, qual seria e porquê?
A maior barreira ainda é a cultura que associa autoridade apenas ao género masculino, sendo que muitas das grandes sociedades de advogados do país foram fundadas por homens, e embora hoje haja mais mulheres a representá-las, obriga-nos a provar o nosso valor repetidamente. Uma mulher que detém o comando da sua carreira e que é financeiramente livre não precisa de validação externa para liderar. Alterar esta mentalidade é modernizar o setor, a competência não precisa de licença para se afirmar.

Como é que a sua identidade enquanto mulher influencia a sua atuação profissional, as decisões que toma e a forma como lida com casos sensíveis?
A minha identidade confere-me uma visão estratégica e empática, fundamental para antecipar movimentos em casos sensíveis. Esta influência reflete-se na conciliação do rigor técnico com a sensibilidade humana, permitindo decisões onde a ética do resultado e a autoridade profissional prevalecem sempre. Para mim, ser mulher no Direito é unir a firmeza da decisão à clareza de quem comanda a sua própria vida.

Se pudesse deixar uma mensagem poderosa para todas as mulheres que estão a construir carreiras em setores desafiantes, inclusive em Direito, qual seria?
Acreditem no vosso valor, cultivem competências e não se intimidem pelos obstáculos. O sucesso conquista-se com trabalho, foco e integridade. Cada desafio é uma oportunidade para crescer e abrir caminho para outras mulheres. Persistência, confiança em si próprias e, acima de tudo, encontrar o vosso propósito são as maiores ferramentas para transformar setores desafiantes e deixar um legado. 

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