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“A Verdadeira Força nasce da Flexibilidade: Sentir, Regular, Recuperar”

A Business Voice esteve à conversa com Marisa Marques, Psicóloga Clínica e da Saúde, numa entrevista que cruzou ciência, consciência social e atualidade. Em destaque estiveram os temas do neurodesenvolvimento e da saúde mental, abordados numa perspetiva clara e humanizada, bem como a reflexão em torno do Dia Internacional da Mulher, enquanto momento de afirmação, igualdade e valorização do papel da mulher na sociedade. Uma conversa pertinente, que reforça a importância do conhecimento psicológico na construção de contextos mais saudáveis e inclusivos.

Enquanto mulher e psicóloga, de que forma acredita que a sua vivência feminina influencia a forma como escuta, compreende e intervém clinicamente — sobretudo com meninas e adolescentes?
A minha forma de ouvir e compreender nasce muito antes da minha formação académica. Nasce da minha história, das relações que me atravessaram, das perdas, dos encontros, das perguntas que a vida me obrigou a fazer cedo. Ser mulher não é um detalhe na minha prática clínica, é parte da arquitetura da minha sensibilidade.
Cada experiência vivida trouxe-me uma forma refinada de como reconheço dor, silêncio, ambivalência, desejo de pertença. Eu não ouço apenas o que é dito; observo o que o corpo diz, o que o olhar evita, o que a linguagem ainda não conseguiu organizar. E é impossível separar essa capacidade da mulher que me tornei ao longo do caminho.
Ao trabalhar com crianças e adolescentes, encontro ecos de processos universais: a construção da identidade, a negociação com o corpo, a necessidade de amor e validação, o medo de não ser suficiente. A minha história não se sobrepõe à delas, mas funciona como um território interno que me permite tolerar a intensidade dessas vivências sem recuar. Eu sei, por experiência e por ciência, que o desenvolvimento não é linear, é um diálogo constante entre biologia, vínculo e contexto.
É aqui que a neurociência e o neurodesenvolvimento entram. O que emocionalmente reconheço, teoricamente compreendo. Sei que o cérebro em desenvolvimento é profundamente moldado por relações, por segurança, por stress, por pertença. Sei que a adolescência não é desorganização, é reorganização. E essa consciência muda tudo: a intervenção deixa de ser correção e passa a ser acompanhamento de um processo vivo.
A minha prática nasce exatamente nesse ponto de fusão entre quem eu sou e aquilo que estudo, entre a mulher que viveu, que continua a viver, e a profissional que escolheu compreender profundamente o funcionamento humano. Eu não entro no consultório despida de história; entro consciente dela. Cada relação que me marcou, cada perda, cada amor, cada reconstrução ampliou a minha capacidade de estar diante do outro sem medo da intensidade.
 Não trabalho a partir de um lugar asséptico. Trabalho a partir de uma presença regulada, viva, humana. Sei o que é atravessar dor e continuar a mover-me, sei o que é reorganizar-me por dentro. E essa experiência transforma a forma como sustento o sofrimento de quem se senta à minha frente. A minha história não invade a clínica, mas dá-me musculatura e suporte emocional para não recuar diante da complexidade.
A neurociência só me trouxe linguagem para aquilo que eu já intuía: que cada emoção tem um circuito, cada vínculo deixa marcas neuronais, cada experiência reescreve possibilidades. O cérebro não é abstrato, é biografia em movimento. Quando me encontro com uma criança ou uma adolescente, vejo ali um sistema nervoso em desenvolvimento a tentar encontrar regulação, pertença, significado. E isso implica uma responsabilidade profunda: intervir com rigor, mas também com uma humanidade radical.
A clínica é o lugar onde tudo se encontra. Onde a mulher que sente e a profissional que sabe caminham juntas. Diariamente trabalho em mim mesmo para não oferecer apenas técnica; mas sim oferecer presença sustentada por ciência e atravessada por vida. É nesse encontro que acredito que a verdadeira transformação acontece, quando alguém é visto ao mesmo tempo com precisão e com ternura.

Na sua prática clínica, que desafios emocionais e psicológicos continuam a afetar de forma particular as mulheres desde a infância até à idade adulta, e que ainda são pouco falados ou valorizados socialmente?
Grande pergunta. Na verdade, vejo um padrão que atravessa a vida de muitas mulheres desde a infância: a aprendizagem silenciosa de viver em função do outro. Muitas meninas crescem a acreditar que ser amada passa por adaptar-se, antecipar necessidades, não incomodar. Isto é socialmente valorizado, mas emocionalmente tem um custo que só aparece mais tarde, e muitas vezes da pior forma.
Um dos desafios menos falados é a hipermaturidade emocional precoce. Meninas que aprendem cedo a ser responsáveis, a cuidar, a segurar tudo. Tornam-se mulheres altamente funcionais, mas com um sistema nervoso permanentemente em alerta. A ansiedade delas raramente é um caos visível, é competência excessiva. É uma performance sustentada à custa de desgaste interno.
A relação com o corpo feminino é hoje moldada por uma exposição quase permanente: aquilo que deveria ser experiência íntima transforma-se em território social e vitrine digital. Meninas aprendem cedo que o corpo não é apenas sentido, é apresentado, comparado, validado. Viver sob esse olhar contínuo instala uma autoconsciência constante, uma vigilância interna que infiltra a autoestima, fragiliza a segurança e limita a liberdade emocional. Quando o corpo deixa de ser casa e passa a ser performance, essa transição tem um custo psicológico profundo.
E depois há a culpa estrutural que acompanha muitas mulheres: culpa por dizer não, por querer mais, por não conseguir tudo. Mulheres brilhantes a viverem em negociação interna permanente entre desejo e permissão.
A neurociência ajuda-nos a compreender que isto não é fragilidade individual. O cérebro adapta-se ao contexto. Um sistema altamente sensível a relações, sem espaço para descanso, transforma sensibilidade em sobrecarga.
O que mais me marca clinicamente é que estas dores raramente chegam nomeadas. Não entram no consultório como o problema principal. Chegam disfarçadas de ansiedade, perfeccionismo, exaustão silenciosa. E quando uma mulher percebe que parte do seu sofrimento é aprendido, não como falha pessoal, abrindo-se um espaço profundo de libertação.
Nomear isto não enfraquece mulheres. Dá-lhes linguagem. E a linguagem é poder.

O Dia Internacional da Mulher convida-nos à reflexão, mas também à ação. Na sua opinião, o que ainda falta mudar — em casa, na escola e na sociedade — para promover um desenvolvimento emocional mais saudável das meninas?
Falta, antes de tudo, mudarmos a forma como educamos emocionalmente as meninas. E não só, a forma como educamos os meninos. Continuamos a ensinar papeis emocionais diferentes desde muito cedo: às meninas pedimos adaptação e contenção; aos meninos, força e silêncio. Ambos pagam o preço. Promover um desenvolvimento saudável implica libertar crianças dessas expectativas estreitas e dar a todos o mesmo direito à complexidade emocional.
Em casa, isso significa permitir que meninas expressem raiva sem serem rotuladas e que meninos expressem vulnerabilidade sem vergonha. Significa educar para limites, autonomia e autorrespeito, não para agradar. Na escola, precisamos de espaços onde o erro não seja uma ameaça à identidade e onde o valor não esteja apenas na performance. O perfeccionismo e a autocensura nascem muito cedo quando o afeto parece condicionado ao desempenho.
E socialmente, ainda romantizamos a resistência feminina e a dureza masculina. Celebramos mulheres que aguentam tudo e homens que não sentem. Isso empobrece ambos. Precisamos de modelos que incluam descanso, cuidado emocional e linguagem afetiva como sinais de maturidade, não de fraqueza.
O desenvolvimento emocional saudável começa quando uma criança entende que o seu valor não depende de cumprir um papel, mas de existir com autenticidade. Essa mudança não é apenas educativa, é cultural. É nesse ponto que a transformação deixa de ser discurso e passa a ser ação.

Como especialista em neurodesenvolvimento, que impacto têm as pressões sociais, os estereótipos de género e a autoexigência excessiva no desenvolvimento cerebral e emocional das jovens mulheres?
O cérebro em desenvolvimento é extremamente sensível ao ambiente social. Pressões, expectativas e estereótipos não são apenas ideias abstratas, são experiências que moldam circuitos neuronais. Quando uma criança cresce sob exigência constante de performance, adaptação e validação externa, o sistema nervoso aprende a funcionar em modo de vigilância.
A auto-exigência excessiva, que muitas vezes é elogiada como virtude, mantém o cérebro num estado crónico de ativação. A longo prazo, isso interfere com regulação emocional, tolerância ao erro e sensação de segurança interna. Não estamos a falar apenas de ansiedade psicológica; estamos a falar de padrões neurobiológicos que se consolidam: circuitos de stress hiperativos, dificuldade em aceder a estados de descanso, identidade associada a rendimento.
Os estereótipos de género amplificam isto. Quando o valor de uma jovem é implicitamente ligado a aparência, competência perfeita ou capacidade de cuidar de todos, o cérebro associa pertença a desempenho. Isso cria uma ligação perigosa entre autoestima e aprovação externa. Cada falha deixa de ser aprendizagem e passa a ser ameaça à identidade.
O que me preocupa é que muitas crianças e adolescentes altamente capazes vivem com um sistema nervoso exausto, mas funcional. São produtivas, responsáveis, admiradas e profundamente tensas por dentro. O cérebro adapta-se para sobreviver, mas a “fatura que mais tarde pagará” será com rigidez, ansiedade e dificuldade em sentir prazer espontâneo.
A boa notícia é que o cérebro é plástico. Relações seguras, validação emocional e ambientes onde o erro é permitido reescrevem esses padrões. O desenvolvimento saudável não exige retirar ambição às jovens mulheres, exige, sim, libertá-las da ideia de que o valor delas depende de nunca falhar.

Se pudesse voltar atrás e falar com a mulher que foi no início da sua carreira, que conselhos daria sobre autocuidado, limites e identidade profissional num contexto ainda tão exigente para as mulheres?
Dir-lhe-ia para não confundir dedicação com autoabandono. No início da carreira existe uma pressão enorme para provar valor, para estar sempre disponível, para dizer sim a tudo. E durante muito tempo acreditamos que isso é compromisso profissional. Só mais tarde percebemos que sem limites não há sustentabilidade, há desgaste.
Dir-lhe-ia que o autocuidado não é fraqueza nem luxo, é ferramenta clínica. Uma profissional exausta escuta pior, decide pior, sente menos. Cuidar de nós não é afastar-se da responsabilidade; é proteger a qualidade da presença. O nosso trabalho exige um sistema nervoso regulado, e isso não acontece por acaso, acontece por escolha diária.
Também lhe diria para não procurar validação constante fora. A identidade profissional amadurece quando deixa de ser construída apenas a partir do reconhecimento externo e passa a ser ancorada em valores internos. Haverá sempre comparação, exigência, expectativas. O que sustenta uma carreira longa é saber quem se é, mesmo quando o externo nos grita.
E talvez o mais importante que lhe diria era:  respeita o teu próprio ritmo. Crescimento não precisa de pressa. Competência não nasce da exaustão, nasce da consistência. Há uma força silenciosa em construir uma carreira que não nos destrói para existir.
No fundo, dir-lhe-ia que o sucesso que exige a nossa saúde como preço não é sucesso, é desgaste disfarçado. A carreira tem de expandir a vida pessoal, não substituí-la. Trabalho só faz sentido quando cabe dentro de uma existência pessoal e social inteira, viva, respirável. O contrário não é ambição; é erosão lenta.

Ao longo da sua carreira, houve algum momento ou caso clínico que a tenha marcado profundamente enquanto mulher e profissional, reforçando o seu propósito na psicologia?
Um dos períodos que mais me marcou enquanto mulher e profissional foi a experiência na neonatologia, a trabalhar com prematuros. Estar diariamente num espaço onde a vida começa em condições tão frágeis muda-nos por dentro. Ali, o desenvolvimento humano deixa de ser conceito e passa a ser urgência. Cada grama ganha, cada respiração sustentada, cada dia a mais era uma conquista que se sentia no corpo.
Mas tão marcante quanto a luta dos bebés era a dor silenciosa das famílias. Pais a viver entre esperança e medo absoluto, muitas vezes sem espaço social para expressar a dimensão do que estavam a atravessar. O nascimento, que deveria ser celebração, vinha misturado com trauma, culpa e luto antecipado. E muitas dessas dores não eram reconhecidas como deveriam. Esperava-se força, gratidão, resiliência quando o que existia era um sistema nervoso em estado de sobrevivência.
A neonatologia ensinou-me que o início da vida é profundamente relacional. Um prematuro não luta sozinho: luta dentro de uma teia emocional que envolve pais, profissionais, vínculos. E quando essas experiências não são cuidadas psicologicamente, deixam marcas invisíveis, mas duradouras nestes pequenos heróis de 500 gramas, em que cada grama carrega uma batalha e onde todo o desenvolvimento começa sob risco real. Honrar essa fragilidade é reconhecer que sobreviver é apenas o primeiro passo, desenvolver-se com segurança emocional é a verdadeira vitória.
Essa vivência consolidou o meu propósito de forma irreversível. Fez-me compreender que a psicologia começa muito antes da palavra: começa no corpo, na regulação, na presença que sustém quando tudo é incerto. Acompanhar aquelas crianças e aquelas famílias ensinou-me que cuidar do desenvolvimento humano é, acima de tudo, saber estar diante da fragilidade sem a apressar, sem a diminuir, sem a transformar em silêncio.
Passar pela neonatologia é confrontar-se diariamente com o limite entre vulnerabilidade e força. É impossível atravessar esse espaço e não sair com uma reverência profunda pela vida, pela vida em estado puro, mínimo, resistente. E é essa reverência que levo comigo para a clínica todos os dias: a consciência de que cada história que entra no consultório carrega uma luta invisível e merece ser recebida com o mesmo respeito com que se segura algo raro e precioso.

Que tipo de mulheres espera que as meninas de hoje se tornem amanhã, e que responsabilidade coletiva temos — enquanto sociedade e enquanto mulheres — na construção desse futuro emocionalmente mais saudável?
Espero que as meninas de hoje se tornem mulheres inteiras. Mulheres que não precisam escolher entre força e sensibilidade, entre ambição e descanso, entre cuidar dos outros e existir para si. Mulheres com linguagem emocional suficiente para se compreenderem, limites suficientes para se protegerem e liberdade interna para fazer escolhas que não nascem do medo.
Gostava que crescessem sem a necessidade de provar valor constantemente. Que a autoestima delas não fosse construída apenas em desempenho, aparência ou utilidade. Que pudessem falhar sem que isso colocasse em causa quem são. O verdadeiro desenvolvimento emocional não cria mulheres invencíveis, mas sim cria mulheres conscientes, capazes de se sustentar por dentro.
Construir um futuro emocionalmente mais saudável não é proteger meninas da realidade é equipá-las com estrutura interna para atravessá-la. Isso exige que os adultos saibam lidar com as próprias emoções, ensinar limites, modelar descanso, normalizar imperfeição. Exige cultura, educação e presença contínua.
No fundo, espero que se tornem mulheres que não precisem de se encolher para caber. Mulheres que saibam existir com complexidade, sem pedir desculpa por ocupar o próprio lugar no mundo e que reconheçam que esse lugar sempre lhes pertenceu.

A sociedade celebra mulheres resilientes, mas raramente fala do cansaço emocional que essa resiliência carrega. Como podemos ensinar meninas e mulheres a transformar a vulnerabilidade em força, sem romantizar o sofrimento?
Precisamos começar por desmontar uma ideia perigosa: resiliência não é aguentar tudo. Muitas mulheres são ensinadas a confundir força com resistência infinita, e isso cobra um preço emocional alto. Quando celebramos apenas a capacidade de suportar, ensinamos meninas a silenciar cansaço em vez de escutá-lo.
Transformar vulnerabilidade em força não é romantizar sofrimento, é integrar experiência. Uma menina que aprende a dizer “isto dói”, “isto cansa”, “preciso de ajuda” está a construir maturidade emocional, não fragilidade. O sistema nervoso torna-se mais forte quando tem permissão para oscilar, não quando é forçado a endurecer.
A verdadeira força nasce da flexibilidade: sentir, regular, recuperar. Vulnerabilidade só se torna peso quando é vivida em solidão. Quando encontra linguagem e testemunha, transforma-se em consciência. E consciência é poder.
O que precisamos modelar é simples, mas profundo: sentir não diminui valor, descansar não é falhar, pedir apoio não é fraqueza. Precisamos ensinar meninas que a vida emocional não é algo a controlar, é algo a compreender.
Resiliência saudável não é sobreviver exausta. É viver inteira sem se perder no esforço de provar que aguenta.

Quando falamos de neurodivergência, ainda existe muita confusão e estigma. Na sua perspetiva, o que é essencial que pais, educadores e sociedade compreendam melhor sobre o neurodesenvolvimento infantil?
O desenvolvimento infantil não segue uma linha única nem previsível. Cada criança tem um perfil neurobiológico próprio, uma forma singular de sentir, pensar e crescer. Os ritmos diferem, as formas de explorar o mundo variam, e é nessa diversidade que reside a riqueza do ser humano. A diferença não é um problema; é uma expressão natural do neurodesenvolvimento.
A neurodivergência não é uma tendência recente nem um rótulo passageiro. Sempre existiu. O que mudou foi a nossa capacidade de reconhecer, com base no conhecimento científico, aquilo que antes era visto como “mau comportamento” ou “falta de esforço”. Um diagnóstico bem feito não limita; esclarece, orienta e protege.
É essencial transformar o nosso olhar sobre o comportamento infantil. Muitas atitudes desafiantes são sinais de um sistema nervoso sobrecarregado ou ainda em maturação. A criança não quer provocar; quer ser compreendida. O comportamento é, antes de mais, uma forma de comunicação.
Falar de inclusão é falar de justiça no desenvolvimento. Incluir não é tratar todas as crianças da mesma forma, mas ajustar os contextos às suas necessidades reais. Quando o ambiente se adapta, o potencial floresce. Quando há compreensão, o desenvolvimento ganha ritmo, confiança e sentido.

Temos assistido a um aumento significativo de diagnósticos como o autismo, TDAH ou dificuldades específicas de aprendizagem. Estamos a diagnosticar mais… ou a compreender melhor o cérebro das crianças?
Do ponto de vista científico, e olhando para a realidade em Portugal, o que temos assistido não é a uma explosão súbita de novos casos, mas a uma mudança profunda na nossa capacidade de ver, compreender e acompanhar o desenvolvimento infantil. Diagnosticamos melhor porque hoje sabemos mais, somos mais capazes e mais atentos.
Em Portugal, tal como noutros países, os dados de prevalência da Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) e da Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) aproximam-se cada vez mais dos valores internacionais. As estimativas apontam para cerca de 1 em cada 44 a 100 crianças no autismo e entre 5% e 7% na PHDA. Este aumento reflete maior consciencialização, critérios diagnósticos mais afinados e mais encaminhamentos para avaliação especializada.
O ponto essencial é este: não foi o cérebro das crianças que mudou. Mudou o nosso olhar. Hoje reconhecemos sinais que antes eram ignorados ou confundidos com falhas de carácter. Estamos a formar melhor os profissionais e, progressivamente, a quebrar o estigma que durante anos silenciou crianças e famílias.
Um diagnóstico feito com rigor e sensibilidade não limita nem define a criança. Pelo contrário, dá nome ao que antes era confuso, orienta intervenções e funciona como uma forma de proteção. É uma ferramenta para ajustar expectativas, orientar respostas e garantir que nenhuma criança fique invisível.
No fundo, estamos apenas a dar nome ao que sempre existiu e isso é essencial para cuidar melhor.

Quais são os sinais precoces que pais e educadores não devem ignorar nos primeiros anos de vida, mesmo quando a criança “parece estar apenas a desenvolver-se ao seu ritmo”?
Mesmo quando uma criança parece estar a crescer “ao seu ritmo”, há sinais que merecem atenção sem pressa, mas também sem desvalorização. Observar e avaliar cedo não é alarmar; é cuidar.
Nos primeiros anos de vida, a forma como a criança se relaciona com o outro dá-nos pistas importantes. Pouco contacto ocular, poucas trocas de sorriso ou dificuldade em partilhar atenção (por exemplo, não seguir o olhar ou o gesto do adulto) são sinais que, quando persistem, merecem ser olhados com cuidado. O mesmo acontece quando a criança usa poucos gestos para comunicar: não aponta, não acena, não pede colo ou não mostra objetos para partilhar o que a entusiasma.
Na comunicação, é importante reparar se há pouca vocalização no primeiro ano, poucas palavras entre os 18 e os 24 meses ou dificuldade em compreender pedidos simples do dia a dia. No brincar, pouco interesse em estar com outras crianças, tendência para se isolar ou uma brincadeira muito repetitiva, com pouco faz-de-conta após os 2–3 anos, também podem ser sinais relevantes.
Algumas crianças vivem o mundo de forma mais intensa: reagem muito a sons, texturas ou luz, ou precisam de rotinas muito rígidas para se sentirem seguras. Outras têm grande dificuldade em parar, esperar, focar-se ou regular emoções, com impacto claro na família e na escola.
Há um sinal que nunca deve ser ignorado: a perda de competências já adquiridas, como deixar de falar, de olhar ou de brincar como antes. Quando isso acontece, é fundamental procurar ajuda.
Imaginemos uma criança de 2 anos que não aponta para pedir ou mostrar o que lhe interessa, responde pouco quando é chamada, usa poucas palavras e se desorganiza com certos sons. Esta criança não precisa de rótulos imediatos. Precisa de um profissional que a observe com atenção, compreenda o seu funcionamento e ajude a criar um ambiente onde possa crescer com mais segurança. Quanto mais cedo compreendemos, mais cedo conseguimos apoiar e isso faz toda a diferença no desenvolvimento.

A infância e a adolescência são períodos críticos para o desenvolvimento cerebral. Que impacto pode ter a falta de identificação e intervenção precoce numa criança neurodivergente?
A infância e a adolescência constituem períodos críticos do desenvolvimento neuropsicológico, marcados por elevada capacidade de reorganização e plasticidade cerebral. É aqui que a criança aprende a sentir, a relacionar-se, a regular emoções e a perceber quem é no mundo. Quando uma criança neurodivergente não é identificada nem acompanhada/intervida atempadamente, o principal risco não está na sua forma de funcionar, mas em crescer sem compreensão, num ambiente que não responde às suas necessidades.
Sem apoio precoce, muitas destas crianças acumulam experiências de esforço sem retorno. Tentam, falham, voltam a tentar… e continuam a não ser vistas. Com o tempo, a dificuldade deixa de ser apenas funcional e transforma-se em sofrimento interno, afetando a forma como a criança se sente consigo própria. Surgem a frustração, a ansiedade, a perda de confiança, o isolamento ou a oposição. E instala-se uma mensagem silenciosa e perigosa: “eu não sou capaz” ou “há algo de errado comigo”.
Com o tempo, esta ausência de compreensão pode afetar áreas muito profundas do desenvolvimento: a forma como a criança regula emoções, aprende, se concentra e se relaciona. Na adolescência, quando tudo se intensifica e a identidade se constrói, este peso pode transformar-se em sofrimento psicológico sério, com maior risco de ansiedade, depressão, abandono escolar ou comportamentos de risco.
Quando conseguimos identificar e apoiar cedo, o caminho muda. Usamos a plasticidade do cérebro para cuidar, organizar e proteger. Não para mudar quem a criança é, mas para ajudá-la a crescer com mais segurança, autoestima e sentido de pertença. Intervir cedo é um ato de amor e de responsabilidade. Muitas vezes, é a diferença entre apenas sobreviver à infância ou poder vivê-la com dignidade.

Muitos pais sentem medo ou culpa perante um diagnóstico. Como pode a psicologia ajudar as famílias a transformar esse momento num ponto de partida e não numa sentença?
O diagnóstico pode ser um momento profundamente assustador e doloroso, mas a psicologia acaba por ajudar a transformá-lo numa verdadeira viragem: de “o que é que correu mal?” para “o que é que podemos fazer a partir daqui?”.
O primeiro passo é validar as emoções, sem pressa e sem julgamento. Receber um diagnóstico acaba por trazer ao de cima o medo, culpa, tristeza, alívio e, muitas vezes tudo ao mesmo tempo. O acompanhamento psicológico a estes pais oferece um espaço seguro onde estes sentimentos podem ser expressos e compreendidos, ajudando os pais a perceber que não estão a reagir “mal”, estão a reagir de forma humana.
Quando as emoções são reconhecidas, em vez de silenciadas, os pais ganham maior clareza emocional. E essa clareza é fundamental para tomar decisões informadas, cuidar da criança com mais segurança e, ao mesmo tempo, cuidar de si próprios. É neste ponto que o diagnóstico começa a deixar de ser um peso e passa a ser um ponto de partida.

A escola continua a ser um dos maiores desafios para crianças e jovens neurodivergentes. O que ainda falha no sistema educativo e o que poderia ser feito de forma mais humana e eficaz?
O que continua a falhar é simples, mas profundo: insistimos em encaixar cérebros diferentes num modelo de escola pensado para um aluno “ideal”, que não dá trabalho e que, na prática, quase não existe. Quando a criança não se adapta, o problema é colocado nela, em vez de no sistema.
Salas de aula caóticas, poucas adaptações reais, avaliação muito centrada na escrita e na rapidez, e falta de formação em neurodesenvolvimento fazem com que muitas crianças neurodivergentes vivam a escola em constante sobrecarga. O que depois surge como “mau comportamento” é, muitas vezes, apenas exaustão.
Uma escola mais humana começa por ajustar o ambiente, formar melhor os adultos, diversificar formas de aprender e avaliar e ouvir a própria criança. Quando a escola passa a perguntar “do que é que este aluno precisa para aprender?”, em vez de “porque é que não se adapta?”, o desenvolvimento e a aprendizagem tornam-se possíveis — para todos.

A neuromodulação tem ganho destaque na intervenção clínica. De que forma estas abordagens inovadoras podem contribuir para o desenvolvimento cognitivo, emocional e comportamental de crianças e adolescentes?
Ui… agora é que entramos no meu mundo, aquele onde a ciência é fascinante, mas onde também nós podemos perder se não formos rigorosos. Sabe-se que as abordagens de neuromodulação podem ser uma ferramenta complementar muito valiosa para potenciar o desenvolvimento, sobretudo quando integradas num plano terapêutico mais amplo, bem avaliado e cuidadosamente monitorizado. 
Quando falamos de neuromodulação em crianças e adolescentes, referimo-nos sobretudo a técnicas não invasivas, como o Neurofeedback, a Estimulação elétrica de baixa intensidade (tDCS/tRNS) ou, em contextos muito específicos, a estimulação magnética. O objetivo não é “corrigir” a criança, mas ajudar a regular a atividade de redes cerebrais envolvidas na atenção, na regulação emocional, na linguagem ou no controlo do comportamento, aproveitando a enorme plasticidade do cérebro em desenvolvimento. 
Do ponto de vista cognitivo, estas abordagens podem apoiar funções como a atenção, a memória de trabalho e o controlo inibitório, sobretudo quando combinadas com treino cognitivo e intervenção psicológica. Em algumas crianças, isso traduz-se numa maior disponibilidade para aprender, manter o foco e beneficiar das estratégias usadas na escola e em terapia. 
Ao nível emocional e comportamental, a neuromodulação pode ajudar a reduzir estados de hiperativação, impulsividade ou ansiedade, criando aquilo que muitas vezes falta: espaço interno para a autorregulação. Quando o cérebro está menos sobrecarregado, a criança consegue usar melhor as competências que está a aprender seja na psicoterapia, no treino parental ou no contexto escolar. 
É importante sublinhar que a neuromodulação não ensina competências por si só. Ela prepara o terreno. Torna o cérebro mais recetivo à aprendizagem e à mudança, reforçando aquilo que já está a ser trabalhado noutras intervenções. Por isso, os melhores resultados surgem quando estas técnicas são integradas e nunca usadas de forma isolada. 
Ao mesmo tempo, é essencial manter uma abordagem ética e prudente. A evidência é promissora, mas ainda variável, e estas intervenções devem ser realizadas em contextos clínicos especializados, com critérios claros de indicação, acompanhamento próximo e uma visão centrada na criança como um todo não apenas no cérebro. 
No fundo, quando bem indicada, a neuromodulação não muda quem a criança é. Ajuda o seu sistema nervoso a funcionar com mais equilíbrio, para que possa aprender, relacionar-se e crescer com mais tranquilidade e confiança.

Vivemos numa era de excesso de estímulos digitais. Que impacto têm os ecrãs, a hiperestimulação e o ritmo acelerado da sociedade no neurodesenvolvimento infantil?
O cérebro infantil é plástico, mas não é infinito. Viver rodeado de ecrãs, estímulos constantes e pressa coloca o sistema nervoso em permanente sobrecarga e isso tem impacto real no desenvolvimento.
Nos primeiros anos, o excesso de ecrã e de conteúdos rápidos pode interferir com a atenção, a linguagem, a regulação emocional e a capacidade de lidar com a frustração. Um cérebro que está sempre a ser estimulado tem menos oportunidade de aprender a parar, a esperar, a imaginar e a brincar. O resultado é, muitas vezes, mais impulsividade, mais dificuldade em concentrar-se e menor tolerância ao tédio.
O ritmo acelerado do dia a dia pesa tanto quanto os ecrãs. Ambientes sempre ruidosos e apressados deixam pouco espaço para o descanso e a recuperação emocional, com impacto no sono, no humor, na atenção e no comportamento, sobretudo nas crianças mais sensíveis ou neurodivergentes.
Na minha opinião, o maior risco não são os ecrãs em si, mas a infância vivida sem pausas, sem silêncio e sem presença emocional suficiente para o cérebro aprender a autorregular-se. E diria ainda: proteger o ritmo da infância hoje é uma das formas mais importantes de prevenir dificuldades emocionais amanhã.
Nada disto significa demonizar a tecnologia. O que as crianças precisam é de equilíbrio, limites claros e adultos disponíveis. Brincar livremente, mover o corpo, estar na natureza, ouvir histórias e sentir-se acompanhado continuam a ser dos maiores fatores de proteção para um cérebro em desenvolvimento.

Na adolescência, as diferenças tendem a tornar-se mais visíveis e dolorosas. Como apoiar jovens neurodivergentes na construção da autoestima, identidade e relações sociais?
A adolescência torna as diferenças mais visíveis e, muitas vezes, mais dolorosas. Para jovens neurodivergentes, é uma fase em que a comparação aumenta e o sentimento de não pertencer pode pesar muito.
Ajudá-los começa por mudar a narrativa: compreender o seu funcionamento sem vergonha, separar quem são das dificuldades e construir uma identidade que inclua, e não apague, a diferença. Na minha opinião, a autoestima não se constrói a partir da correção constante, mas da experiência de ser aceito enquanto se está a aprender a crescer.
Nas relações, é essencial apoiar sem forçar a normalização. Muitos adolescentes e jovens querem relacionar-se, mas sentem-se perdidos nas regras sociais implícitas. Ter contextos seguros, apoio claro e pelo menos uma relação onde possam ser genuínos faz toda a diferença.
No fundo, apoiar um adolescente neurodivergente é ajudá-lo a perceber que não precisa de se moldar para merecer pertença. Quando isso acontece, a autoestima cresce e as relações tornam-se possíveis.

Se pudesse deixar uma mensagem-chave a pais, professores e cuidadores, qual seria o maior erro a evitar — e a atitude mais transformadora — quando lidamos com crianças e adolescentes neurodivergentes?
Na minha opinião, nenhuma criança floresce num ambiente onde precisa de se esforçar para ser aceite; floresce quando se sente segura para ser quem é.
O maior erro é interpretar a diferença como algo a corrigir, em vez de a compreender como um perfil de funcionamento que precisa de ser acompanhado.
A atitude mais transformadora começa numa pergunta simples, mas poderosa: “O que é que este cérebro precisa para se sentir seguro, compreendido e conseguir aprender?” e a partir daí organizar expectativas, linguagem e ambiente.
Quando deixamos de ver “birras”, “manias” ou “preguiça” e passamos a reconhecer sinais de sobrecarga, formas diferentes de processar o mundo e esforços invisíveis, deixamos de tentar corrigir a criança e começamos, finalmente, a acompanhá-la.
Cuidar do neurodesenvolvimento é, acima de tudo, aprender a ver sem julgar e a acompanhar sem apagar. O nosso trabalho começa quando deixamos de perguntar “o que há de errado?” e passamos a perguntar “o que é que este cérebro precisa?”. Não trabalho para normalizar crianças; trabalho para criar condições onde cada cérebro possa florescer.

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