“Tive que batalhar e mostrar o Valor daquilo que defendia e acreditava perante aqueles que o desconheciam”
Há entrevistas que se leem. E há entrevistas que se sentem. A de Sandra Eloi pertence claramente ao segundo grupo.
Num tempo em que a saúde é muitas vezes tratada de forma fragmentada, apressada e excessivamente protocolar, Sandra Eloi surge como uma voz disruptiva — informada, consciente e profundamente humana. A sua prática clínica não cabe numa única especialidade, nem se deixa reduzir a um rótulo. Pelo contrário: constrói-se na interseção entre ciência, inovação e uma visão integrativa do ser humano. Epigenética, Nutrição Funcional, PCN, Nutrição Aplicada à Clínica, Modulação Hormonal e Intestinal, Termografia Clínica, Laserterapia, coaching nutricional de atletas de alto rendimento — cada certificação não é um título acumulado, mas uma ferramenta ao serviço de um objetivo maior: tratar pessoas, não apenas sintomas.
Reconhecida internacionalmente como conferencista, Sandra Eloi leva para salas cheias de médicos de diversas especialidades temas que muitos ainda evitam enfrentar de frente — como os aditivos alimentares e os disruptores endócrinos — insistindo, com rigor científico e clareza, que a saúde moderna exige coragem intelectual e responsabilidade coletiva.
O seu percurso tem sido amplamente reconhecido: medalhada, distinguida por mérito de carreira dedicada em prol do paciente e, mais recentemente, agraciada com o título de Doctor Honoris Causa. Mas talvez o maior reconhecimento esteja fora das medalhas — na confiança dos pacientes, no impacto da sua voz e no exemplo que representa.
Figura de capa da Business Voice, Sandra Eloi fala abertamente dos desafios ultrapassados, das conquistas, das quedas e das reconstruções. Fala de carreira, de liderança e, sobretudo, de identidade. Como mulher que venceu sem abdicar da sua essência, deixa uma mensagem clara e atual:
“Sim, acredito que as mulheres lideram de forma diferente — não porque haja um ‘modo feminino’ universal de liderar, mas porque muitas de nós trazemos para a liderança uma combinação rara de empatia, intuição e resiliência moldada pelas experiências que vivemos, dentro e fora do trabalho.”
Esta entrevista não é apenas o retrato de um percurso de sucesso. É um convite à reflexão sobre o futuro da saúde, da liderança e do papel transformador de quem ousa fazer diferente — mesmo quando isso significa ir contra a corrente.
O Dia Internacional da Mulher assinala conquistas, lutas e desafios. Para si, enquanto mulher e profissional multifacetada, o que representa verdadeiramente o 8 de março?
O Dia Internacional da Mulher para mim é um lembrete de todas as batalhas vencidas, das oportunidades conquistadas com esforço e da responsabilidade que temos em continuar a abrir portas para quem vem a seguir. Este dia representa o equilíbrio entre resiliência e sensibilidade, entre competência e empatia — duas forças que, juntas, nos tornam imparáveis. O 8 de março é, portanto, um momento para honrar as conquistas, mas também para refletir sobre o caminho que ainda falta percorrer — na igualdade, na valorização da mulher em todas as áreas, e no reconhecimento do seu poder transformador.
Foi atleta de alta competição e venceu vários torneios, destacando-se no judo e no fitness, onde se tornou campeã nacional. Que aprendizagens do desporto de alto rendimento mais a marcaram enquanto mulher e líder?
A persistência é a palavra chave, persistir sempre com a disciplina, persistir com os treinos, persistir perante a dor e o cansaço, persistir na correção dos erros, persistir em cumprir horários e hábitos alimentares, persistir, persistir, persistir…na competição ou persistimos ou desistimos!
Percebi que o repetir várias vezes a correção do erro me levava à superação do mesmo e isso foi algo que transportei sempre para o meu dia a dia ao longo da vida. Outra aprendizagem foi o respeito pelo adversário, se ele/a estava do outro lado é porque também ele/a tinha superado desafios e tinha persistido! Tinha por isso a minha admiração. Aprender com o outro, sempre! Querer sempre algo mais! Fazer bem e não ter medo de fazer diferente!
Tornou-se empresária aos 14 anos e fundou a sua própria empresa aos 16. Que força interior ou circunstâncias a levaram a assumir responsabilidades tão cedo, numa idade em que muitas jovens ainda estão a descobrir quem são?
Infelizmente aos 14 anos por herança de uma empresa pelo falecimento da minha mãe. Não foi algo que escolhesse, mas aconteceu. Fiquei com alguma participação ativa na empresa, por motivos de força maior, porque haviam outros sócios e eu quis que assim fosse. Muitas vezes antes da escola e depois da escola participava no funcionamento da empresa. Assumi responsabilidades cedo junto de adultos independentes, mas acho que de facto toda a capacidade e responsabilidade que ficou no meu mapa mental foi pelo que fui assistindo com um grande exemplo de MULHER que foi a minha mãe. Aos 16 anos decidi construir algo só meu. Abri um ginásio, talvez porque estava ligada ao desporto, era isto que queria desenvolver. De facto era muito diferente dos meus colegas, o meu foco era estudar e orientar as minhas coisas, incluindo a limpeza de casa pois já morava sozinha. Quando eles queriam sair, passear, ir para a praia ou para os cafés eu ia para casa, tinha sempre coisas para fazer.
Ao longo do seu percurso, sentiu que, por ser mulher, teve de provar mais vezes a sua competência? Como lidou com esses desafios?
Poucas vezes, porque na realidade fui sempre diferente, isto é, destacava-me sempre por alguma diferença. Muita perfeição em tudo o que fazia, sempre a inovar, sempre com ideias diferentes, sempre a dar o meu máximo e isso apresentava o meu trabalho por si só! Chegava sempre mais cedo e saia mais tarde, nunca deixava nada por fazer. Em todos os cargos que exerci fiz sempre tarefas que seriam para duas ou três pessoas, por isso sempre que sai de algum cargo foi sempre com grande lamento.
Hoje apresenta-se na prática Clínica com várias especialidades e certificações como; epigenética, Nutrição funcional, pós-graduada em PCN, expert em Nutrição Aplicada à Clínica, Nutrition Coach de atletas de alto rendimento, especialista em termografia clínica, certificada em Modulação Hormonal, certificada em Modulação Intestinal, certificada em Laserterapia. É conferencista internacional, onde apresenta perante médicos de várias especialidades médicas temas como “Aditivos alimentares” e “Disruptores endócrinos” temas que faz questão de focar como importantes na saúde atual. Escreve artigos de saúde para a revista “Saúde Actual”, foi medalhada e reconhecida com a distinção de mérito de carreira dedicada em prol do paciente e recentemente com o título “Doctor Honoris Causa”. Como foi conquistar reconhecimento num setor onde a ciência, a credibilidade e a liderança são constantemente colocadas à prova?
Tive que batalhar e mostrar o valor daquilo que defendia e acreditava perante aqueles que o desconheciam! Decidi fazer naturopatia (hoje reconhecida como curso superior, devidamente legislado e regulamentado) porque precisava de mais ferramentas para os meus pacientes e atletas. Fitoterapia, para poder aconselhar devidamente a suplementação, massoterapia para os meus atletas, um pouco de osteopatia, acupunctura…e achei que este curso me daria tudo isto, mas na realidade deu-me muito mais! Fiquei apaixonada pela filosofia e condutas da naturopatia, que felizmente agora muitos médicos estão a praticar. Hoje uma verdadeira consulta é aquela onde o médico vê o paciente como um todo, tem em conta o emocional, a alimentação, o exercício, a hidratação, a qualidade do sono e, suplementação, muitas vezes em vez de medicamentos desnecessários. A OMS (Organização Mundial de Saúde) recomenda a implementação e integração da Naturopatia nos sistemas de saúde desde 1978, com reforço contínuo em 1998, 2002 e 2014, sempre com foco em segurança, qualidade e base científica.
Na sua opinião, a sociedade atual continua a impor rótulos ou expectativas específicas às mulheres? Que estereótipos considera mais urgentes de desconstruir?
Sim, de forma mais subtil, mas ainda acontece. Antes eram limitações objetivas, a mulher não votava, não podia estudar e não liderava. Hoje são as limitações “invisíveis”, a mulher tem de ser uma excelente profissional, tem que manter a forma física, tem que ser mãe presente, avó exemplar, companheira dedicada, tem que estar emocionalmente estável (se não está, é fraca) e com tudo isto ainda deve parecer incansável! São as novas formas de pressão social, medir a mulher pela capacidade de lidar conta de tudo” em vez de reconhecer o seu direito de poder ser plena sem precisar de ser prefeita!
Na minha opinião estereótipos urgentes a desconstruir são: a mulher tem que ser multitarefas infalível, não é verdade que tenha que saber e poder fazer tudo ao mesmo tempo! A mulher definida pela aparência, se é baixa não serve, se muito magra não serve, se é gorda não serve…como se a aparência fosse sinónimo de competência ou inteligência. A mulher que precisa de escolher entre a família e a carreira, como se não conseguisse conciliar as duas! E finalmente, a idade ter ser um limite, sendo que para mim a maturidade é um dos maiores trunfos da mulher, no entanto é fator de dispensa para muitas tarefas e cargos, erradamente!
O que significa, para si, ser uma mulher em posição de destaque e liderança num mundo ainda maioritariamente marcado por estruturas masculinas?
Não tenho nada a apontar, sou respeitada e admirada pelo trabalho que tenho desenvolvido, nunca senti que fosse tratada de modo diferente em nenhum dos cargos ou projetos que liderei. No fundo para mim significa precisamente o alcançar dos objetivos a que me proponho, sempre a dar o meu melhor!
Acredita que as mulheres lideram de forma diferente? Que características femininas podem ser uma mais-valia na liderança, nos negócios e na saúde?
Sim, acredito que as mulheres lideram de forma diferente — não porque haja um “modo feminino” universal de liderar, mas porque muitas de nós trazemos para a liderança uma combinação rara de empatia, intuição, e resiliência moldada pelas experiências que vivemos, dentro e fora do trabalho.
As mulheres foram historicamente habituadas a conciliar múltiplos papéis — gerir tempo, energia, emoções e relações humanas — e isso traduz se numa liderança mais sensível, colaborativa e orientada para o propósito.
Num mundo que durante muito tempo valorizou o comando, a hierarquia e a força, a presença feminina veio introduzir escuta ativa, empatia e foco em soluções integradas, características particularmente transformadoras tanto nos negócios como na saúde.
Na minha visão, as principais mais valias femininas na liderança que sempre pratiquei são: Empatia e Inteligência Emocional – perceber antes de reagir, entender o que as pessoas precisam para dar o seu melhor. Visão sistémica e capacidade de conciliação – pensar a longo prazo, integrar diferentes perspectivas e encontrar equilíbrio entre resultados e bem estar. Coragem e adaptabilidade - As mulheres enfrentam desafios estruturais há séculos, essa resiliência cria uma liderança firme, mas flexível. Cuidado e propósito – liderar com sentido humano, especialmente importante na área da saúde, onde o cuidar é tão essencial quanto o curar e por fim, Colaboração em vez de competição – compreender que sucesso não é individual, é coletivo; e isso muda equipas, empresas e até comunidades.
Como concilia os múltiplos papéis que assume — mulher, mãe, esposa, avó, atleta, professora e profissional dedicada à saúde e bem-estar — sem perder a sua identidade pessoal?
Muito simples! Tudo se resume a disciplina! Horários e método. O meu dia está distribuído pelo treino, refeições, meditação, estudo, trabalho, tempo para os filhos, tempos para os netos, e dormir, sempre no mesmo registo. Tudo muito encaixado nos respetivos horários e tempos definidos para estas tarefas. Não perco tempo com coisas fúteis. Acima de tudo faço o que amo, não há nada que faça contrariada ou sem motivação e isso é o segredo para não perdermos a nossa identidade. Dou o meu melhor no trabalho, sou disciplinada com a minha alimentação, dou tudo no meu treino, quero ter as melhores notas nos estudos, quero ensinar o máximo aos meus alunos, esta sou eu!
No contacto diário com pacientes e atletas, sente que as mulheres estão hoje mais conscientes do seu corpo, da sua saúde e do seu poder de decisão?
Sim, sinto que as mulheres estão hoje muito mais conscientes do seu corpo, da sua saúde e do seu poder de decisão. A mulher de hoje procura entender o porquê de cada sintoma, quer compreender o seu metabolismo, o impacto das hormonas, da alimentação, do sono, do stress. No desporto, observo essa transformação de forma muito clara. As atletas já não treinam apenas para competir, a mulher hoje treina para se sentir forte e manter o equilíbrio do organismo. Procuram mediar o rendimento e o bem estar, entendem a importância do respeito pelo organismo, do ciclo hormonal e da gestão emocional, algo de que não se fala à 20 anos atrás.
Claro que ainda há caminho a percorrer, há desinformação e mitos que persistem, como na peri menopausa e na menopausa, os mitos e medos das hormonas que ainda permitem que a mulher sofre sem necessidade, mas estamos a mudar!
Que papel considera que a mulher deve assumir na construção de uma sociedade mais equilibrada, saudável e consciente?
Bom, não quero ser mal interpretada, mas penso que a mulher é um pilar fundamental. Quantos de nós temos como referência as nossas mães. Quando elas foram, de uma forma ou outra, capazes de transmitir valores, esses valores farão parte do nosso caminho. A mulher tem um papel fundamental, não só porque vai contribuir com algo único e maravilhoso que é o nascimento de um filho, tem que saber educar, incutir regras e valores e dela depende esta pessoa, nos primeiros anos da sua vida! A força que transmitimos aos nossos filhos, a educação que lhes damos, o respeito e a dignidade que lhes incutimos fará a diferença na construção de uma sociedade saudável e consciente e por isso mais equilibrada, saudável e consciente.
Que conselho deixaria às jovens mulheres que sonham ocupar lugares de liderança, mas que ainda sentem medo, insegurança ou falta de apoio?
Estes são precisamente os fatores que deve afastar! Não pode ter medo, isso só comprova incerteza no que está a fazer ou desenvolver. A insegurança tem que ser substituída pela confiança. Se tem falta de apoio é porque não está rodeada pelas pessoas certas, mude! Siga em frente, invista em si mesma, arrisque, estude, trabalhe, contribua sempre com o seu melhor e rodeie-se de pessoas que a ajudam a conseguir, não de pessoas que não lhe dão valor ou que não a deixam seguir em frente. Trace o seu caminho num papel, coloque nesse desenho os obstáculos que tem que ultrapassar, coloque o objetivo em destaque e estude esse projeto todos os dias para que nunca nada nem ninguém desfoque do que tem que fazer. Não desista, persista! Vai conseguir!
Para terminar, que mensagem especial gostaria de deixar a todas as mulheres neste Dia Internacional da Mulher, 8 de março?
Costumo deixar sempre uma mensagem especial para a MULHER… que é mãe, filha, avó…para a mulher que cuida…para a empresária…para a que trabalha, para a que estuda, para a que é atleta, para a companheira e esposa…para a MULHER!
GRATIDÃO A TODAS AS MULHERES QUE ME FAZEM TER ORGULHO EM SER MULHER!