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“Foco no Poder e na Presença: Não peças licença para seres quem És”

Antes de falar de números, fala-se de pessoas. Antes de cargos, fala-se de atitude. Antes de liderança, fala-se de consciência.
Na Business Voice, damos voz a quem não aceita rótulos fáceis nem hierarquias invisíveis. Susana Silva, CEO da LIMPA VIP – Serviços e Limpeza, Lda., lidera com uma visão que nasce da empatia, da justiça e do respeito por quem, durante demasiado tempo, trabalhou nas sombras. “Defino a minha liderança como a arte de estender a carpete vermelha. Eu trabalho para a minha equipa, para que elas tenham o palco limpo para brilhar”, salienta a nossa interlocutora. 
Aqui, liderar não é mandar — é preparar o caminho, remover obstáculos e criar condições para que cada pessoa possa dar o melhor de si. Mas esta liderança também nasce de um sentimento profundo e transformador, salientado por Susana Silva, como afirma, “senti, acima de tudo, um profundo sentimento de injustiça. O termo ‘mulher da limpeza’ sempre me soou a uma injustiça silenciosa. Carrega uma sombra de desvalorização que ignora a importância vital deste trabalho para a saúde pública.”
Nesta entrevista à Business Voice, Susana Silva fala de dignidade profissional, de reconhecimento, de linguagem que constrói (ou destrói) valor e de como liderar é, também, um ato de reposicionar narrativas. Falamos de um setor essencial, de impacto real na sociedade e da urgência em olhar para estas profissionais com o respeito que sempre mereceram.
Porque limpar não é invisível. Porque cuidar da saúde pública é um ato de liderança. E porque quando se devolve dignidade às pessoas, o brilho deixa de ser exceção — passa a ser regra.

No sentido de contextualizar o nosso leitor, fale-nos um pouco de si e de que forma é que sente que assumir a liderança da Limpa VIP em 2019 foi um ponto de viragem? Qual foi a decisão mais difícil que tomou como CEO e que hoje voltaria a repetir sem hesitar?
Defino-me como alguém que acredita profundamente na valorização do capital humano e na dignificação do setor da limpeza. Assumir a Limpa VIP foi mais do que um passo na carreira; foi um compromisso com o invisível. Em 2019, não recebi apenas uma estrutura com 25 anos; recebi o dever de elevar a limpeza de tarefa braçal a um ato de cuidado. A decisão mais difícil foi a de reeducar a equipa e os processos internos logo no início. Mudar mentalidades e implementar uma cultura de rigor exige coragem, pois nem todos estão preparados para acompanhar o ritmo da mudança. No entanto, hoje voltaria a repetir essa decisão sem hesitar: foi esse filtro e essa aposta na qualidade que permitiram à Limpa VIP afirmar-se como uma referência e crescer de forma sustentável e com alma.

Quando ouviu pela primeira vez a expressão “estereótipo da mulher da limpeza”, o que sentiu — e o que decidiu mudar a partir daí?
Senti, acima de tudo, um profundo sentimento de injustiça. O termo “mulher da limpeza” sempre me soou a uma injustiça silenciosa. Carrega uma sombra de desvalorização que ignora a importância vital deste trabalho para a saúde pública e para a harmonia de qualquer espaço. Decidi que a minha missão seria transformar a perceção de que este é um trabalho menor ou não qualificado. Mudámos o fardamento e a técnica, mas a verdadeira revolução foi no nome: passámos a ser Profissionais de Limpeza. Quando devolvemos o orgulho a quem faz, o mercado é obrigado a reconhecer o valor de quem entrega.

Vindo de um percurso sólido em Marketing, que “ferramentas invisíveis” dessa área aplica diariamente na gestão de pessoas e de negócio?
No Marketing, aprendemos a utilizar o Branding Sensorial: o cliente não compra o produto, mas o benefício que ele traz. Na Limpa VIP, não vendemos “espaços limpos”; entregamos o silêncio visual de um ambiente em ordem e a segurança de um lugar cuidado. Transmito à minha equipa que o nosso produto é a confiança. Esta mudança de narrativa transforma o suor em estratégia e o trabalho de limpeza numa experiência sensorial de bem-estar.

A limpeza é um setor essencial, mas muitas vezes invisível. Como se constrói uma cultura de orgulho profissional numa área historicamente desvalorizada?
Construir orgulho onde a história deixou marcas de desvalorização exige uma liderança que olhe nos olhos. Combato a invisibilidade tratando cada pessoa pelo nome e valorizando o detalhe que mais ninguém nota. Neste percurso, a pandemia da Covid-19 acabou por ser um espelho cruel, mas necessário: mostrou ao mundo que sem o nosso cuidado, o resto para. O meu papel aqui é garantir que esse respeito se torne o oxigénio diário da nossa cultura, e não apenas um aplauso passageiro, mantendo um serviço que era considerado dispensável no patamar de primeira necessidade.

Que preconceito sobre mulheres líderes ainda a surpreende — e como lida com ele no dia a dia? Qual deverá ser o papel de Mulheres como a Susana Silva para quebrar estes estigmas?
Ainda me surpreende que a empatia seja confundida com fragilidade. No meu dia a dia, provo que uma liderança humana é, na verdade, a mais resiliente. Respondo ao preconceito com resultados e à dureza com competência. O meu papel é mostrar que uma mulher na gestão não está ali para “organizar a casa”, mas para desenhar a estratégia de um setor essencial. Somos o espelho onde a equipa se vê capaz de crescer, provando que a limpeza profissional é um setor de alta gestão e não apenas uma extensão das tarefas domésticas ou um estereótipo de género datado.

Se tivesse de explicar a sua liderança em conceitos que não costumam aparecer nos manuais de gestão, quais seriam?
Defino a minha liderança como a “arte de estender a carpete vermelha”. Eu trabalho para a minha equipa, para que elas tenham o palco limpo para brilhar. Liderar é treinar o olhar para o que não se vê, mas se sente: o conforto de um aroma, a precisão de um canto limpo, a dignidade de quem executa. Não gerimos apenas serviços; gerimos a paz de espírito e a dignidade de quem limpa. Isso é algo que nenhum gráfico estatístico-financeiro consegue traduzir, mas que qualquer coração percebe.

Na sua opinião, o que diferencia uma empresa liderada por uma mulher de uma empresa que apenas “inclui” mulheres nos cargos?
Incluir mulheres é uma questão de números e paridade; ser liderada por uma mulher é uma questão de essência. A diferença está em permitir que a sensibilidade feminina seja uma ferramenta de gestão e não um entrave. Reconhecemos que uma colaboradora é o pilar de uma família, uma mãe, uma história. Quando reconstruímos a empresa para ser um lugar de pertença, transformamos a lealdade num ativo que dinheiro nenhum compra. Incluir mulheres é abrir uma porta; ser liderada por uma mulher é reconstruir a casa para que todos possam prosperar nela.

Há um momento da sua carreira em que sentiu que teve de provar o dobro para ser reconhecida pela sua capacidade? Como lidou e o que aprendeu com isso?
Cheguei a este setor com uma visão estratégica num mundo de hábitos antigos. Havia o estigma de que, para gerir equipas operacionais, era preciso uma postura austera. Não tentei ganhar o reconhecimento na imposição, mas sim no conhecimento profundo de cada detalhe do negócio. Aprendi que o respeito não se exige, conquista-se com consistência. Ter de “provar o dobro” deu-me a musculatura para liderar sem medo: o respeito não se impõe com o cargo, conquista-se por quem sabe exatamente onde quer chegar.

Que papel tem a empatia na gestão de equipas operacionais e como se traduz isso em resultados concretos?
A empatia é o “lubrificante” que faz a engrenagem humana funcionar sem ruído. Quando uma profissional se sente vista na sua totalidade, o seu brio aumenta. O resultado concreto? Menos rotatividade, mais qualidade e uma entrega que transborda cuidado. No final, a satisfação do cliente é apenas o reflexo do respeito que cultivamos internamente. É a rentabilidade do afeto.

O sucesso empresarial costuma ser medido em números. Para si, qual é o indicador humano que mais valor tem?
O sucesso mede-se pelo tempo que as pessoas escolhem ficar connosco. Num setor historicamente de passagem, ter uma equipa que se sente em casa é o meu maior triunfo. O lucro financeiro permite-nos existir, sim, mas é o brilho nos olhos de uma colaboradora que se sente dignificada que me diz que estamos a vencer.

Se tivesse o poder de mudar uma única narrativa sobre o papel da mulher no mundo empresarial, qual seria — e que impacto isso teria nas próximas gerações?
Quero enterrar a narrativa da “heroína do multitasking”. Essa visão apenas serve para romantizar a sobrecarga. Quero que sejamos celebradas pela nossa visão estratégica e precisão. Menos sacrifício e mais mérito. Que as próximas gerações possam liderar com a leveza de quem sabe que não precisa de ser “super-humana” para ser uma gestora excecional.

Se pudesse deixar uma regra não escrita para futuras líderes femininas, qual seria?
Foco no Poder e na Presença: Não peças licença para seres quem és. O teu olhar atento, a tua intuição e a tua capacidade de cuidar não são “detalhes” — são vantagens competitivas e extraordinárias. Ocupa o teu espaço com a certeza de que a tua sensibilidade é a tua maior força de autoridade, humanização e organização.

No Dia Internacional da Mulher, 8 de março, que mensagem gostaria de deixar às mulheres que ainda não se veem como líderes, mas que já o são sem o saber?
Às mulheres que gerem mundos todos os dias sem saberem que já são líderes: reconheçam a vossa força. Liderar é a capacidade de manter o equilíbrio quando tudo parece oscilar. Se vocês motivam, se vocês organizam, se vocês cuidam, vocês já detêm o comando. Só precisam de se apropriar desse título. O mundo já sente o vosso impacto; agora, permitam que ele veja a vossa liderança com os vossos próprios olhos.


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