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“O mundo precisa de Mulheres Livres, Mulheres Inteiras”

Rita Piçarra, Mãe, Esposa, Surfista, Viajante, Autora do livro "A Vida não pode esperar" e antiga Diretora Financeira da Microsoft

Ser Mulher, em 2026, continua a ser um ato de coragem diária. Coragem para ocupar espaços, para reivindicar direitos, para manter a voz firme num mundo que ainda, demasiadas vezes, nos pede silêncio. O Dia Internacional da Mulher não é apenas uma celebração: é um espelho que nos recorda o caminho percorrido, as barreiras que persistem e a responsabilidade que temos de continuar a avançar — por nós e pelas que virão depois.

Ao longo de mais de duas décadas de carreira, passei por diferentes países, lideranças e culturas. Vivi ambientes exigentes, competitivos, desafiadores, e tive o privilégio de chegar a lugares que durante anos considerei inatingíveis. Mas, ao olhar para trás, percebo que aquilo que mais me marcou não foram os títulos nem as promoções. Foram os rostos das Mulheres talentosas que encontrei pelo caminho — algumas que voaram alto, outras que ficaram pelo meio, não por falta de capacidade, mas por falta de oportunidade.
É impossível ignorar que, ainda hoje, muitas Mulheres começam a corrida uns metros atrás. Entram no mercado de trabalho com diplomas iguais, competências iguais, ambições iguais — mas enfrentam obstáculos diferentes.
A dúvida sobre a sua competência.
A expectativa de que sejam “boas meninas” antes de serem boas líderes.
O dilema permanente entre maternidade e progressão.
O questionamento da ambição, como se sonhar alto fosse arrogância e não uma forma legítima de existir.
Durante décadas, falámos do “teto de vidro”. Hoje, há Mulheres que já o quebraram — mas continuam a caminhar sobre os estilhaços.
Ser Mulher é, muitas vezes, ter de provar o dobro para receber metade.
É ter de justificar escolhas, repriorizar a vida em função de expectativas sociais e conciliar papéis que raramente são conciliação — são malabarismo.
Ao mesmo tempo, nunca tivemos tantas oportunidades. As novas gerações já não pedem licença para existir. Questionam normas, desafiam estruturas, reinventam o que significa “ter sucesso”. E esse é, talvez, o maior avanço da nossa era: a consciência de que a mudança começa quando deixamos de aceitar a narrativa que nos foi imposta.
No meu livro “A Vida Não Pode Esperar”, partilho precisamente essa jornada — a de aprender a não adiar sonhos, a construir independência financeira, a redefinir prioridades e a ganhar coragem para mudar quando tudo à volta nos diz para ficar. Ao escrevê-lo, percebi o impacto que as nossas histórias têm quando são partilhadas de forma honesta. Recebi testemunhos de Mulheres que, depois de o ler, renegociaram salários, decidiram estudar, mudaram de carreira, investiram pela primeira vez ou simplesmente deixaram de se sentir sozinhas.
E este é um poder enorme: quando uma Mulher se transforma, transforma o mundo à sua volta. Mas para que essa transformação seja real e sustentável, precisamos de enfrentar três grandes desafios:
O desafio da ambição sem culpa

A ambição feminina ainda é escrutinada ao detalhe. Quando uma Mulher assume que quer liderar, crescer, influenciar, inovar ou construir riqueza, é frequentemente analisada com desconfiança. É hora de normalizar a ambição como parte integrante da vida de qualquer ser humano — e não como um comportamento desadequado ou “demasiado assertivo” quando vem de uma Mulher.

O desafio da independência financeira
A autonomia económica é a base da liberdade de escolha. Não há empoderamento real sem literacia financeira, sem capacidade de tomar decisões sem medo, sem estruturas que permitam às Mulheres investir, negociar e planear a sua vida. A desigualdade salarial continua a existir, a penalização da maternidade continua a existir, e a insegurança económica é ainda um dos principais fatores que impede muitas Mulheres de saírem de situações injustas.
Liberdade financeira não é um luxo — é uma necessidade.

O desafio da representatividade com impacto
Não basta ter Mulheres sentadas à mesa. É preciso que tenham voz, influência, poder de decisão e respeito. É preciso vê-las na tecnologia, na ciência, nas finanças, na política, na academia, nos media, no empreendedorismo. Não como exceções brilhantes, mas como parte natural da paisagem. A representatividade não é apenas simbólica; é transformadora. Cada Mulher que ocupa um lugar de liderança abre espaço mental para que outras se imaginem ali. Mas o Dia Internacional da Mulher não deve ser apenas um manifesto. Deve ser também uma celebração profunda e emocional.
Celebramos as que abriram caminho com sacrifícios que nunca saberemos.
Celebramos as que lutam em silêncio.
Celebramos as que inventam novas formas de viver, trabalhar, liderar e amar.
Celebramos as que cuidam, as que ensinam, as que empreendem, as que estudam, as que recomeçam aos 20, aos 40 ou aos 70.
E celebramos também as pequenas revoluções diárias:
a jovem que escolhe uma área onde é “a única rapariga”;
a mãe que regressa ao trabalho sem pedir desculpa;
a profissional que finalmente valoriza o seu tempo;
a Mulher que aprende a gerir o seu dinheiro;
a que deixa relações tóxicas;
a que começa a dizer “não”;
a que descobre que merece mais.
O progresso das Mulheres nunca foi linear. É feito de avanços e recuos, de coragem e cansaço, de persistência e esperança. Mas é sempre feito de força.
Por isso, neste Dia Internacional da Mulher, deixo esta convicção:
O futuro será verdadeiramente equilibrado quando deixarmos de celebrar a exceção
e começarmos a celebrar a normalidade de ver Mulheres em todos os lugares onde
sempre deveriam ter estado.
Até lá, continuaremos a abrir portas.
Continuaremos a desafiar limites.
Continuaremos a levantar outras Mulheres connosco.
Continuaremos a inspirar, a construir, a transformar.
Porque o mundo precisa — urgentemente — de Mulheres livres, Mulheres inteiras, Mulheres sem culpa, Mulheres que ocupam espaço sem pedir licença.
E, acima de tudo, de Mulheres que sabem que não têm de ser perfeitas.
Só precisam de ser verdadeiras.
A Vida Não Pode Esperar.


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