Menopausa sem Medos: Conhecimento, Consciência e Ação
Durante anos, a Menopausa permaneceu um tema secundário, muitas vezes envolto em silêncio e desinformação. Cristina Mesquita de Oliveira escolheu trazê-lo para o centro da conversa. Fundadora e Presidente da Direção da VIDAs – Associação Portuguesa de Menopausa, dinamizadora da Comunidade de Saúde em Menopausa, autora do livro Descomplicar a Menopausa e Embaixadora da Épicas Hub, tem sido uma voz incontornável na defesa da saúde das mulheres. Em 2024, deu um passo decisivo ao levar a discussão sobre a Menopausa ao Parlamento Português, marcando um momento histórico no reconhecimento público deste tema.
O seu percurso é inspirador. O que a motivou a dedicar-se à temática da menopausa e qual foi o momento decisivo que transformou esta causa numa missão pública?
A minha ligação à menopausa nasceu da experiência concreta e do contacto direto com milhares de mulheres que, durante anos, relataram vivências marcadas pelo silêncio, pela desinformação e pela desvalorização institucional. A minha formação académica dentro das ciências sociais, especificamente em Ciências da Comunicação e especialização em comunicação em saúde, evidenciou que não estávamos perante um problema individual, mas perante uma falha estrutural do sistema — social, médico e político.
O momento decisivo surgiu quando compreendi que a menopausa não era apenas invisível, mas ativamente omitida das políticas públicas, da literacia em saúde e do debate social. Foi nesse ponto que deixei de falar apenas como mulher e passei a assumir um papel público, de catalisadora e impulsionadora de um movimento coletivo, que hoje se materializa na VIDAs Associação Portuguesa de Menopausa que nasce precisamente para transformar experiências individuais em conhecimento estruturado, reivindicação cívica e mudança concreta.
Em 2024 levou a discussão sobre menopausa ao Parlamento Português. Como foi essa experiência e que impacto acredita que terá nas políticas públicas?
Levar a menopausa ao Parlamento não foi um gesto simbólico, foi um ato político estruturado. A VIDAs foi a primeira entidade em Portugal a enquadrar a menopausa como uma matéria de saúde pública, igualdade e direitos humanos, apresentando dados, propostas e soluções concretas.
O impacto resultante foi que a menopausa entrou finalmente no léxico social, político e nas agendas institucionais. O reconhecimento legislativo que hoje existe resulta diretamente desse trabalho persistente e fundamentado. O verdadeiro desafio agora é a concretização prática dessas medidas. Acredito que este passo marca uma mudança irreversível: a menopausa deixou de ser um assunto privado para passar a ser uma responsabilidade coletiva do Estado e da sociedade.
O seu livro Descomplicar a Menopausa é único em Portugal. Que mitos ou ideias preconcebidas ainda precisam de ser desmistificados?
Descomplicar a Menopausa foi o primeiro livro em Portugal a assumir a menopausa como um processo global e não como um conjunto isolado de sintomas. Mais do que inaugurar uma conversa pública, estabeleceu um ponto de partida e continua a ser o mais procurado, é o mais vendido e vai na 3ª edição, precisamente pela sua abordagem integrada que é única — biológica, emocional, social, relacional e política: escrito pela mulher que mais experiência tem em lidar com outras mulheres em menopausa, revisto por um ginecologista especialista em menopausa e por uma psicóloga clínica da saúde que fazem o prefácio, atestando o valor cientifico como profissionais de saúde
Um dos mitos mais persistentes é a ideia de que a menopausa é apenas um evento médico, desligado do contexto de vida das mulheres. Outro preconceito recorrente é a normalização do sofrimento e da perda de qualidade de vida como algo inevitável. Há ainda uma visão excessivamente fragmentada, centrada apenas em determinadas áreas do saber, que ignora a complexidade real desta fase.
O livro nasce da escuta de uma comunidade viva e diversa, e não de uma construção teórica abstrata. Essa escuta permite devolver às mulheres uma narrativa completa, informada e plural, que legitima experiências distintas e promove escolhas conscientes, afastando o medo, o silêncio e a culpabilização.
A Comunidade de Saúde em Menopausa Movimento Menopausa Divertida aborda a menopausa de forma leve e informativa. Como essa abordagem pode mudar a vivência das mulheres?
A leveza não significa superficialidade. Significa proximidade, empatia e acessibilidade. Quando se cria um espaço seguro, onde o humor convive com informação séria, as mulheres sentem-se autorizadas a falar, a perguntar e a procurar ajuda.
A comunidade tem sido um instrumento fundamental para quebrar o isolamento e criar literacia em saúde fora dos contextos tradicionais. Este modelo comunitário mostrou que informação clara, linguagem simples e acolhimento emocional têm um impacto real na qualidade de vida e na autonomia das mulheres.
Como Embaixadora da Épicas Hub, como vê a intersecção entre inovação, empoderamento feminino e saúde da mulher?
Vejo essa intersecção como inevitável e necessária. Não há inovação real sem inclusão, nem empoderamento sem conhecimento. A saúde da mulher, e em particular a menopausa, foi durante décadas excluída dos processos de inovação social e económica.
Projetos conjuntos devem focar-se na criação de espaços de literacia, na visibilidade de lideranças femininas maduras e na normalização da saúde ao longo do ciclo de vida. Acredito em iniciativas que cruzem impacto social, comunicação estratégica e responsabilidade cívica.
Olhando para o futuro, que mudanças espera ver no reconhecimento da menopausa e na qualidade de vida das mulheres?
Espero ver a menopausa integrada de forma transversal nas políticas de saúde, trabalho, educação e igualdade. Isso implica formação de profissionais das áreas diversas, acesso equitativo a cuidados, reconhecimento no contexto laboral e uma narrativa social mais justa.
A médio prazo, espero que deixe de ser necessária uma associação para legitimar este tema. O sucesso da VIDAs será, paradoxalmente, tornar-se dispensável porque o sistema passou a cumprir o seu papel.