“Procuro Apoiar e Empoderar através da informação e do conhecimento”
A Perimenopausa e a Menopausa continuam a ser fases pouco faladas, mas profundamente transformadoras na vida de muitas mulheres. Para quebrar tabus, esclarecer dúvidas e trazer ciência aliada à experiência clínica, conversámos com Ana Marques, Farmacêutica especializada em Saúde na Perimenopausa e Menopausa e Parceira da Épicas Hub. Nesta entrevista, a nossa entrevistada partilha uma visão clara, prática e empoderadora sobre estas etapas, ajudando-nos a compreender melhor o que muda no corpo, na mente e, sobretudo, como viver este período com mais equilíbrio, informação e qualidade de vida.
Como farmacêutica, o que a motivou a dedicar-se especificamente à peri-menopausa e menopausa, e de que forma a sua experiência clínica influência o seu trabalho com mulheres nesta fase da vida?
O que me motivou a dedicar-me especificamente a esta área foi a minha própria história de uma Menopausa que aconteceu de forma inesperada e prematura: aos 40 anos, quando estava a tentar engravidar de um 3º filho e não consegui, nessa altura recebi o diagnóstico de Falência Ovárica Prematura.
A minha experiência profissional foi exercida, durante mais de 20 anos, no Departamento Médico da Indústria Farmacêutica, portanto o estudo de várias áreas terapêuticas e a curiosidade científica sempre me acompanharam, o que acabou por ser um fator a meu favor, quando tive necessidade de aprofundar bem e de entender o que se estava a passar no meu organismo, e de procurar a melhor solução de tratamento. Fui também percebendo, à medida que ia mergulhando mais nos conhecimentos, que há muitas consequências a vários níveis e um dos mais impactantes é ao nível da saúde mental: as insónias, a ansiedade avassaladora com que tinha ficado e a depressão tinham uma explicação lógica, porque o cérebro é um dos locais onde existem mais recetores hormonais e, havendo um declínio hormonal abrupto, ressente-se deveras.
O meu caso foi mais drástico, porque o declínio hormonal que carateriza a Falência Ovárica prematura é abrupta, estes casos representam apenas 4% do total das mulheres, no entanto os casos de Menopausas precoces, que são as que ocorrem entre os 40 e os 45 anos de idade, têm vindo a aumentar de incidência ultimamente (10 a 15% dos casos). Há que não esquecer, que mesmo nos casos de Menopausa em idade fisiológica, a maioria das mulheres têm sintomatologia marcada que lhes incute sofrimento e perda de qualidade de vida!
Senti profundamente os efeitos da falência hormonal, tendo tido consequências terríveis: saúde mental comprometida, ossos desmineralizados e com osteoporose marcada, entre várias outras intercorrências indesejáveis...daí ter sido movida a criar um projeto onde pudesse partilhar informação, apoiar e alertar outras mulheres para este tema que pode ter um impacto tão grande - foi assim que nasceu o @2young2pause (Instagram)!
O mais curioso é que durante o meu estágio curricular uma utente da Farmácia falou comigo sobre o seu caso de Menopausa precoce e eu fiquei tão sensibilizada, a pensar em como aquela mulher tão nova estava a ser afetada e a sofrer...quem havia de dizer que daí a vários anos seria eu a passar por uma situação ainda mais radical?
Na sua opinião, quais são os maiores mitos ou desinformações que ainda existem sobre a peri-menopausa e menopausa, e como acredita que podem ser desmistificados?
Há ainda muita desinformação. Uma das maiores em relação à Menopausa talvez seja em relação à vida sexual, visto que uma proporção considerável de mulheres apresenta diminuição de líbido, secura vaginal, e em alguns casos, surge dor durante a relação sexual. No entanto, esses sintomas são totalmente reversíveis e existem várias soluções de tratamento: Terapia de Reposição Hormonal, estrogénios locais (que podem ser utilizados mesmo em doentes com Cancro da Mama), substâncias hidratantes de aplicação local.
Um outro mito/crença é que “não se deve tomar nada” e isso é muito errado. Porque razão havemos de estar a sofrer com sintomas incómodos e a colocar em risco a nossa saúde cardiovascular, mental e óssea? Existem as hormonas bioidênticas, exatamente com a mesma estrutura das moléculas hormonais produzidas pelo nosso organismo, que sempre nos fizeram bem e é delas que continuamos a precisar para manter a vitalidade e saúde do nosso organismo - claro que o objetivo não é atingir o nível hormonal que tínhamos quando éramos jovens, mas sim manter um nível que proteja o nosso organismo e nos mantenha saudáveis.
Também é fundamental que as mulheres entendam que a Perimenopausa é a fase mais importante - os sintomas começam a surgir nesta fase e, idealmente, é logo aí que o tratamento de reposição hormonal deve ser iniciado. Quanto mais cedo começar a existir reposição hormonal, menores serão os efeitos nefastos causados pela ausência das hormonas. No entanto, a reposição hormonal pode ser iniciada a qualquer altura, mesmo que já tenham passado os primeiros 10 anos após a Menopausa - este é um mito enorme! Claro que o maior benefício para a mulher é que a reposição hormonal seja iniciada o mais precocemente possível, no entanto, já tendo passado 10 anos após a Menopausa, pode iniciar reposição, desde que bem avaliada a sua situação clínica.
Quais são os impactos mais comuns, mas menos discutidos, da menopausa na saúde física, emocional e social das mulheres, e como elas podem preparar-se para enfrentá-los de forma mais positiva?
A Menopausa pode ter um impacto grande ao nível do desempenho profissional, pois a dificuldade de concentração e o nevoeiro cerebral podem tornar difíceis a rotina de trabalho. Há dados do Reino Unido recentes, que demonstram que 1 em cada 10 mulheres abandonou o seu trabalho devido à Menopausa, o que é desolador.
Assim, as mulheres devem saber que é comum surgir desconcentração e névoa cerebral, bem como é muito relevante que as empresas estejam sensibilizadas para este tema e possam apoiar as suas colaboradoras e informá-las devidamente.
Existem muitos outros impactos da Menopausa, a vários outros níveis: a queda de cabelo, que pode ter um impacto marcado na autoestima, assim como o ganho de peso. Até pode existir alteração do odor corporal e isso causar constrangimento ou desconforto para a mulher, que não se sente como era antes.
Estar informada sobre as consequências do declínio hormonal e o que fazer para reverter isso é a melhor solução.
Que estratégias, terapias ou hábitos de vida têm demonstrado maior eficácia para aliviar sintomas da menopausa e melhorar a qualidade de vida das mulheres nesta fase?
A Terapia de Reposição Hormonal é uma estratégia fundamental, que deve ser complementada por uma rotina de hábitos de vida saudáveis: exercício físico, boa alimentação, dormir bem, adotar hábitos de vida relaxantes, passar tempo em contacto com a natureza.
Para quem não pode fazer Terapia de Reposição Hormonal, há a possibilidade de utilização de terapia hormonal local (intravaginal) e também existem vários fármacos recentes não-hormonais aprovados para aliviar os afrontamentos.
Em relação a algumas substâncias naturais e derivadas de plantas para aliviar sintomas de Menopausa, a evidência proveniente dos estudos clínicos é controversa, pelo que não defendo a sua utilização em primeira linha.
A suplementação com algumas vitaminas, minerais e outros nutrientes, pode funcionar como aliada, não só colmatando carências, mas sendo bastante pertinente para otimizar várias reações químicas no organismo.
No capítulo do exercício físico, é importante realçar que o exercício de carga e de impacto é crucial para manter a massa muscular e óssea, sendo muito importante que as mulheres façam exercício de carga a partir da Perimenopausa e continuem a praticá-lo daí em diante, a massa muscular permite atingir maior longevidade e vitalidade, protegendo também a saúde cerebral. O melhor será sempre escolher um tipo de exercício físico que gostemos de praticar e depois complementá-lo com exercício físico de carga e impacto, para garantir que estamos a trabalhar o que devemos nesta fase da vida.
Descobrir algo que nos permita movimentar e ao mesmo tempo descontrair pode ser fantástico - praticar Dança ou Yoga, por exemplo!
Como Parceira da Épicas Hub, de que forma procura apoiar e empoderar mulheres que atravessam a peri-menopausa e menopausa, e qual a importância de comunidades como esta na saúde da mulher?
Procuro apoiar e empoderar através da informação e do conhecimento: quanto mais informadas e esclarecidas estivermos, mais vamos conseguir fazer por nós, pela nossa saúde e qualidade de vida durante a Perimenopausa e no pós-menopausa. Estas comunidades são muitíssimo importantes - permitem proximidade, troca de ideias, colaboração, entreajuda, cocriação de mais serviços dirigidos às mulheres. Para as mulheres que recorrem à plataforma Épicas Hub, é muito vantajoso ter, num só local, vários serviços focados nas suas necessidades à disposição e é algo que é inovador, que facilita às mulheres cuidarem bem de si!
Que mensagem ou conselho gostaria de deixar para as mulheres que estão a entrar na peri-menopausa ou menopausa, e o que considera essencial para que a sociedade em geral valorize e compreenda melhor esta fase da vida feminina?
O meu conselho é que estejam bem informadas, porque assim estarão melhor preparadas para identificar sintomas que poderiam passar despercebidos e conseguir atuar em relação aos mesmos. Gostaria de dizer-lhes para não terem medo, porque existem soluções de tratamento e podem confiar: é possível voltar a ter uma qualidade de vida e saúde como a que tinham antes ou até melhor!
Considero essencial que a Sociedade entenda que a Perimenopausa e Menopausa acarretam uma grande alteração biológica no organismo feminino, que é ficar sem as hormonas que toda a vida lhe deram equilíbrio e isso tem consequências a vários níveis. As hormonas orquestram o organismo da mulher e, sem elas, nada funciona corretamente, daí que tantos sintomas e tão diversos possam surgir pela ausência hormonal: (abaixo deixo apenas alguns)
Sono fragmentado, irritabilidade, ansiedade, depressão, nevoeiro cerebral.
Fadiga, afrontamentos, suores noturnos, distensão abdominal.
Dores nas articulações, osteoporose, diminuição da massa muscular.
Secura das mucosas, diminuição da libido, redistribuição da gordura corporal e aumento de peso.
Alteração da textura da pele e cabelo, queda de cabelo.