“A menopausa deve ser vista como uma fase de Mestria e não de decadência”
Estivemos à conversa com Alexandra Rocha Pereira, autora do livro “Tratar a Menopausa por Tu” e Embaixadora Épica, sobre a importância de falar abertamente da menopausa, quebrar tabus e promover uma vivência mais informada, consciente e empoderada desta fase da vida. Com uma abordagem próxima e esclarecedora, Alexandra partilha a sua visão, experiência e o impacto de tratar a menopausa sem medos, com conhecimento e humanidade.
O seu livro “Tratar a Menopausa por Tu” trouxe um olhar muito pessoal e direto sobre a menopausa. O que a motivou a escrever esta obra e qual foi o seu principal objetivo ao partilhar a sua experiência com tantas mulheres?
A motivação para escrever este livro nasceu da vontade de tornar acessível a informação relativa à Menopausa e ao conhecimento na saúde da mulher, de uma forma prática e direta. O objetivo foi criar o livro que eu queria ler e não encontrava. Quis fornecer uma estrutura robusta para que todas as mulheres possam ter ao seu dispor ferramentas e estratégias para melhorar não só a sintomatologia associada a esta fase, mas gerir positivamente todas a alterações que daí advêm. Como fisiologista do exercício, observei a disparidade entre a evidência científica (que aponta para a importância do estilo de vida) e a informação disponibilizada às mulheres, que é muitas vezes fragmentada ou focada apenas na patologia. No meu caso particular, com 45 anos e com uma história de vida dedicada ao desporto desde os 10, esta é precisamente a altura crítica para abordar esta temática e o livro visa devolver a menopausa à esfera do poder e do conhecimento, transformando o medo em ação informada e garantindo que as mulheres se sintam protagonistas da sua saúde e não meras expectadoras.
Quais são os principais mitos ou ideias erradas que ainda existem sobre a menopausa e que acredita serem mais prejudiciais para as mulheres que a vivem?
O mito mais prejudicial que ainda existe é, sem dúvida, a ideia de que é o fim — o fim da feminilidade, da sexualidade, da energia e da relevância, o que leva a um conformismo e à passividade, que são extremamente prejudiciais, especialmente para quem sempre foi ativa. Existe o mito de que "é normal teres todos estes sintomas horríveis e tens que os aguentar", o que impede as mulheres de procurar ajuda e de fazer mudanças de estilo de vida que são absolutamente transformadoras. Outro mito muito forte é o medo desmedido em relação à Terapia Hormonal de Menopausa, que, alimentado por informação desatualizada e distorcida, faz com que muitas mulheres rejeitem uma opção de tratamento que pode melhorar significativamente a sua qualidade de vida. Cada mulher deve poder optar pela forma como quer passar por esta fase, recorrendo a THM ou a terapias mais naturais, mas sempre com informação científica e acima de tudo, atualizada. E, por fim, a ideia de que "é só uma questão hormonal" desvaloriza o impacto psicológico, social e a importância da saúde mental e do estilo de vida (exercício, nutrição, sono, stress) nesta fase, pois não se trata apenas de hormonas, mas sim da mulher na sua totalidade.
O seu trabalho tem um grande foco na informação e empoderamento feminino. Na sua opinião, qual é o papel da educação na transformação da forma como a sociedade vê e apoia a menopausa?
A educação é a chave mestra para a transformação e o empoderamento feminino. Os programas escolares carecem da abordagem a este tema e seria muito interessante vê-lo aí incluído também. A menopausa ainda é tratada como um assunto de "mulher", falado a sussurros, e quando a educação se torna ampla, aberta e rigorosa, desfaz-se o tabu, trazendo a menopausa para a conversa pública, normalizando-a como uma fase natural da vida. Este conhecimento empodera a mulher, dando-lhe o vocabulário e o conhecimento para ser a principal decisora da sua própria saúde, permitindo-lhe ter conversas informadas com os seus médicos. Ao mesmo tempo, esta educação transforma a perceção social, que deixa de ver a menopausa como um período de declínio para a reconhecer como uma fase de transição e redefinição, onde a experiência da mulher é valiosa. Acredito que a educação transforma o medo em ação.
No seu livro, aborda formas práticas de lidar com os sintomas da menopausa. Que estratégias ou mudanças de estilo de vida considera mais eficazes para ajudar as mulheres a atravessar esta fase de forma mais tranquila e positiva?
No livro abordo várias estratégias e ferramentas e as mais eficazes assentam em três pilares fundamentais de estilo de vida:
Exercício Físico Estratégico: Não é apenas "mexer-se", mas sim ajustar o treino à nova realidade hormonal. Fundamental focar-se no treino de força (para proteger a massa muscular e óssea, e melhorar o metabolismo) e no treino aeróbico (para gestão de peso e regulação da insulina). O exercício é o melhor "remédio" para as afrontamentos, humor e qualidade do sono.
Nutrição Anti-inflamatória e Estrutural: Priorizar proteínas, fibras e gorduras saudáveis (ómega-3). É crucial a atenção à saúde óssea (cálcio, vitamina D) e à saúde intestinal. O que comemos afeta diretamente os nossos níveis de energia e a intensidade dos sintomas, e é vital para proteger a sua longevidade.
Gestão do Stress e Sono: O stress crónico e a falta de sono exacerbam todos os sintomas da menopausa. Estratégias como a meditação, mindfulness e a criação de uma rotina de sono rigorosa são não-negociáveis. É preciso reaprender a priorizar o descanso e o cuidado próprio para atravessar esta fase de forma mais tranquila e positiva.
Como Embaixadora Épica, como vê a interseção entre inovação, comunidade e saúde feminina? Que oportunidades ou projetos gostaria de explorar para reforçar o impacto positivo da Épicas Hub junto das mulheres?
Fazer parte da Épicas Hub é ter a certeza de que a inovação e o foco na comunidade se encontram para servir a mulher adulta. A Épicas Hub representa a união da informação rigorosa com a força da comunidade, que é o que faltava. Enquanto Embaixadora Épica, vejo a interseção entre inovação, comunidade e saúde feminina como um círculo virtuoso, onde a inovação tecnológica da plataforma democratiza o acesso a especialistas, e a comunidade oferece um espaço seguro onde as mulheres se reconhecem e apoiam, quebrando o isolamento.
Gostaria de explorar projetos que reforcem a ligação entre o conhecimento científico e a aplicação prática no dia-a-dia, como formações, conversas abertas, palestras, com estruturas adaptadas especificamente para a menopausa. Além disso, seria interessante a criação de conteúdos que envolvam os parceiros, as famílias e os locais de trabalho, pois a menopausa afeta todo o sistema em que a mulher está inserida, e o impacto da Épicas Hub deve ser cada vez mais abrangente.
Olhando para o futuro, que evolução espera ver na perceção social, no apoio médico e na valorização da experiência das mulheres durante a menopausa? Qual legado gostaria de deixar através do seu trabalho e da sua ligação à Épicas Hub?
Espero ver uma evolução onde a menopausa seja vista como uma fase de mestria e não de decadência. Em termos de perceção social, espero que as mulheres na menopausa sejam reconhecidas pela sua experiência, resiliência e valor, e não apenas pela sua idade reprodutiva.
Espero um apoio médico com suporte verdadeiramente integrativo e personalizado, onde o estilo de vida e as opções de tratamento (incluindo a terapia hormonal, quando indicada) são discutidas de forma aberta e sem estigma, tornando o conhecimento da menopausa obrigatório e de alta qualidade em todos os níveis de formação médica.
O meu legado, através do meu trabalho e da Épicas Hub, é o de ter contribuído para quebrar o ciclo do silêncio e da resignação. Gostaria de deixar a mensagem de que o conhecimento é poder, e que a mulher dos 40, 50, 60+ anos tem o direito e a capacidade de ser a sua melhor versão, redefinindo o que significa envelhecer com saúde e vitalidade.