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Liderar com Propósito: Quando o Crédito Transforma Vidas


No setor da intermediação de crédito, onde a confiança, o conhecimento e a capacidade de decisão fazem a diferença, as mulheres assumem, cada vez mais, um papel determinante na transformação do mercado. A sua presença não representa apenas uma evolução em termos de representatividade, mas também uma nova forma de liderar, construir relações de proximidade e criar valor para clientes, equipas e organizações.
É neste contexto que a Business Voice esteve à conversa com Andreia Freitas, CEO do Grupo RAF, uma líder que tem acompanhado de perto a evolução do setor e que acredita que o verdadeiro sucesso se constrói com visão estratégica, resiliência e um compromisso permanente com a excelência. Nesta entrevista, partilha a sua perspetiva sobre os desafios e as oportunidades que continuam a marcar o percurso das mulheres na intermediação de crédito, refletindo também sobre liderança, inovação, confiança e o impacto de uma gestão orientada para as pessoas. Uma conversa que evidencia que o futuro do setor passa, inevitavelmente, por lideranças capazes de inspirar, desafiar paradigmas e transformar experiência em crescimento sustentável.

O setor da intermediação de crédito é uma área especializada dentro do mercado financeiro. O que a motivou a seguir este percurso profissional e quais foram os principais fatores que a levaram a apostar nesta carreira e, mais tarde, a assumir a liderança do Grupo Raf?
Sempre fui uma pessoa de pessoas. Desde cedo percebi que o que me dava energia não era um escritório cheio de números, era o contacto humano, era perceber o que estava por trás de cada situação. A intermediação de crédito surgiu quase de forma natural porque é uma área onde se pode realmente ajudar. O que me move, todos os dias, é ver famílias que estavam apenas a sobreviver conseguirem viver de novo para elas. Uma família que estava a afogar-se nas dívidas, sem conseguir chegar ao fim do mês, e que depois de trabalharmos juntos num desbloquear da situação, consegue respirar, fazer planos, sonhar outra vez. Esse momento vale tudo. Quando decidi apostar nesta carreira a sério, e mais tarde assumir a liderança, foi porque percebi que havia um espaço enorme para fazer as coisas de forma diferente, com mais proximidade, mais clareza, mais humanidade. E é isso que continua a guiar-me.

Nos últimos anos, a intermediação de crédito assumiu um papel cada vez mais relevante, sobretudo num contexto marcado pelo aumento das taxas de juro, da inflação e da pressão sobre os orçamentos familiares. Na sua perspetiva, qual é hoje o verdadeiro contributo dos intermediários de crédito para a sustentabilidade financeira das famílias portuguesas e para uma tomada de decisão mais informada?
O nosso trabalho é, antes de mais, pôr as coisas em linguagem simples. Os bancos falam de uma forma, as famílias falam de outra, e nós fazemos essa ponte. Numa altura em que as taxas de juro subiram muito e o custo de vida disparou de forma brutal, muitas famílias ficaram completamente perdidas. Não sabiam o que fazer, não sabiam a quem recorrer, tinham medo de falar com o banco. Nós entramos nesse espaço. Ajudamos as pessoas a perceber as opções que têm, a comparar, a negociar, a não assinar o primeiro papel que aparece só porque precisam urgentemente de uma solução. Uma decisão financeira mal tomada pode custar caro durante décadas. Nós estamos ali para que isso não aconteça, para que a família tome a melhor decisão possível, bem informada, com confiança.

Embora se tenham registado avanços significativos na igualdade de oportunidades, as mulheres continuam sub-representadas em muitas áreas do setor financeiro. Como caracteriza atualmente a presença feminina na intermediação de crédito e que evolução tem observado ao longo da sua carreira?
Tem crescido, e muito. Quando comecei, éramos bastante menos mulheres nesta área. Era um setor mais dominado por homens. Hoje já vejo isso a mudar, e com uma velocidade que me surpreende positivamente. As mulheres têm uma capacidade enorme de ouvir, de criar confiança, de ir ao fundo da situação de cada cliente sem pressa, sem pressão. E isso é essencial neste trabalho. Não basta saber de crédito, é preciso saber estar com as pessoas. Ao longo da minha carreira fui vendo cada vez mais mulheres a entrar e a destacar-se, a construir carteiras de clientes sólidas, a liderar equipas. Ainda há caminho a percorrer, mas a direção é boa.

Enquanto mulher e CEO, considera que enfrentou desafios específicos no seu percurso profissional por questões de género? Que obstáculos persistem para as mulheres que ambicionam assumir cargos de liderança neste setor e de que forma podem ser ultrapassados?
Vou ser sincera, mesmo que não seja a resposta que se espera: não senti isso por ser mulher. O meu caminho foi feito com muitíssimo trabalho, nada me foi dado, tudo foi construído com esforço próprio. E tive ajuda genuína, de homens e de mulheres, parceiros bancários que acreditaram em mim ao longo do percurso. Se houve um entrave real no meu caso, não foi o género em si, foi conseguir gerir tudo ao mesmo tempo: a casa, os filhos, o trabalho. Essa sim foi a verdadeira dificuldade, conciliar todas as frentes sem deixar cair nenhuma. Não vou fingir uma barreira que não vivi só porque é o discurso mais esperado de uma mulher na minha posição. Prefiro esta verdade: o meu percurso foi de trabalho intenso, apoio genuíno de quem acreditou em mim, e o verdadeiro desafio foi o equilíbrio entre tudo o que uma mulher carrega ao mesmo tempo.

Existem características que associa a uma liderança feminina na intermediação de crédito, nomeadamente ao nível da relação com os clientes, da gestão de equipas ou da negociação? De que forma essas competências podem representar uma mais-valia num negócio que assenta fortemente na confiança e no aconselhamento personalizado?
Acredito que sim, e digo isto sem querer generalizar, porque há homens com estas qualidades e mulheres sem elas. Mas aquilo que observo com mais frequência nas mulheres que lideram neste setor é uma capacidade genuína de ouvir, de estar presente na conversa, de notar o que não está a ser dito. A empatia, a atenção ao detalhe, a paciência para perceber o contexto real de cada cliente, são coisas que muitas mulheres trazem naturalmente para a mesa. E num negócio que se baseia em confiança e em aconselhamento personalizado, isso é uma vantagem enorme. As pessoas precisam de sentir que estão a falar com alguém que as entende de verdade, que está do seu lado, não com alguém que quer apenas fechar mais um processo. Essa diferença sente-se, e os clientes valorizam-na muito.

A conciliação entre a vida profissional e pessoal continua a ser um dos temas mais debatidos quando se fala de liderança feminina. Na sua experiência, considera que o setor da intermediação de crédito oferece hoje condições para que mais mulheres possam construir carreiras sólidas sem comprometer o equilíbrio entre as diferentes dimensões da sua vida?
É um desafio diário, e não vou fingir que já sei separar bem trabalho de casa, ainda não sei. Muitas vezes são 10 da noite e ainda estou a responder a um cliente, quando devia estar só com a minha família. Ainda não consigo desligar e deixar tudo para o dia seguinte. Dada a importância que a minha família tem para mim, é um desafio que levo a sério e trabalho todos os dias para melhorar. Não acredito no equilíbrio perfeito, acredito em melhorar, um dia de cada vez.  

Que iniciativas considera fundamentais para atrair mais mulheres para a área da intermediação de crédito, promover a sua progressão profissional e incentivar uma maior presença feminina em funções de decisão e liderança? Qual tem sido o papel do Grupo Raf nesse caminho?
Acho que a primeira coisa é mostrar, na prática, que é possível, não com discursos bonitos, mas com exemplos reais. Muitas mulheres nem consideram esta área porque não veem outras mulheres em posições de destaque nela. No Grupo RAF, isso não é teoria: temos mulheres em posições de liderança, e eu própria, como CEO, sou prova de que se chega lá com trabalho, não com favores. Depois, é fundamental dar flexibilidade real e não a "flexibilidade de fachada" que existe só no papel. Sei bem o que é gerir casa, filhos e empresa ao mesmo tempo, e é isso que tento criar para a minha equipa: um ambiente onde as pessoas podem ser exigentes profissionalmente sem terem de esconder que também são mães, ou que também têm uma vida fora do escritório. Também acho essencial investir em formação e dar responsabilidade cedo e não esperar "que estejam prontas", mas dar-lhes o desafio e confiar que vão aprender a fazer, tal como eu tive de aprender. Foi assim que cresci: com trabalho e com quem acreditou em mim antes de eu ter todas as respostas. No Grupo RAF, o nosso papel é continuar a ser essa referência prática e mostrar que uma mulher pode liderar nesta indústria, formar outras mulheres para que cheguem lá também, e criar condições reais, não só no discurso para que o percurso delas seja mais fácil do que o meu foi.

Para terminar, que mensagem gostaria de deixar às jovens mulheres que procuram construir uma carreira no setor financeiro e que possam estar a considerar a intermediação de crédito como uma oportunidade de desenvolvimento profissional e empreendedor?
Que não tenham medo, esse é o ponto de partida. Este é um setor onde o trabalho, a dedicação e os resultados falam mais alto do que o género. Comecem, façam perguntas, não finjam que sabem o que não sabem, e aprendam com toda a gente à volta. Os primeiros anos são duros, mas são os que ensinam mais. E lembrem-se sempre do porquê. Não é pela comissão, não é pelo título, é porque do outro lado há uma família real, com problemas reais, que está a contar com vocês para encontrar um caminho. Quando isso fica claro, o trabalho deixa de ser trabalho e passa a ser algo com significado. E é esse significado que vos vai manter de pé nos dias mais difíceis.


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