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“O Crescimento Humano acontece quando ciência, consciência e ação caminham lado a lado”

Antes de mergulharmos na entrevista, vale a pena refletir sobre uma realidade atual: A velocidade do quotidiano, a pressão constante para corresponder a expectativas e a dificuldade em gerir emoções transformaram o bem-estar psicológico num dos maiores desafios da atualidade e, ao mesmo tempo, muito importante de cuidar. Neste contexto, o mindfulness e a autorregulação emocional deixaram de ser conceitos exclusivos da psicologia para se afirmarem como competências essenciais para viver com maior equilíbrio, clareza e propósito.
É precisamente neste cruzamento entre ciência, desenvolvimento humano e transformação pessoal que encontramos Elisabete Sousa, Psicóloga, Coach, Formadora e Fundadora da Heal & Grow Elisabete Sousa. Com uma abordagem que alia conhecimento científico, consciência emocional e ação prática, acredita que o verdadeiro crescimento não acontece através de soluções rápidas, mas sim pela construção consistente de competências que permitem enfrentar os desafios da vida com maior resiliência, autenticidade e inteligência emocional.
Nesta conversa, exploramos o papel do mindfulness na promoção da saúde mental, a importância da autorregulação emocional num mundo cada vez mais exigente e de que forma pequenas mudanças na forma como pensamos, sentimos e agimos podem gerar um impacto profundo na qualidade das nossas vidas. Uma entrevista inspiradora que nos recorda que cuidar da mente não é um luxo, mas uma necessidade, e que o crescimento mais transformador começa sempre no interior de cada um de nós

Vivemos numa sociedade marcada pela pressa, pela sobrecarga de informação e por níveis elevados de ansiedade. Na sua perspetiva, porque é que o mindfulness deixou de ser apenas uma prática complementar para se tornar uma competência essencial para preservar a saúde mental e a qualidade de vida?
Vivemos numa época em que somos constantemente estimulados por informação, exigências profissionais, responsabilidades familiares e um ritmo acelerado que, muitas vezes, nos afasta da experiência do momento presente. A tecnologia trouxe inúmeros benefícios, mas também aumentou a disponibilidade permanente, a comparação social e a dificuldade em desligar, criando um contexto propício ao stress crónico e à sobrecarga mental.
Neste cenário, o mindfulness deixou de ser encarado apenas como uma prática complementar para assumir um papel cada vez mais relevante na promoção da saúde psicológica e do bem-estar. Importa, contudo, compreender que mindfulness não significa "esvaziar a mente" nem eliminar pensamentos ou emoções. Trata-se da capacidade de prestar atenção, de forma intencional e sem julgamento, à experiência presente, desenvolvendo uma relação mais consciente com aquilo que pensamos, sentimos e fazemos.
Os exercícios de mindfulness podem contribuir para a redução do stress, da ansiedade e da ruminação mental, melhorar a capacidade de concentração, favorecer a regulação emocional e promover uma maior sensação de bem-estar, quando utilizados de forma adequada e integradas numa abordagem fundamentada.
Mais do que uma técnica de relaxamento, o mindfulness representa uma competência de autorregulação. Permite criar um espaço entre o estímulo e a resposta, tornando-nos menos reativos e mais conscientes das nossas escolhas. Essa capacidade é particularmente importante numa sociedade onde muitas decisões são tomadas em modo automático, impulsionadas pela pressão, pelo medo ou pela urgência.
Preservar a saúde mental implica hoje desenvolver competências que nos ajudem a gerir a complexidade da vida contemporânea. O mindfulness constitui uma dessas competências, não como solução única ou universal, mas como uma ferramenta valiosa para fortalecer a consciência, a presença e o equilíbrio emocional.

A autorregulação emocional é frequentemente confundida com a ideia de "controlar" ou "reprimir" emoções. Como distingue estes conceitos e que impacto pode ter uma boa gestão emocional na forma como enfrentamos desafios pessoais, familiares e profissionais?
Existe ainda a ideia de que gerir emoções significa não demonstrá-las ou "controlá-las". Na realidade, essa visão pode ser prejudicial. As emoções desempenham uma função adaptativa: informam-nos sobre necessidades e valores, preparando-nos para responder ao ambiente.
Reprimir emoções significa ignorá-las, escondê-las ou tentar eliminá-las. A longo prazo tende a aumentar o sofrimento psicológico, o desgaste físico e a dificuldade nas relações interpessoais. Emoções não desaparecem porque são ignoradas, frequentemente manifestam-se de outras formas, através de irritabilidade, ansiedade, insónia, fadiga ou sintomas físicos.
A autorregulação emocional é diferente, consiste em reconhecer aquilo que estamos a sentir, compreender a origem dessa emoção, aceitá-la como uma experiência humana legítima e escolher conscientemente a forma mais adequada de responder. Não se trata de eliminar emoções difíceis, mas de evitar que elas assumam o controlo das nossas ações.
Uma boa gestão emocional traduz-se numa maior flexibilidade psicológica. Pessoas emocionalmente reguladas conseguem comunicar com maior clareza, resolver conflitos de forma mais construtiva, lidar melhor com a frustração, adaptar-se às mudanças e tomar decisões menos impulsivas.
No contexto familiar, esta competência favorece relações mais seguras e respeitosas. No contexto profissional, melhora a comunicação, fortalece a liderança, reduz conflitos e aumenta a capacidade de trabalhar com eficácia sem comprometer o equilíbrio psicológico. Ao nível pessoal, promove maior autoconhecimento, autoestima e resiliência perante as inevitáveis adversidades da vida.
As emoções não são obstáculos ao nosso funcionamento, já que quando compreendidas e reguladas, tornam-se importantes aliadas na tomada de decisões e na construção de relações mais saudáveis.

Enquanto psicóloga, formadora, coach e autora de livros de desenvolvimento pessoal e de poesia, integra diferentes abordagens no acompanhamento das pessoas. De que forma a conjugação entre ciência, consciência e desenvolvimento pessoal permite alcançar resultados mais profundos e duradouros do que uma abordagem isolada?
Ao longo da minha experiência, fui percebendo que o desenvolvimento humano dificilmente pode ser compreendido através de uma única perspetiva. Cada pessoa traz consigo uma história, valores, recursos, desafios e objetivos diferentes, pelo que uma intervenção verdadeiramente eficaz exige uma visão integrada.
A Psicologia oferece o rigor científico necessário para compreender o funcionamento humano, avaliar dificuldades e utilizar intervenções sustentadas pela evidência. Este é um pilar indispensável, sobretudo quando estão presentes situações de sofrimento psicológico ou perturbações da saúde mental.
O desenvolvimento pessoal, quando conduzido de forma ética e responsável, complementa este trabalho ao promover reflexão, definição de objetivos, fortalecimento de competências, identificação de potencialidades e construção de uma vida mais alinhada com os valores da pessoa.
O coaching, dentro dos seus limites e respeitando claramente a distinção relativamente à intervenção psicológica, pode constituir uma ferramenta útil para apoiar processos de mudança orientados para objetivos específicos, desenvolvimento de competências e melhoria do desempenho, especialmente em pessoas sem psicopatologia que procuram crescimento pessoal ou profissional.
A consciência, desenvolvida através de práticas como o mindfulness, permite integrar estes diferentes níveis. Ajuda a pessoa a conhecer-se melhor, identificar padrões automáticos de funcionamento e responder à vida com maior presença e intenção.
Quando ciência, consciência e desenvolvimento pessoal caminham em conjunto, a mudança tende a ser mais consistente. Não se trata apenas de resolver problemas imediatos, mas de promover transformações sustentáveis na forma como a pessoa pensa, sente, age e se relaciona consigo própria e com os outros.
O verdadeiro crescimento acontece quando existe conhecimento, prática, reflexão e compromisso. É essa integração que permite desenvolver recursos internos capazes de acompanhar a pessoa muito para além do processo de intervenção.

O stress crónico, o burnout e a exaustão emocional continuam a crescer em diferentes faixas etárias e contextos profissionais. Quais são os principais sinais de alerta que não devem ser ignorados e que estratégias práticas recomenda para interromper esse ciclo antes que se transforme num problema de saúde mais grave?
O stress faz parte da vida e, em determinadas circunstâncias, pode até ser adaptativo. O problema surge quando deixa de ser uma resposta pontual e passa a tornar-se um estado permanente.
Entre os sinais de alerta mais frequentes encontram-se a sensação constante de cansaço, mesmo após períodos de descanso, alterações do sono, dificuldades de concentração, irritabilidade, ansiedade persistente, sensação de sobrecarga, e sintomas físicos como dores musculares e cefaleias.
Quanto mais cedo estes sinais forem reconhecidos, maiores são as possibilidades de prevenir consequências mais graves.
Do ponto de vista prático, é importante começar por avaliar realisticamente as exigências e os recursos disponíveis. Muitas pessoas habituaram-se a normalizar níveis de sobrecarga incompatíveis com uma vida saudável.
Estabelecer limites, aprender a dizer "não" quando necessário, organizar prioridades, reservar momentos de descanso, manter atividade física regular, cuidar da qualidade do sono, cultivar relações de apoio e criar espaços de recuperação emocional são estratégias fundamentais.
Também é importante desenvolver competências de autorregulação emocional, técnicas de respiração, mindfulness e gestão do tempo, sempre adaptadas às necessidades individuais.
Quando os sintomas persistem, interferem significativamente na vida diária ou provocam sofrimento intenso, torna-se essencial procurar apoio psicológico. Pedir ajuda não representa fragilidade, representa responsabilidade consigo próprio.

A inteligência emocional é hoje considerada uma das competências mais valorizadas, tanto na liderança como nas relações interpessoais. Que papel desempenham o mindfulness e a autorregulação emocional no desenvolvimento de líderes mais conscientes, equipas mais saudáveis e organizações mais humanas?
As organizações são constituídas por pessoas e, por isso, a qualidade das relações humanas influencia diretamente o desempenho, a inovação, a produtividade e o clima organizacional.
A inteligência emocional envolve a capacidade de reconhecer emoções, compreender o seu impacto, regula-las, comunicar eficazmente e estabelecer limites e relações de confiança.
O mindfulness contribui para este desenvolvimento ao fortalecer a atenção, a consciência e a capacidade de responder de forma menos impulsiva perante situações de elevada pressão. Um líder consciente escuta antes de reagir, procura compreender diferentes perspetivas e toma decisões mais ponderadas.
A autorregulação emocional permite gerir conflitos de forma construtiva, reduzir respostas defensivas e criar ambientes psicológicos mais seguros, onde as pessoas se sentem respeitadas e valorizadas.
Equipas que trabalham num contexto de segurança psicológica tendem a comunicar melhor, colaborar com maior eficácia, aprender com os erros e adaptar-se mais facilmente à mudança.
Organizações verdadeiramente humanas não ignoram os resultados nem a produtividade, compreendem, contudo, que o desempenho sustentável depende igualmente da saúde mental, do bem-estar e da qualidade das relações entre as pessoas. Investir no desenvolvimento destas competências representa um compromisso com o desenvolvimento e a saúde daqueles que integram as organizações.

Ao longo do seu percurso, tem acompanhado inúmeras pessoas em processos de transformação pessoal. Que padrões ou bloqueios emocionais identifica com maior frequência e que mudanças observa quando alguém aprende verdadeiramente a ouvir-se, a aceitar as suas emoções e a viver de forma mais consciente?
Apesar de cada pessoa possuir uma história única, existem alguns padrões que surgem com bastante frequência. Entre eles encontram-se o perfeccionismo, a autocrítica excessiva, o medo do fracasso, a necessidade constante de aprovação externa, a dificuldade em estabelecer limites, o sentimento persistente de culpa, a tendência para colocar sempre as necessidades dos outros em primeiro lugar e a dificuldade em reconhecer e expressar emoções.
Muitas pessoas vivem durante anos em piloto automático, respondendo às expectativas externas sem questionarem se essas escolhas continuam alinhadas com os seus valores e necessidades.
Quando alguém inicia um processo de autoconhecimento, começa frequentemente por desenvolver uma maior capacidade de observar os próprios pensamentos, emoções e comportamentos sem recorrer imediatamente ao julgamento ou à crítica.
Aceitar emoções não significa resignação nem passividade. Significa reconhecer que todas as emoções transportam informação importante e que podem ser acolhidas de forma saudável, sem que determinem automaticamente as nossas ações.
À medida que esta consciência cresce, observa-se frequentemente uma melhoria na autoestima, uma comunicação mais assertiva, relações interpessoais mais equilibradas, maior clareza na tomada de decisões e uma capacidade acrescida para lidar com situações de incerteza.
Talvez uma das mudanças mais significativas seja a passagem de uma vida guiada predominantemente por reações automáticas para uma vida orientada por escolhas conscientes. A pessoa deixa de viver apenas em função das circunstâncias e passa a assumir um papel mais ativo na construção do seu próprio percurso.
O crescimento pessoal não significa ausência de dificuldades, mas uma maior capacidade para enfrentá-las com equilíbrio, flexibilidade e autenticidade.

A Heal & Grow Elisabete Sousa reflete uma visão integrada do crescimento humano, integrando consultas, formação e eventos de desenvolvimento pessoal. Que mensagem gostaria de deixar a quem sente que vive constantemente em "piloto automático" e acredita que ainda não encontrou tempo para cuidar de si, mas deseja iniciar um caminho de maior equilíbrio, bem-estar e realização pessoal?
Vivemos numa cultura que valoriza a produtividade, a rapidez e a disponibilidade permanente. Muitas pessoas habituaram-se a acreditar que cuidar de si próprias é um luxo ou um sinal de egoísmo. Na realidade, cuidar de si é uma condição essencial para cuidar dos outros, trabalhar com qualidade e viver de forma mais plena.
Se sente que vive constantemente em piloto automático, talvez não precise de transformar toda a sua vida de um dia para o outro. Muitas vezes, a mudança começa com pequenos gestos consistentes: fazer uma pausa consciente durante alguns minutos, escutar o próprio corpo, reconhecer as próprias emoções, estabelecer um limite saudável, reservar tempo para descansar ou simplesmente perguntar a si mesmo: "Como estou verdadeiramente hoje?"
O desenvolvimento pessoal não consiste em procurar uma versão perfeita de nós próprios. Trata-se de desenvolver uma relação mais consciente, mais compassiva e mais autêntica connosco e com os outros.
Cada pessoa tem o seu próprio ritmo de crescimento, e não existe um caminho único. O importante é dar o primeiro passo com intenção, curiosidade e abertura para aprender.
Acredito profundamente que todos possuímos recursos internos para crescer e enfrentar os desafios da vida. Por vezes, esses recursos encontram-se apenas escondidos sob camadas de stress, medo, exigência ou hábitos automáticos. Quando criamos espaço para a consciência, para o autoconhecimento e para a aprendizagem, começamos a descobrir novas formas de viver com maior equilíbrio, significado e realização.
A minha marca nasce precisamente dessa convicção: a de que o crescimento humano acontece quando ciência, consciência e ação caminham lado a lado. Mais do que procurar mudanças rápidas ou soluções milagrosas, o objetivo é proporcionar experiências de aprendizagem que ajudem cada pessoa a desenvolver competências, fortalecer recursos internos e construir uma vida mais alinhada com os seus valores, promovendo o bem-estar psicológico, relações mais saudáveis e um desenvolvimento pessoal sustentável ao longo do tempo.




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