Saúde Mental: A Revolução Silenciosa que está a Mudar as Empresas
Durante anos, a Saúde Mental foi ignorada nas organizações. Hoje, tornou-se um dos maiores desafios — e simultaneamente uma das maiores vantagens competitivas — do mundo empresarial. Num mercado marcado por pressão constante, burnout, ansiedade e escassez de talento, as empresas começam a perceber que resultados sustentáveis dependem diretamente do bem-estar das pessoas.
Na entrevista à Business Voice, Filipa Palha, Presidente da ASM - Aliança Portuguesa para a Promoção da Saúde Mental no Local de Trabalho, deixa uma mensagem clara: investir em Saúde Mental já não é apenas uma questão de responsabilidade social, mas uma decisão estratégica com impacto real na produtividade, retenção de talento, cultura organizacional e crescimento das empresas.
“Mais do que uma medida de bem-estar, investir em Saúde Mental é hoje uma decisão estratégica com impacto direto nas pessoas, na cultura organizacional e nos resultados das empresas.”
Uma conversa que desafia líderes e organizações a repensarem o futuro do trabalho — de forma mais humana, consciente e sustentável.
O que motivou a criação da ASM e qual é hoje o seu principal desiderato?
A ASM – Aliança Portuguesa para a Promoção da Saúde Mental no Local de Trabalho foi criada em 2022, num contexto em que a COVID-19 expôs de forma evidente as fragilidades existentes na área da Saúde Mental e o impacto destas questões nas pessoas, organizações e sociedade.
A ASM surge com a missão de promover o diálogo e a cooperação entre entidades públicas, empresas, academia, profissionais de saúde e sociedade civil, contribuindo para mobilizar organizações para integrarem a Saúde Mental como uma prioridade estratégica.
Como evoluiu a forma como empresas e líderes encaram a Saúde Mental?
A evolução tem sido lenta face à urgência do tema e ao conhecimento acumulado ao longo dos anos. Apesar da maior visibilidade trazida pela pandemia, continua a faltar um compromisso contínuo, estratégico e sistemático na grande parte das organizações.
A pandemia de COVID-19 trouxe a Saúde Mental para o centro da discussão pública como nunca antes, mas terminado esse período mais crítico, muitas organizações voltaram a colocar o tema em segundo plano, frequentemente ultrapassado por outras prioridades económicas e operacionais.
O estigma continua a ser um dos maiores obstáculos. Os preconceitos e ideias negativas associados à saúde/doença mental levam muitas pessoas a viverem situações de sofrimento silencioso, com impacto significativo na sua vida pessoal e profissional.
Para além do estigma individual, persistem barreiras estruturais e culturais que limitam respostas adequadas. Ainda hoje, muitas pessoas encaram a Saúde Mental como um assunto exclusivamente pessoal, o que dificulta uma abordagem aberta, preventiva e integrada nas organizações.
Quais são os principais sinais de alerta de sofrimento psicológico?
Os sinais podem manifestar-se através de alterações no desempenho profissional, dificuldades de concentração, isolamento, menor participação nas equipas, irritabilidade, ansiedade, desmotivação ou absentismo mais frequente. Também podem surgir sinais físicos, como fadiga persistente e dificuldade em gerir o stress.
No entanto, muitas pessoas conseguem mascarar o sofrimento psicológico. Por isso, mais importante do que procurar sinais “óbvios” é promover culturas organizacionais assentes na confiança, proximidade e segurança psicológica.
Que impacto pode uma estratégia estruturada de promoção da Saúde Mental ter nas organizações?
O impacto é hoje amplamente demonstrado pela evidência científica. O recente relatório da OCDE “The Economic Case for Preventing Mental Ill Health” conclui que investir na promoção da Saúde Mental gera ganhos significativos em saúde, produtividade e desempenho económico.
A evidência demonstra que organizações que investem de forma estruturada nesta área conseguem reduzir custos associados ao absentismo, presenteísmo e rotatividade, ao mesmo tempo que aumentam o envolvimento, a motivação e a produtividade das equipas.
Nas organizações, isto traduz-se em equipas mais saudáveis e motivadas, maior capacidade de atrair e reter talento, melhoria do clima organizacional, reforço da confiança e da segurança psicológica e maior sustentabilidade organizacional.
Mais do que uma medida de bem-estar, investir em Saúde Mental é hoje uma decisão estratégica com impacto direto nas pessoas, na cultura organizacional e nos resultados das empresas.
Por onde devem começar as empresas?
O primeiro passo é existir um compromisso sério e consistente da liderança, reconhecendo a Saúde Mental como um investimento estratégico e não apenas como resposta a situações de crise.
Esse compromisso implica disponibilizar recursos concretos, nomeadamente tempo, envolvimento das lideranças e mobilização de pessoas-chave da organização, para desenvolver planos ajustados à cultura e maturidade de cada empresa.
É igualmente essencial ouvir as pessoas, compreender as necessidades reais das equipas e promover ambientes de confiança e segurança psicológica onde seja possível falar sobre estas questões sem receio de julgamento.
A formação de líderes, a definição de políticas claras e a integração da Saúde Mental nas práticas de gestão e liderança são passos fundamentais. Mais importante do que iniciativas muito ambiciosas é garantir continuidade, coerência e capacidade de implementação.
A subscrição da “Carta de Compromisso – Dar voz à Saúde Mental: Tempo de agir”, desenvolvida pela ASM em conjunto com diferentes parceiros, foi para muitas organizações um primeiro passo, e a oportunidade de identificarem e definirem objetivos concretos por onde começar.
Que medidas podem promover o equilíbrio entre vida profissional e pessoal?
Existe hoje conhecimento e orientação suficientes sobre a importância da conciliação entre vida profissional, pessoal e familiar. O desafio está na capacidade das organizações integrarem estes princípios de forma coerente na sua cultura e organização do trabalho.
Em Portugal, o Programa “3 em Linha” reforçou esta preocupação, identificando medidas como teletrabalho, horários flexíveis, limitação de reuniões, maior autonomia das equipas e formação de dirigentes em matérias de conciliação.
O desafio já não é saber “o que fazer”, mas transformar esse conhecimento em práticas consistentes e sustentadas.
Que mudanças são urgentes para garantir que a Saúde Mental seja uma prioridade real?
É urgente garantir que a Saúde Mental seja tratada com a mesma prioridade da saúde física nas políticas públicas, nas orientações de Segurança e Saúde no Trabalho e nas práticas organizacionais.
Sabemos que o estigma e a reduzida literacia em Saúde Mental continuam a ser grandes obstáculos. Por isso, será fundamental investir de forma consistente em iniciativas de sensibilização, formação e capacitação dirigidas a líderes, gestora/es e trabalhadora/es, promovendo culturas organizacionais onde seja possível falar sobre Saúde Mental sem medo de julgamento ou discriminação.
Ao nível empresarial, é essencial que a Saúde Mental deixe de ser encarada como uma resposta pontual a situações de crise e passe a integrar de forma estrutural as políticas de gestão de pessoas, liderança e organização do trabalho.
Num contexto marcado por mudanças constantes no mundo do trabalho, pressão económica e instabilidade social, o grande desafio será garantir continuidade, coerência e compromisso para que a Saúde Mental permaneça uma prioridade real e sustentada nas organizações.
Quais são os principais desafios futuros da ASM - Aliança Portuguesa para a Promoção da Saúde Mental no Local de Trabalho?
Os principais desafios futuros da ASM passam por garantir a sua sustentabilidade e continuidade enquanto organização sem fins lucrativos, algo que depende do reconhecimento, por parte das organizações e da sociedade, da importância da sua missão e do trabalho desenvolvido.
Outro desafio central é apoiar as organizações a dar o primeiro passo na integração da Saúde Mental no contexto laboral, acompanhando-as na definição de projetos realistas e ajustados à realidade e especificidades de cada uma.
Pretendemos, ainda, reforçar o papel agregador e mobilizador, mantendo a Saúde Mental presente na agenda pública e organizacional, contribuindo para a promoção de culturas de trabalho mais saudáveis, humanas e sustentáveis.
A ASM reconhece que esta é uma mudança cultural profunda, que exige tempo, persistência e compromisso coletivo. Assim, continuará focada em promover o diálogo entre diferentes stakeholders que contribua para a integração da Saúde Mental nas práticas e culturas organizacionais.