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“Falta Literacia Financeira, mas também existe inércia”

Em pleno 2026, os portugueses continuam a trabalhar mais para o dinheiro… do que o dinheiro trabalha para eles. Entre créditos acumulados, decisões tomadas “em piloto automático” e a ilusão de que poupar é suficiente para garantir estabilidade, há erros financeiros que se repetem geração após geração — silenciosos, normalizados e perigosamente dispendiosos. Mas afinal, porque continuamos a falhar na forma como gerimos o nosso património, o nosso futuro e até a nossa relação com o risco? Foi precisamente para desmontar alguns destes comportamentos e perceber onde os portugueses mais comprometem a sua saúde financeira que conversámos com José Gonçalves, Diretor Geral da SafeBrok Portugal, entidade parceira da Startup Leiria e especializada em gestão financeira e patrimonial 360º.

Em 2026, com inflação, crédito mais caro e maior instabilidade económica, quais continuam a ser os maiores erros financeiros cometidos pelos portugueses — e porque é que tantas famílias ainda vivem sem verdadeiro planeamento financeiro?
O maior erro continua a ser gerir o dinheiro de forma reativa. Muitas famílias só olham para as suas finanças quando surge um problema: uma prestação que aumenta, uma despesa inesperada, uma renovação de seguro ou uma decisão de investimento. O planeamento deve acontecer antes disso. Em Portugal ainda existe a ideia de que planear é apenas “fazer contas” ou poupar o que sobra no fim do mês. Para nós, é muito mais: é perceber rendimentos, encargos, créditos, seguros, objetivos e património como parte da mesma estratégia. Quando esta visão não existe, as famílias ficam mais expostas à inflação, ao aumento do custo do crédito e a decisões tomadas sob pressão. O planeamento financeiro não elimina a incerteza, mas dá método, prioridades e capacidade de antecipação.

Muitas pessoas continuam a pagar valores excessivos em seguros e crédito habitação sem sequer questionarem as condições que têm contratadas. Falta literacia financeira ou existe ainda uma grande resistência dos portugueses em rever e otimizar as suas finanças?
É uma combinação das duas coisas. Falta literacia financeira, mas também existe inércia. As pessoas habituam-se a pagar um crédito ou um seguro e deixam de questionar se aquelas condições continuam ajustadas à sua realidade. O problema é que a vida muda: mudam rendimentos, responsabilidades familiares, taxas de juro, valor dos imóveis e necessidades de proteção. Rever crédito habitação, seguros e orçamento familiar não é apenas tentar pagar menos; é garantir que cada decisão continua a fazer sentido. Na SafeBrok ajudamos os clientes a olhar para estas áreas de forma integrada, porque uma poupança numa prestação ou numa apólice pode libertar margem para investir, reforçar uma reserva, proteger melhor a família ou preparar objetivos de longo prazo. Pequenas otimizações, quando bem enquadradas, podem ter impacto relevante no equilíbrio financeiro. 

Depois de anos marcados pela subida das taxas de juro, de que forma é que isso alterou o comportamento financeiro das famílias portuguesas? Os portugueses estão hoje mais conscientes e preparados para gerir risco financeiro?
A subida das taxas de juro tornou o risco financeiro mais visível. Durante muito tempo, muitas famílias tomaram decisões assumindo que o crédito barato seria quase permanente. Quando as prestações aumentaram, percebeu-se a importância de ter margem, reserva financeira e uma estratégia de proteção. Hoje há mais consciência, mas isso não significa que todos estejam preparados. Vejo famílias mais atentas ao orçamento, ao crédito e à necessidade de diversificar poupanças, mas ainda com dificuldade em transformar essa preocupação em método. A diferença está em passar de uma gestão defensiva para uma gestão planeada, onde se antecipa o impacto de diferentes cenários antes de eles acontecerem. Gerir risco não é viver com medo - é saber que parte do rendimento deve estar protegida, que dívida faz sentido assumir e que património se quer construir. 

Durante muito tempo, investir era visto como algo distante ou reservado a quem tinha elevado património. Em 2026, sente que a relação dos portugueses com investimento, poupança e construção de património está finalmente a mudar?
Sim, está a mudar, embora ainda haja caminho a fazer. Durante anos, investir foi visto como algo complexo, distante ou reservado a quem tinha muito capital. Hoje há mais informação e maior perceção de que deixar dinheiro parado também tem custo, sobretudo com inflação. Mas investir não deve ser um impulso nem uma reação a uma taxa apelativa. Deve fazer parte de uma estratégia que começa pela poupança, passa pela reserva de emergência e evolui para soluções adequadas ao perfil, prazo e objetivos de cada pessoa. O essencial é democratizar o acesso ao aconselhamento, para que investir deixe de ser um ato isolado e passe a ser uma decisão consciente de construção de património. Mais importante do que começar com muito capital é começar com método, disciplina e uma visão clara do futuro. 

A SafeBrok Portugal acompanha milhares de clientes numa gestão financeira e patrimonial 360º. Quais são hoje as maiores preocupações das famílias portuguesas quando procuram apoio financeiro especializado?
As preocupações variam, mas há padrões claros. Muitas famílias chegam até nós porque sentem que trabalham, poupam, pagam créditos e seguros, mas não têm uma visão global do seu dinheiro. Querem saber se estão a pagar demasiado pelo crédito habitação, se os seguros estão adequados, se a poupança está parada, se devem investir, como preparar o futuro dos filhos ou a reforma e como proteger a família perante imprevistos. A nossa resposta passa por uma gestão financeira e patrimonial 360º: organizar liquidez, proteção, crédito, poupança e investimento numa estratégia coerente. O objetivo não é apresentar uma solução isolada, é ajudar cada cliente a tomar melhores decisões ao longo do tempo. Muitas vezes, o primeiro ganho está em dar clareza: perceber onde está o dinheiro, que riscos existem e que prioridades devem ser trabalhadas.

Num contexto económico cada vez mais imprevisível, qual considera ser o maior desafio financeiro das próximas gerações em Portugal — e o que deveria mudar urgentemente na forma como os portugueses gerem dinheiro, crédito e património?
O maior desafio será transformar rendimento em património num país onde muitas famílias vivem pressionadas pelo custo da habitação, impostos, inflação e instabilidade profissional. As novas gerações terão de planear mais cedo, comparar melhor, evitar crédito mal estruturado e perceber que poupança sem estratégia pode não ser suficiente. O que deveria mudar com urgência é a forma como falamos de dinheiro: menos tabu, mais educação financeira e mais acompanhamento. Gerir dinheiro não deve ser apenas reagir ao mês seguinte - deve ser construir segurança, liberdade e capacidade de escolha. Esse é, para mim, o verdadeiro papel do planeamento financeiro: ajudar as pessoas a tomar decisões mais conscientes hoje para terem mais margem amanhã. 

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