“A Confiança nasce justamente da Coragem de ocupar espaço”
Num mundo onde ainda se discute o lugar das mulheres na liderança, Agatha Arêas escolheu algo mais ambicioso: redefinir a experiência de liderar. Com um percurso de duas décadas ligado ao universo Rock in Rio — dos bastidores do marketing à vice-presidência de Learning Experience da Rock World — aprendeu que impacto não se mede apenas em números, mas na capacidade de inspirar pessoas, culturas e futuras gerações. Hoje, como Founder da Provoke Edutainment Club, continua a desafiar convenções através da criatividade, da emoção e da aprendizagem. Nesta entrevista à Business Voice, fala-nos de liderança feminina sem clichés — e talvez seja precisamente por isso que as suas palavras ficam connosco.
A criação da Provoke Edutainment Club marca um novo capítulo no seu percurso. O que a motivou a fundar este projeto, que lacuna identificou no mercado e quais são os principais fitos estratégicos da marca no cruzamento entre educação e entretenimento?
A Provoke nasceu da percepção de que os modelos tradicionais de aprendizagem já não conseguem competir pela atenção e pelo envolvimento das pessoas. Ao longo de muitos anos no universo do entretenimento, percebi que aprendemos mais profundamente quando estamos emocionalmente conectados à experiência.
A Provoke surge para ocupar esse espaço como um Leadership Experience Studio, criando experiências de aprendizagem para líderes e organizações na interseção entre comunicação, educação e entretenimento. Entre os projetos que desenvolvemos estão o Rock in Rio Academy, o Rock in Rio Innovation Week, o Humanorama e o The Town Learning Journey.
Num contexto em que a aprendizagem está a ser cada vez mais desafiada pela falta de engagement, de que forma a Provoke Edutainment Club pretende transformar a experiência educativa? Que impacto concreto ambiciona gerar nas pessoas e nas organizações?
Acredito que um dos maiores erros dos modelos tradicionais de educação, inclusive no contexto corporativo, foi tratar aprendizagem como simples transmissão de informação, quando aprender é um fenómeno emocional, social e relacional. Informação sem conexão dificilmente gera transformação.
Na Provoke, desenhamos experiências que estimulam participação, reflexão, colaboração e protagonismo. O impacto que procuramos gerar é muito concreto: culturas mais colaborativas, líderes mais conscientes e organizações mais preparadas para lidar com complexidade. No meu TEDx, falo justamente sobre isso: acredito que a colaboração é uma das competências mais estratégicas do futuro.
Depois de duas décadas ligada ao universo do Rock in Rio, incluindo 15 anos como diretora de marketing e 4 anos como Vice-Presidente de Learning Experience da Rock World, que aprendizagens-chave levaram à construção desta nova visão focada em “learning experience”? Que momentos foram determinantes nessa transição?
O Rock in Rio é uma grande escola de humanidade, cultura e comportamento coletivo. Trabalhar num festival global ensina-nos muito sobre emoção, narrativa e conexão entre pessoas. Foi ali que percebi que os momentos de maior impacto não eram necessariamente os mais grandiosos, mas os capazes de gerar significado e transformação humana.
Ainda como Diretora de Marketing, criei o Rock in Rio Academy, um live case study que abre as portas da Cidade do Rock para profissionais conhecerem o modelo de negócios, comunicação e operação do festival. Logo depois, criei o Rock in Rio Innovation Week, uma plataforma de debates sobre inovação humana.
Esses movimentos levaram-me a intraempreender a área de Educação da Rock World e assumir a Vice-Presidência de Learning Experience. Ao longo dos quatro anos da LExU, consolidámos o Academy no Brasil e em Portugal e lançámos projetos como o Humanorama e o The Town Learning Journey. Foi nesse período que percebi que queria dedicar a minha vida a repensar a forma como as pessoas aprendem, colaboram e lideram.
Ao longo da sua carreira na Rock World, esteve envolvida em projetos de grande escala e impacto global. Como é que essa experiência influenciou o seu estilo de liderança e a forma como hoje encara a gestão de equipas e projetos inovadores?
Aprendi que grandes resultados raramente são construídos individualmente. Projetos complexos exigem colaboração, confiança e capacidade de mobilizar pessoas em torno de um propósito comum.
Hoje, vejo liderança menos como controle e mais como construção de contexto. Liderar, para mim, é criar ambientes onde as pessoas conseguem contribuir na sua melhor potência. Isso exige comunicação clara, conexão estratégica e colaboração intencional - os pilares do método CO3 que desenvolvi ao longo da minha trajetória.
No âmbito do tema “Mulheres que Inspiram”, quais foram os maiores desafios que enfrentou enquanto mulher em posições de liderança num setor altamente competitivo? E que estratégias utilizou para os superar e afirmar a sua voz?
Durante grande parte da minha trajetória, nunca entrei numa sala pensando “sou uma mulher entre homens”. Sempre me senti muito respeitada pelas minhas ideias e pelos resultados que construí. Em vários momentos, inclusive, tive remuneração superior à de colegas homens em cargos equivalentes.
Isso não significa que determinados desafios não existissem. Em ambientes altamente competitivos, havia modelos de liderança muito associados à rigidez e à hiperdisponibilidade. Em alguns momentos, senti a pressão de equilibrar força e sensibilidade sem ser mal interpretada.
As minhas duas gravidezes exigiram algumas concessões profissionais temporárias, mas nunca me senti preterida. Assim que senti a família estruturada, voltei com ainda mais clareza sobre o impacto que queria construir. Talvez a maior aprendizagem tenha sido perceber que liderança não precisa ser construída a partir da dureza. É possível liderar com firmeza, humanidade, escuta e colaboração.
A liderança feminina tem vindo a ganhar cada vez mais visibilidade, mas ainda enfrenta obstáculos estruturais. Na sua perspetiva, o que ainda precisa de mudar nas organizações para promover uma verdadeira equidade de oportunidades?
Ainda precisamos evoluir muito na forma como avaliamos liderança e potencial. Muitas organizações continuam a premiar apenas performance individual e modelos excessivamente competitivos, ignorando competências relacionais fundamentais para o futuro.
A verdadeira equidade passa por rever culturas, critérios de promoção e modelos de poder. Como mãe de dois rapazes, acredito que essa transformação não passa apenas por fortalecer mulheres, mas também por educarmos homens mais conscientes, empáticos e preparados para construir relações mais equilibradas e colaborativas.
Enquanto líder e empreendedora, como define hoje o conceito de sucesso? Esse conceito evoluiu ao longo da sua carreira e de que forma se reflete nas suas escolhas atuais, nomeadamente com a Provoke Edutainment Club?
Sem dúvida evoluiu. Durante muitos anos, associei sucesso sobretudo a resultados, crescimento e reconhecimento profissional. Hoje, continuo a valorizar ambição, excelência e impacto, mas o sucesso ganhou uma dimensão muito mais humana e holística.
Para mim, sucesso é construir algo coerente com os meus valores, gerar transformação real nas pessoas e preservar relações importantes na minha vida. A Provoke reflete exatamente essa fase: um projeto autoral que materializa aquilo em que acredito e o legado que quero deixar no mundo.
Que conselho daria a jovens mulheres que ambicionam construir carreiras de impacto nas áreas da inovação, marketing ou educação? Que competências considera essenciais para liderar no futuro?
Diria para cultivarem curiosidade, coragem e repertório humano. O futuro exigirá menos respostas prontas e mais capacidade de aprender, colaborar e navegar complexidade.
As competências técnicas continuarão importantes, mas acredito que as grandes diferenças estarão nas human skills: comunicação, pensamento crítico, inteligência relacional e capacidade de construir confiança.
E, especialmente para as jovens mulheres, deixaria uma mensagem: não esperem sentir-se totalmente prontas para avançar. Muitas vezes, a confiança nasce justamente da coragem de ocupar espaço.