“Empoderamento Feminino? Falar só não chega, a Mudança requer Ação”
No Dia Internacional da Mulher, fala-se de direitos, conquistas e números. Mas raramente se fala do que não aparece nas estatísticas: a carga invisível, a au-tocrítica silenciosa, o peso das expectativas sociais que moldam — e tantas vezes limitam — o lugar da mulher na liderança e na sociedade.
Nesta entrevista, Beatriz Santos, Psicóloga Clínica, desafia a narrativa superficial do “empoderamento” e mergulha no que realmente sustenta — ou fragiliza — a presença feminina em posições de decisão. Porque liderar não é apenas ocupar um cargo; é enfrentar vieses internos e externos, negociar culpa, gerir múltiplos papéis e, ainda assim, manter autenticidade.
Com um olhar clínico, mas profundamente humano, Beatriz Santos convida-nos a repensar o papel da mulher para além do rótulo de “resiliente”. Fala de saúde mental, de autoconceito, de síndrome do impostor, de pressão social — e da necessidade urgente de criar culturas organizacionais que não apenas incluam mulheres, mas que as reconheçam como líderes integrais.
Neste Dia Internacional da Mulher, mais do que celebrar, esta conversa propõe reflexão. Porque igualdade não é apenas uma meta social — é também um processo psicológico. E talvez a verdadeira revolução comece dentro de cada mulher que decide ocupar o seu espaço sem pedir permissão.
O Dia Internacional da Mulher é frequentemente marcado por homenagens simbólicas. Na sua perspetiva, que debates estruturais sobre o papel da mulher continuam adiados — e como é que isso se reflete no campo da Psicologia e da saúde mental?
As conquistas das mulheres têm vindo a ser notórias ao longo dos tempos, mesmo assim, continuam a existir desigualdades significativas, nomeadamente nas áreas económica e laboral onde se fazem distinções de género, e os direitos das mulheres acabam por ser desvalorizados. É de extrema importância um contínuo foco e trabalho árduo na desconstrução de visões tradicionais, como preconceitos e estereótipos que limitam as oportunidades de evolução das mulheres na sociedade e minimizam a sua contribuição, neste sentido, a desigualdade de género é vista no campo da Psicologia como uma imposição de estigmas e barreiras ao pleno desenvolvimento da mulher, com uma influência prejudicial direta no seu bem-estar e qualidade de vida, comprometendo a sua saúde mental. De igual forma, a problemática de violência de género seria outro debate a ser considerado com atenção, cuidado e rigor, pois embora sendo um crime público, muitos aspetos continuam a ser negligenciados a nível social e jurídico.
Psicologia é um setor onde a presença feminina é dominante. Ainda assim, liderança, reconhecimento e tomada de decisão continuam, muitas vezes, desequilibrados. Como interpreta esta contradição?
Infelizmente, uma grande parte da nossa sociedade continua a vincular cargos de liderança e reconhecimento ao género masculino, vendo-o como um líder nato. Neste sentido, à medida que o nível hierárquico laboral aumenta, a presença da mulher acaba por ser diminuída e as suas capacidades postas em causa. Este estereótipo que teima em persistir, dificulta a trajetória, chegada e manutenção das mulheres em cargos de chefia, realidade que se vivencia em diversos setores laborais, incluindo na área da Psicologia.
Enquanto psicóloga, que padrões emocionais ou comportamentais observa com mais frequência nas mulheres que procuram ajuda psicológica, e de que forma esses padrões estão ligados às exigências sociais impostas ao género feminino?
É usual mulheres procurarem ajuda psicológica evidenciando padrões de baixa autoestima – medo de não serem suficientes para a realização de determinadas tarefas ou não serem aceites pelo outro – assim como padrões de perfecionismo e autossabotagem com comportamentos de dependência emocional e constante desconfiança, ou contrariamente, necessidade de resolverem tudo sozinhas ajudando os outros em tudo mas negligenciando as próprias necessidades. Estes padrões tendem a manifestar-se devido às exigências impostas pela sociedade, face a ideia que a mulher deve dar conta de tudo na esfera social, profissional e privada, atingir padrões perfeitos e ter uma postura profissional ambiciosa. A luta constante por atingir e encaixar nestes padrões sociais acaba por desenvolver a patologização na saúde mental das mulheres manifestando-se em ansiedade, depressão, burnout, perturbações alimentares, entre outras. Em casos extremos pode colocá-las em situações potencialmente perigosas.
As mulheres são frequentemente educadas para cuidar, acolher e sustentar emocionalmente os outros. Que impacto tem este papel na saúde mental das próprias mulheres, sobretudo das que trabalham em áreas de cuidado como a Psicologia?
Esta visão imposta pela sociedade de que a mulher deve ser a única responsável por estas tarefas, pode desencadear no género feminino a sensação de sobrecarga, gerando esgotamento físico e mental, com elevados índices de ansiedade, stress, e fadiga crónica. Esta sobrecarga leva as mulheres a experienciarem ciclos de exaustão, anulação pessoal e negligência com o próprio autocuidado, impactos que também se podem evidenciar em Psicólogas que trabalham exaustivamente no cuidado do outro. Deste modo, não só a saúde física e mental da profissional fica condicionada, como também se comprova uma diminuição da qualidade dos atendimentos.
Existe uma expectativa social de que as mulheres sejam resilientes, multifacetadas e emocionalmente disponíveis. Até que ponto essa narrativa contribui para sofrimento psicológico e emocional feminino?
Esta narrativa pode contribuir muito para o sofrimento psicológico e emocional das mulheres, em especial aquelas que se encontram já numa fase de sobrecarga significativa. Muitas mulheres, mesmo tendo a consciência que precisam de ajuda, não recorrem a ela por acreditarem que têm a “obrigação” de ser capazes de realizar todas as tarefas e estarem sempre disponíveis para o outro. Este tipo de ideias sociais, incutiu nas mulheres o sentimento de vergonha face ao pedido de auxílio e delegação de tarefas, colocando as suas vidas em situações de vulnerabilidade e fazendo com que estas desenvolvam uma visão pessimista da vida, por vezes chegando ao consultório já num estado limite de exaustão. Sermos prudentes com as nossas palavras e as ideias que queremos transmitir é crucial, pois estas podem ter um impacto significativo na realidade do outro.
Na prática clínica, sente que as mulheres chegam mais vezes ao consultório em estados de exaustão do que de prevenção? O que isso revela sobre a forma como a sociedade encara o autocuidado feminino?
A prevenção é raramente o motivo que as leva as mulheres a iniciarem o processo de terapia, muitas vezes por considerarem que estes preconceitos são normativos e que correspondem à realidade. As clientes acabam por não conseguir identificar inicialmente que estas ideias incutidas, são as causadoras das suas dificuldades e perda de qualidade de vida, tendendo a associar a exaustão a outras circunstâncias. Lamentavelmente, a sociedade encara o autocuidado feminino como um “luxo”, algo sem valor nem finalidade, mas certo é que o autocuidado é um pilar essencial para a saúde mental, bem-estar e qualidade de vida, devendo ser uma prioridade inegociável.
Como avalia a relação entre culpa, autocobrança e saúde mental nas mulheres, especialmente na conciliação entre carreira, maternidade, vida pessoal e expectativas externas?
Quando a mulher tende a experienciar dificuldades na gestão das áreas da sua vida, não indo ao encontro das expetativas externas, esta acaba por ser afetada pela culpa, avaliando as suas ações e a sua própria identidade como uma fraude. As expetativas externas, o contexto no qual a mulher se desenvolveu e as experiências de vida, são fatores que possuem influencia na forma de pensar, sentir e agir das mulheres, e o facto de não conseguirem abarcar todas as tarefas, e ser uma mulher multifacetada é para elas sinónimo de derrota. Como mulher e psicóloga acredito que a identidade e o valor das mulheres não se medem por aquilo que ela consegue ou não fazer ou atingir, independentemente do género. A nossa realidade é sermos diferentes em características e aptidões, e aspirarmos à igualdade de direitos e de deveres.
Apesar dos avanços na igualdade de género, persistem estigmas associados à mulher emocional, sensível ou vulnerável. De que forma estes estereótipos afetam a valorização profissional das mulheres no setor da Psicologia?
Tudo depende da interpretação desta visão. A sensibilidade é uma característica da personalidade que qualquer pessoa pode ter, e isso não é impedimento para exercer a profissão. Quando psicólogas iniciam o seu percurso na área, e se consideram mulheres sensíveis, as pessoas tendem a categorizar esta traço como uma desvantagem, mas isso não corresponde à realidade. A sensibilidade de um profissional de saúde mental pode fazer toda a diferença no processo terapêutico e no estabelecimento da relação terapêutica. Mulheres emotivas podem ser perfeitamente bem-sucedidas profissionalmente sem terem de renegar da sua essência.
Ser mulher e psicóloga implica, muitas vezes, ser automaticamente associada à empatia e à escuta. Na sua opinião, essa perceção reforça ou diminui o reconhecimento técnico e científico do trabalho desenvolvido?
Essa perceção reforça o reconhecimento técnico e científico da psicologia, assim como o trabalho exercido pelos profissionais da área. A empatia e a escuta ativa são características que todo profissional de saúde mental deve praticar para poder exercer de forma adequada as suas funções e assim ajudar o outro a sentir-se acolhido e seguro para partilhar as suas problemáticas.
Que desafios específicos ainda enfrentam as mulheres que ocupam ou aspiram a cargos de liderança no setor da saúde mental e da Psicologia?
O desafio de continuar a desconstruir as crenças que interligam a liderança unicamente com o género masculino, gerir barreiras internas que levam muitas psicólogas a duvidarem das suas próprias capacidades de liderança e promover a liderança empática – desconstrução da ideia que a liderança deve ser sinónimo de dominação ou risco.
No contexto organizacional e empresarial, considera que a saúde mental das mulheres é verdadeiramente integrada nas políticas internas ou continua a ser abordada apenas em datas simbólicas como o 8 de março?
Considero que a saúde mental da mulher ainda não é totalmente integrada na política internas de muitas organizações, sendo estas relembradas e novamente abordadas em datas específicas como o 8 de março. Embora as políticas de igualdade de género dentro das empresas tenha vindo a integrá-las cada vez mais, ainda existem disparidades salariais e sub-representação em cargos de liderança.
Se pudesse identificar uma mudança urgente — cultural, institucional ou educacional — que teria um impacto real na saúde mental das mulheres, qual seria e porquê?
Considero que a nível da saúde, seria relevante que o Sistema Nacional de Saúde (SNS) aumentasse o número de psicólogos nas instituições, esta mudança seria benéfica no sentido de prevenir a exaustão das profissionais de saúde mental, melhorando o seu bem-estar e qualidade de vida, assim como a qualidade dos atendimentos.
Num mundo onde o discurso do empoderamento feminino é amplamente utilizado, como distingue o empoderamento real — aquele que promove saúde mental e autonomia — do empoderamento superficial ou meramente simbólico?
O empoderamento feminino real, à diferença do empoderamento feminino superficial ou simbólico, requer um posicionamento e atitude por parte da mulher, um comportamento ativo na imposição de limites, e de investimento no autoconhecimento, autoestima e autocuidado. Falar só não chega, a mudança requer ação.