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“Arregacem as mangas e comecem já”

No Dia Internacional da Mulher, celebramos mais do que conquistas: celebramos impacto. E é nesse cruzamento entre conhecimento, propósito e ação que encontramos Manuela Pimenta, Diretora Técnica da Farmácia de São João e Fundadora e Presidente da Associação Hemato Pa Bô — um projeto educativo sem fins lucrativos que tem vindo a empoderar a Medicina Laboratorial na CPLP, criando pontes onde antes havia distâncias.
Nesta entrevista, falamos de liderança no feminino, de inovação em saúde, de responsabilidade social e da urgência de investir na Medicina Laboratorial como pilar estruturante dos cuidados de saúde. Porque celebrar o Dia Internacional da Mulher é também dar palco às mulheres que constroem futuro — com rigor, coragem e propósito.

A sua liderança nasce entre a ciência e a causa. O que é mais desafiante: gerir o dia a dia ou construir pontes de saúde entre Portugal e a Guiné-Bissau?
Quando se ama o que se faz, não há desafios maiores ou menores. Há missão. Para que serve a ciência se não toca a vida?
A ciência sem propósito é fria e vazia. O farmacêutico não pode ficar fechado no balcão ou no laboratório. Tem de estar na comunidade. Aqui e além-fronteiras.
As minhas preocupações, em Ponte de Lima ou na Guiné-Bissau, são as mesmas: prevenir, educar e garantir que os cuidados chegam a todos. Aprendi com o meu pai que a saúde é um direito universal, não um privilégio geográfico.
Com paixão e uma boa equipa, os desafios deixam de nos paralisar. Tornam-se caminho. E é nesse caminho que a ciência encontra o seu sentido. E nós também encontramos o nosso.

A Associação Hemato Pa Bô surgiu inspirada pelo seu pai. Que legado emocional e ético transporta consigo quando decide transformar memória em missão?
A nossa Associação nasceu de uma paixão por África e como homenagem ao meu pai, o Dr. Manuel Pimenta.
Trabalhamos na capacitação de profissionais de saúde na Guiné-Bissau, no reforço do diagnóstico e na diminuição da mortalidade materno-infantil. Sem diagnóstico não há tratamento. E sem formação não há melhoria. Damos formação a médicos e profissionais de laboratório. A decisão clínica e o resultado laboratorial têm de caminhar de lado a lado.
Não levamos só material. Levamos conhecimento e fortalecemos a autonomia local. É assim que honramos o legado que nos foi transmitido. O meu pai já não está presente fisicamente, mas o impacto do que fez continua vivo. “Pimenta ka murri”, dizem na Guiné-Bissau - o Pimenta não morreu. E não. Para nós, não.

Num setor historicamente técnico e exigente, o que significa, para si, ser mulher em posições de decisão na área da saúde?
Num setor historicamente técnico e exigente, ser mulher em posições de decisão significa não separar a competência da humanidade.
Estou habituada a desafios exigentes: ser mãe, liderar missões em África, cofundar uma associação, trabalhar na área da saúde.
Ser farmacêutica sempre foi muito mais do que uma profissão, é uma forma de estar na vida. Ser humanitária também.
Onde muitos veem apenas dados, resultados e protocolos, eu vejo pessoas. 
A ciência deve ser rigorosa, mas acima de tudo humana. E nisso, as mulheres fazem a diferença.

Se tivesse de escolher uma palavra que defina a mulher que lidera com propósito social, qual seria — e porquê?
Escolhia a palavra humanista. Ser humanista é diferente de fazer caridade pontual ou participar numa missão humanitária. O humanismo não tem horário nem calendário. É uma forma de estar permanente, cá e lá. Um humanista nunca pendura o colete. Está sempre alerta às desigualdades. Pergunto muitas vezes: o que posso fazer com as competências que tenho?

A formação de técnicos de saúde na Guiné-Bissau é um investimento no futuro. Acredita que as mulheres têm hoje um papel diferenciador na construção de sistemas de saúde mais humanos e sustentáveis?
Acredito plenamente. As nossas equipas são maioritariamente femininas.
O meu pai admirava profundamente a força e a competência das mulheres na gestão da casa, da família e do trabalho. Dizia muitas vezes que têm uma capacidade rara de cuidar sem perder firmeza e de resistir quando tudo está a desmoronar.
Na Guiné-Bissau, são as mulheres que sustentam as famílias e que são a verdadeira força motriz das comunidades. Com elas aprendi uma competência essencial para liderar: a resiliência. Salvar uma mãe é proteger uma família inteira. Formar uma mulher na área da saúde é fortalecer uma rede que se multiplica.
Investir na formação e na saúde das mulheres é investir na estabilidade e na sustentabilidade de um país. Elas são a trave-mestra de tudo.

Neste Dia Internacional da Mulher, que mensagem deixa às mulheres que querem liderar, empreender ou criar impacto social, mas ainda hesitam em dar o primeiro passo?
Não esperem o momento ideal. Não esperem que os filhos cresçam. Não esperem pela próxima estação. O maior arrependimento que tenho é o tempo que perdi. O tempo é inexorável. Arregacem as mangas e comecem já. O caminho faz-se caminhando, e o momento certo somos nós que o construímos. Comecem hoje. Nem que já sejam horas de preparar o jantar.
Enquanto houver vida, há missão.




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