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“É importante falar sobre Saúde Mental com rigor”

Num mundo que nunca desacelera, parar para cuidar da mente tornou-se um ato de coragem. Na entrevista com Beatriz Santos, Psicóloga, mergulhamos num tema cada vez mais urgente: a saúde mental. Entre desafios invisíveis e a pressão do quotidiano, abre-se espaço para uma reflexão honesta sobre emoções, limites e a importância de nos escutarmos. Um olhar direto e necessário que nos lembra que o verdadeiro equilíbrio começa dentro de nós.

Durante muitos anos, falar de saúde mental era quase sinónimo de fragilidade. Apesar de hoje existir mais abertura, porque é que ainda custa tanto admitir que precisamos de ajuda psicológica? O estigma está realmente a desaparecer ou apenas se tornou mais subtil?
O estigma não desapareceu, arrisco-me a dizer que este evoluiu manifestando-se de uma forma disfarçada através da invalidação e julgamentos implícitos, realidade que ainda condiciona muitas pessoas a procurarem ajuda psicológica. Embora exista uma maior abertura para falar sobre saúde mental, “fala” sem apoiar verdadeiramente a causa com postura e atitude, é meramente uma aceitação superficial.

Vivemos numa sociedade que valoriza produtividade, sucesso e rapidez. Até que ponto este modelo de vida pode estar a contribuir para o aumento do sofrimento psicológico?
A produtividade constante e o sucesso imediato têm um impacto significativamente negativo para a saúde mental. A pressão constante por produtividade tende a negligenciar necessidades básicas do ser humano como o descanso, pode fomentar o sentimento de culpa e também contribuir para a sensação de nunca ser suficiente para a realização de tarefas, podendo deste modo gerar ansiedade de desempenho e a possibilidade de desenvolver patologias como o burnout. No que refere ao sucesso imediato, este pende para o desenvolvimento de constantes comparações de vida, podendo levar à sensação de atraso na própria existência, tendo isto um impacto prejudicial na autoestima com possível agravamento do quadro clínico para desenvolvimento de patologias como a ansiedade, depressão, entre outras.

Há quem diga que a sociedade atual está mais sensível e que “tudo é saúde mental”. Outros defendem que só agora estamos a reconhecer problemas que sempre existiram. Como olha para este debate?
Face a este debate acredito que o mais sensato é não cairmos em extremos, não devemos desvalorizar nem patologizar tudo, devemos sim, acolher e ajudar o outro sempre que este manifestar dificuldades com as quais não consegue lidar ou gerir, independentemente da sua natureza. Durante muito tempo a saúde mental foi tratada como um tabu reprimida ao silêncio e à vergonha, o que fez com que muitas pessoas sofressem sem apoio e sem ter conhecimento e consciência das suas dificuldades, é importante termos estes factos presentes e não desvalorizarmos nem banalizarmos o sofrimento do outro.

Muitas pessoas só procuram apoio psicológico quando já se encontram num ponto de grande desgaste emocional. Porque continuamos a olhar para a psicologia como último recurso, em vez de prevenção?
São múltiplos os fatores que podem levar as pessoas a não procurarem ajuda psicológica de uma forma precoce; a falta de literacia em reconhecer sinais de alerta normalizando a sintomatologia, categorização do pedido de ajuda como um sinal de fraqueza - estigma ainda ativo na nossa sociedade, ilusão de controlo, tendência para classificar a prevenção como “não urgente” agindo unicamente após o aparecimento do problema e não no cuidado para prevenir o seu desenvolvimento, entre outras.

As redes sociais criaram novos espaços de expressão emocional, mas também amplificam comparação, pressão e idealizações. Na sua perspetiva, estão a aproximar-nos ou a afastar-nos de uma saúde mental mais equilibrada?
As redes socias podem tanto aproximar-nos como afastar-nos de uma saúde mental mais equilibrada. Creio que o problema não está nas redes sociais, mas sim na relação que temos com elas, a forma como as utilizamos e os conteúdos que consumimos. Estas podem ser benéficas para o acesso à literacia, normalização em falar de saúde mental, terapia, emoções, vulnerabilidades, entre outras, e serem prejudiciais se as utilizarmos para comparação, idealização de vidas perfeitas, validação externa ou consumo de conteúdos superficiais. A solução não é deixarmos de utilizar as redes sociais, mas sim aprender a utilizá-las sem que definam o nosso valor ou estado mental.

Ainda existem muitos mitos associados à terapia — desde a ideia de que é “só para quem tem problemas graves” até ao receio de julgamento. Quais são os equívocos mais comuns que encontra na sua prática?
Na minha prática clínica pude perceber que ainda está muito enraizada a ideia de que recorrer ao apoio psicológico deve ser feito unicamente quando existe uma problemática grave que visa de intervenção. Esta perceção tende a coexistir com outros receios como por exemplo o de ser julgado(a) pelo psicólogo(a) e ter a ideia que “falar” não vai resolver o problema em questão. Certo é que o apoio psicológico, não ajuda unicamente na gestão de problemas mais gravosos, mas também atua de forma a prevenir os mesmos e trabalha outras áreas como o autoconhecimento, gestão de relações, entre outras. Eticamente, a atuação de um psicólogo(a) baseia-se na escuta ativa sem julgamento e confidencialidade, utilizando uma estrutura de avaliação e intervenção para o desenvolvimento de estratégias concretas. Não há lugar para julgamentos dentro da terapia, esta é cuidadosamente direcionada com um propósito específico.

Fala-se cada vez mais de saúde mental no espaço público, nas empresas e nos media. Considera que estamos perante uma mudança cultural genuína ou existe o risco de o tema ser tratado de forma superficial ou até banalizada?
Ambas as coisas coexistem, há uma evolução genuína onde falar sobre saúde mental deixou de ser um tabu e começou a ser reconhecido o impacto que esta tem no desempenho e bem-estar da população, o que contribuiu para um aumento da procura de apoio psicológico. Embora a consciência e abertura sejam maiores, existe uma menor profundidade de conhecimento sobre determinados conceitos, sendo estes desvalorizados e consequentemente prejudiciais para a população. É importante falar sobre saúde mental com rigor fazendo corresponder discurso e prática.

Se pudesse lançar um desafio à sociedade para transformar a forma como olhamos para a saúde mental nos próximos anos, qual seria o primeiro passo que deveríamos dar enquanto comunidade?
Deixar de ver o cuidado psicológico como algo que só deve existir quando se tem um problema, é fundamental que este seja visto como uma prática contínua de crescimento e manutenção. Aumento não só da consciência, mas também de transformação de hábitos coletivos.

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