“A Psicologia está hoje mais comprometida com Prevenção, Intervenção e Literacia em Saúde Mental”
Há uma mudança silenciosa — mas profundamente transformadora — a acontecer na forma como olhamos para a saúde mental. Durante décadas, foi remetida para os bastidores da sociedade: um tema sussurrado, associado à fragilidade, à crise ou, no limite, ao tabu. Hoje, começa finalmente a ocupar o espaço que sempre lhe pertenceu — o centro da vida humana.
Mas esta transição não é apenas cultural; é estrutural, emocional e até identitária. Obriga-nos a rever a forma como trabalhamos, como educamos, como lideramos e, sobretudo, como existimos. Falar de saúde mental já não é falar de exceções — é falar de todos. É reconhecer que o equilíbrio psicológico não é um luxo nem uma resposta a momentos extremos, mas sim uma base contínua, dinâmica e essencial do bem-estar. É neste contexto que surge esta conversa profunda, provocadora e absolutamente necessária com Laura Alho — Diretora Clínica da Think Wise®, Psicóloga Clínica e Forense, Docente Universitária e Autora. Ao longo desta grande entrevista, desmontam-se preconceitos, questionam-se modelos instalados e abrem-se caminhos para uma nova forma de pensar — mais consciente, mais integrada e mais humana. “A mudança essencial é deixar de olhar para a saúde mental como exceção e passar a encará-la como parte integrante da vida e da saúde. Não é um tema de crise, nem de fragilidade; é uma dimensão básica do bem-estar humano.”
Mais do que uma afirmação, esta é uma provocação. E talvez também um convite — a repensar tudo aquilo que julgávamos saber sobre nós próprios.
Nos últimos anos, a saúde mental passou a ocupar mais espaço no debate público. Ainda assim, sente que continuamos a falar dela apenas quando surge uma crise? O que ainda falta para que seja encarada como parte natural da saúde global?
Sim. Ainda falamos demasiado de saúde mental em modo de urgência, e isso mostra que continuamos a encará-la mais como uma reação à crise do que como dimensão regular da saúde. O que falta, na minha opinião profissional, é normalizá-la no quotidiano em todos os setores: na educação, no trabalho, nas famílias e nas políticas públicas. Saúde mental não é apenas ausência de doença; é também equilíbrio, adaptação, relação e capacidade de viver com qualidade. Enquanto houver estigma, pouca literacia emocional e acesso tardio aos cuidados, continuaremos a chegar tarde ao problema.
Apesar de maior consciencialização, o estigma associado às perturbações psicológicas continua presente. Na sua experiência clínica, quais são os preconceitos mais comuns que ainda impedem muitas pessoas de procurar ajuda?
Os preconceitos mais comuns ainda passam pela ideia de que pedir ajuda é sinal de fraqueza, de que o sofrimento psicológico se resolve apenas com força de vontade, ou de que só “casos graves” justificam acompanhamento. Muitas pessoas também receiam ser vistas como menos competentes, instáveis ou incapazes por procurarem psicoterapia. E a este respeito devo sinalizar que os próprios profissionais de saúde mental nas sus redes sociais acabam por reforçar, muitas vezes sem intenção, a ideia de que as pessoas só devem procurar ajuda em casos de ansiedade, problemas relacionais, depressão, misturando as suas vidas pessoais com as suas profissões. Isto não só viola princípios fundamentais, como fomenta e mantém a desinformação. Considero que os profissionais devem escolher entre serem psicólogos e psicoterapeutas ou influenciadores digitais. A promoção de conteúdos que excedem os limites profissionais não é, de todo, um contributo social para a desestigmatização e eliminação de preconceitos na saúde mental. A meu ver, seriam necessárias uma regulação de conteúdos mais eficiente e uma consciencialização maior dos próprios profissionais à responsabilidade profissional que lhes é imputada.
Não obstante, considero que a psicoeducação rigorosa e informada é uma aliada de peso na promoção de informação fidedigna. Os estigmas continuam a adiar pedidos de ajuda e, muitas vezes, agravam o sofrimento. Procurar apoio não é falhar; é, muitas vezes, um ato de consciência, responsabilidade e cuidado consigo próprio.
Muitas pessoas continuam a associar a ida ao psicólogo apenas a momentos de sofrimento intenso. Como podemos mudar esta visão e promover a psicologia também como ferramenta de prevenção e desenvolvimento pessoal?
Podemos começar por mudar a narrativa: ir ao psicólogo não deve ser visto apenas como resposta à dor, mas também como investimento em autoconhecimento, regulação emocional e qualidade de vida. Tal como cuidamos do corpo antes da doença se instalar, também a saúde psicológica deve ser acompanhada de forma preventiva.
Promover esta visão implica mais literacia em saúde mental, contacto mais natural com a psicologia em escolas, universidades e contextos de trabalho, e um discurso público que mostre que procurar apoio não é sinal de fragilidade, mas de maturidade e prevenção. Além, claro está, de um trabalho rigoroso por parte dos profissionais nos contextos em que atuam.
Vivemos numa sociedade cada vez mais acelerada, marcada por pressão profissional, excesso de informação e exigências constantes. Que impacto têm estes fatores na saúde mental da população?
A meu ver, têm um impacto profundo. A aceleração constante, a pressão para corresponder e o excesso de estímulos favorecem a ansiedade, a exaustão, a dificuldade de concentração e uma maior vulnerabilidade ao burnout, por exemplo. O problema é que se vai normalizando um modo de vida emocionalmente insustentável e isso tem consequências. Quando o descanso, o silêncio e os limites deixam de ter lugar, a saúde mental acaba por pagar o preço. É necessário que as pessoas estejam atentas a sinais precoces e não arrastem o problema até se tornar patológico.
No caso das crianças e adolescentes, quais são hoje os principais desafios psicológicos que observa? A escola e as famílias estão preparadas para lidar com estas questões?
Na minha prática aquilo que observo hoje é mais ansiedade, dificuldades de regulação emocional, problemas de autoestima, isolamento e grande pressão social e académica. A tudo isto somam-se os efeitos da exposição precoce e intensa ao digital, que muitas vezes amplifica comparação, impulsividade e vulnerabilidade emocional, trazendo inúmeros desafios.
Escola e famílias estão mais atentas do que no passado, mas nem sempre estão preparadas para dar respostas efetivamente eficientes. Ainda falta tempo, formação e ferramentas para reconhecer sinais precoces e responder de forma consistente, sem desvalorizar nem dramatizar. Em boa verdade, para educarmos e prepararmos crianças emocional e mentalmente saudáveis, os adultos têm que fazer a sua parte.
De que forma os pais podem desenvolver uma maior literacia emocional dentro de casa, ajudando os filhos a reconhecer, compreender e gerir as suas emoções desde cedo?
Os pais desenvolvem literacia emocional quando, por exemplo, dão nome às emoções, quando validam o que a criança sente e ensinam que sentir não é o problema - o importante é saber lidar com aquilo que se sente. Isso começa em gestos simples como escutar sem julgamento, ajudar a pôr em palavras o que se está a sentir e dar o exemplo na forma como os próprios adultos regulam frustração, medo ou irritação. Aqui, atrevo-me a dizer, é a enorme dificuldade: quando os adultos não se sabem autorregular, não vão passar naturalmente um bom exemplo para os filhos. Mais do que discursos, as crianças aprendem na relação e com exemplos concretos. Uma casa emocionalmente segura não elimina emoções difíceis, mas torna-as compreensíveis, toleráveis e conversáveis. E ditados como “olha para o que eu digo e não olhes para o que eu faço” são perigosos e, por isso, proibidos. O adulto deve ter a responsabilidade de procurar ajuda para as suas dificuldades, para saber educar melhor.
Entre os adultos, existe frequentemente uma tendência para ignorar sinais de desgaste emocional até ao limite. Quais são os sinais de alerta que não devem ser desvalorizados?
Há sinais que não devem ser normalizados, como o cansaço persistente, irritabilidade, ansiedade frequente, alterações no sono, dificuldade de concentração, sensação de sobrecarga constante e perda de prazer no dia a dia. Quando a pessoa começa a funcionar em “piloto automático” e deixa de se reconhecer, é importante parar e escutar esses sinais. O problema é que muitos destes indicadores são vistos como “normais” numa vida exigente. Mas quando o mal-estar se prolonga ou interfere nas relações, no trabalho ou na capacidade de recuperar, já não deve ser desvalorizado. O corpo dá sinais e nós precisamos de aprender a ouvi-los e a procurar a ajuda necessária.
A pandemia trouxe uma nova visibilidade às questões de saúde mental. Considera que esse momento gerou mudanças duradouras na forma como a sociedade olha para o tema?
A pandemia tornou o sofrimento psicológico mais visível e ajudou a legitimar socialmente temas como ansiedade, luto, solidão e exaustão. Nesse sentido, houve uma mudança importante que passa por falar-se mais e com menos resistência. Ainda assim, nem toda essa visibilidade se traduziu em mudanças estruturais. Houve avanço no discurso, mas persistem estigmas, banalização e respostas insuficientes. Ou seja, a pandemia abriu espaço para a conversa, mas falta consolidá-la em cultura de prevenção e cuidado continuado.
No contexto profissional, fala-se cada vez mais de burnout, ansiedade e equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. Que responsabilidade devem ter as empresas na promoção da saúde mental dos seus colaboradores?
As empresas têm uma responsabilidade real, porque a saúde mental no trabalho não depende apenas da resiliência individual, mas também das condições organizacionais. Não basta falar de bem-estar; é preciso prevenir culturas de sobrecarga, pressão crónica e indisponibilidade permanente. Promover a saúde mental implica uma liderança mais consciente, cargas de trabalho ajustadas, limites claros e ambientes onde pedir apoio não seja visto como fragilidade, mas como parte de uma cultura saudável.
A psicologia também tem evoluído muito, quer nas abordagens terapêuticas, quer na forma de comunicar com a sociedade. Que mudanças considera mais relevantes nesta área nos últimos anos?
Uma das mudanças mais relevantes foi a aproximação da psicologia à vida real das pessoas, ou seja, hoje comunica-se de forma mais clara, mais acessível e menos fechada sobre si própria. Isso ajudou a combater estigmas e a tornar o apoio psicológico mais reconhecido socialmente. Ao mesmo tempo, houve uma valorização crescente de abordagens baseadas na evidência, mais adaptadas às necessidades concretas de cada pessoa. A psicologia está hoje mais informada, mais próxima e, idealmente, mais comprometida com prevenção, intervenção e literacia em saúde mental.
Se tivesse de identificar uma mudança essencial que a sociedade precisa de fazer na forma como encara a saúde mental, qual seria?
A mudança essencial é deixar de olhar para a saúde mental como exceção e passar a encará-la como parte integrante da vida e da saúde. Não é um tema de crise, nem de fragilidade; é uma dimensão básica do bem-estar humano. Enquanto a tratarmos como algo secundário ou vergonhoso, continuaremos a agir tarde. O verdadeiro avanço acontece quando cuidar da saúde mental se torna tão natural como cuidar da saúde física (incluindo a mudança de visão obsoleta de muitos especialistas da medicina, que também encaram a psicologia como algo secundário). A mudança tem de começar a ocorrer na mentalidade. Cada especialidade tem o seu propósito e ninguém está aqui para fazer o trabalho que não lhe compete, mas sim, para trabalhar integrativamente a favor do cliente/ paciente.
Para terminar, que mensagem gostaria de deixar a quem ainda hesita em procurar apoio psicológico, mesmo sentindo que algo não está bem?
Não é preciso tocar no fundo para legitimar a dor. Adiar ajuda não torna ninguém mais forte, apenas prolonga o sofrimento. Procurar apoio psicológico é, muitas vezes, o momento em que a pessoa deixa de sobreviver em silêncio e começa, finalmente, a cuidar de si. Se não souber por onde começar recomendo que consulte o livro “Segura as pontas”, escrito por mim, no âmbito de uma série de autodesenvolvimento que criei para a ajudar as pessoas a identificarem os estigmas que possam ter, a entenderem o que é a psicoterapia, quais as principais abordagens terapêuticas, para que serve, quais os benefícios, qual a importância de uma boa relação terapêutica, como procurar o profissional “certo”, entre outras.
Muito do meu trabalho passa pela psicoeducação – para que as barreiras que ainda existem, possam ser diluídas e dar espaço à curiosidade, à informação e à ação ponderada.