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“Precisamos de normalizar o Cuidado Cerebral como normalizamos o Cuidado Físico”

Há vozes que descrevem a mente. Outras que a tratam. E há, raras, aquelas que a reconfiguram — que recusam os limites tradicionais entre especialidades, que desafiam paradigmas instalados e que, sobretudo, devolvem ao ser humano a complexidade que durante décadas lhe foi simplificada em diagnósticos e prescrições. José Padrão Mendes pertence a essa última categoria.
Fundador e Diretor Clínico da NeuroPsyque, é hoje uma das personalidades mais disruptivas no panorama da saúde mental em Portugal. A sua trajetória não cabe em rótulos convencionais: Neurologista, Neuropsiquiatra, Intensivista em Cuidados Neurocríticos — mas, acima de tudo, um pensador clínico que decidiu questionar a forma como compreendemos o cérebro e a mente.
Foi no cruzamento entre a urgência dos cuidados intensivos e a profundidade das neurociências que moldou a sua visão. Ao longo dos anos, explorou a Neurologia, a Psiquiatria e a Psicologia como dimensões inseparáveis de uma mesma realidade, recusando abordagens fragmentadas. Essa experiência, vivida no limite entre vida, consciência e recuperação, levou-o a uma conclusão clara: tratar sintomas não é suficiente — é necessário compreender sistemas. A NeuroPsyque nasce precisamente dessa inquietação.
Mais do que uma clínica, é um conceito em evolução. Um espaço onde a medicina deixa de ser reativa para se tornar interpretativa, integrativa e, em muitos casos, regenerativa. Aqui, a prioridade não é apenas aliviar o sofrimento, mas reprogramar padrões — muitas vezes sem recorrer à medicação como primeira linha de intervenção.
A sua abordagem clínica reflete um percurso internacional singular. Alemanha, Espanha, Brasil, Irlanda e Portugal não foram apenas geografias, mas laboratórios de aprendizagem. Em cada país, em cada especialidade — da Medicina do Sono à Neuropsicologia, da Psiquiatria Integrativa à Funcional — foi consolidando uma visão que hoje se afirma como uma das mais completas e contemporâneas: a mente e o corpo não dialogam — são o mesmo sistema.
É esta perspetiva que posiciona José Padrão Mendes como personalidade de capa desta edição da Business Voice dedicada à Saúde Mental. Num tempo em que o mundo enfrenta uma crise silenciosa — marcada por ansiedade, burnout, depressão e desregulação emocional — a sua voz surge como um contraponto necessário. Não alarmista, mas profundamente transformador. Não simplista, mas acessível. Não convencional, mas rigorosamente fundamentado.
Nesta entrevista, convida-nos a repensar tudo: o que significa estar saudável, o papel da medicação, a influência do estilo de vida no cérebro e, sobretudo, a responsabilidade individual e coletiva na construção do equilíbrio mental. Porque, no final, talvez a maior disrupção não seja tecnológica nem farmacológica. Seja, simplesmente, voltar a olhar para o ser humano como um todo.


A NeuroPsyque aposta numa medicina integrada e personalizada. Num sistema ainda fragmentado, quais têm sido os maiores desafios — e também as maiores evidências de sucesso?
O maior desafio tem sido mostrar que o cérebro não se trata por partes. Uma criança com PHDA não precisa apenas de um diagnóstico. Um adulto com perda de memória não precisa apenas de um exame. Uma família com um filho no espectro não precisa apenas de respostas — precisa de orientação, estrutura e esperança.
Na NeuroPsyque seguimos um dos nossos princípios fundadores: “O cérebro não é um órgão isolado — é um ecossistema.”
Quando integramos neurologia, psiquiatria, psicologia, neuropsicologia, PNEI, nutrição e tecnologias de neuromodulação, criamos algo raro: um espaço onde cada pessoa é vista na sua totalidade.
As maiores evidências de sucesso surgem quando vemos crianças ganhar foco, jovens recuperar autoestima, adultos reencontrar clareza e idosos recuperar autonomia. É por isso que repetimos tantas vezes: “A performance — e a saúde — nascem da biologia bem regulada”.

A saúde mental continua a ser reativa. O que precisa mudar para que seja preventiva?
Precisamos de começar mais cedo. A prevenção não é apenas para executivos — é para crianças que lutam com atenção, jovens que se sentem perdidos, adultos que vivem em piloto automático e idosos que começam a notar falhas de memória.
Hoje conseguimos identificar riscos antes de surgirem sintomas. A IA permite mapear padrões de atenção, memória e velocidade de processamento. A neuropsicologia permite compreender como cada cérebro aprende, reage e se adapta.
E seguimos sempre um dos nossos mantras: “Estamos a usar o cérebro como um músculo de alta performance… ou como um recurso descartável?”

Num mundo hiperconectado, estamos mais informados ou mais ansiosos?
Estamos mais estimulados, mas menos regulados. As crianças crescem com estímulos rápidos, feedback instantâneo e baixa tolerância à frustração. Os adultos vivem em multitarefa permanente. Os idosos enfrentam um mundo que muda mais depressa do que a memória consegue acompanhar.
É por isso que repetimos tantas vezes: “Nunca na história humana o cérebro esteve tão solicitado — e tão vulnerável.”
A tecnologia pode ser um problema — ou pode ser uma solução. Depende de como a usamos.

A medicalização excessiva está a substituir a compreensão profunda da mente humana?
Sim, e isso preocupa-me. Muitas crianças recebem medicação antes de receberem compreensão. Muitos adultos recebem comprimidos antes de receberem explicações. Muitos idosos recebem diagnósticos antes de receberem esperança.
Na NeuroPsyque seguimos um princípio simples: “A tecnologia é o nosso telescópio, mas o olhar é humano.”
Usamos medicação quando é necessária — mas nunca como primeira resposta. Preferimos começar pela biologia, pelo comportamento, pela relação, pela neuroplasticidade e pela educação.

Tecnologias como TMS e Neurofeedback representam o futuro ou ainda enfrentam resistência?
Representam o futuro — e já são o presente. A TMS ajuda adultos com depressão resistente e burnout. O Neurofeedback ajuda crianças com PHDA a ganhar foco e autorregulação. A tDCS acelera aprendizagem e clareza mental.
E a IA permite criar planos de treino cognitivo personalizados para cada cérebro.
É por isso que dizemos muitas vezes: “O cérebro é o motor da vida — mas estamos a conduzi-lo como se fosse descartável.”

A fronteira entre neurologia e psiquiatria está a desaparecer?
Completamente. Uma criança com PHDA tem alterações neurobiológicas. Um adulto com ansiedade tem alterações fisiológicas. Um idoso com perda de memória tem alterações estruturais.
A NeuroPsyque nasceu dessa fusão. Chamamos-lhe “medicina do futuro com rosto humano”.

Como tornar o sofrimento psicológico mais visível sem o banalizar?
Tornando-o mensurável. Quando mostramos a uma família que o stress altera hormonas, inflama o corpo e afeta o sono, deixamos de falar de “fraqueza” e passamos a falar de fisiologia.
É por isso que repetimos: “O cérebro não é uma ilha”.

Estamos preparados para lidar com crises globais constantes?
Ainda não. As crianças estão mais ansiosas. Os jovens estão mais perdidos. Os adultos estão mais cansados. Os idosos estão mais isolados.
Precisamos de treinar resiliência cognitiva — em todas as idades. E isso aprende-se, treina-se e desenvolve-se.

O maior mito sobre doenças mentais?
O mito de que “é tudo psicológico”. Não é. É biológico, emocional, social, imunitário, hormonal e neurológico.
Quando tratamos todas as dimensões, a vida muda.

Se o cérebro pode ser treinado, porque investimos tão pouco em treino mental preventivo?
Porque ainda não percebemos o seu valor. Mas a ciência é clara: crianças com treino cognitivo melhoram atenção, memória e autocontrolo; adultos melhoram foco e produtividade; idosos atrasam o declínio cognitivo.
É por isso que repetimos: “O seu cérebro é o seu maior investimento”.


Existe risco de desumanização com tanta tecnologia?

Existe, se a tecnologia substituir a relação. Mas quando a tecnologia é usada como ferramenta — e não como substituto — ela amplifica a precisão, não a desumanização.
Na NeuroPsyque seguimos um princípio simples: “A tecnologia guia-nos, mas a relação cura”.

Como é que o estigma ainda influencia diagnósticos tardios?
O estigma impede pais de procurarem ajuda cedo. Impede adultos de admitirem que estão a perder foco. Impede idosos de reconhecerem que a memória já não é a mesma.
Precisamos de normalizar o cuidado cerebral como normalizamos o cuidado físico.

O que distingue um cérebro saudável de um cérebro resiliente?
Um cérebro saudável funciona bem. Um cérebro resiliente funciona bem mesmo sob pressão — seja uma criança numa sala de aula, um adulto numa reunião ou um idoso a gerir a sua autonomia. A resiliência cognitiva é treinável — e é uma das áreas onde mais trabalhamos.

Se pudesse reformular o sistema de saúde mental, qual seria a primeira mudança radical?
Criaria um modelo verdadeiramente integrado, centrado na pessoa, onde neurologia, psiquiatria, psicologia, neuropsicologia, PNEI, nutrição, neuromodulação e IA trabalham juntas desde o primeiro dia.
Menos fragmentação. Mais ciência. Mais humanidade. Mais esperança. E, acima de tudo, mais foco naquilo que realmente importa: “Transformar a fadiga em lucidez e a patologia numa vírgula de superação.”


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