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“Temos de mudar a Crença que pedir ajuda é sinal de fraqueza”


Num tempo em que o ritmo acelerado da vida desafia diariamente o nosso equilíbrio interior, falar de saúde mental deixou de ser um luxo para se tornar uma necessidade urgente. É neste contexto que surge a voz serena e esclarecedora de Eduarda Figueiras, Psicóloga, numa conversa profunda com a Business Voice. Ao longo desta entrevista, somos convidados a olhar para dentro, a reconhecer fragilidades sem medo e a compreender que cuidar da mente é, acima de tudo, um ato de coragem. Uma reflexão sensível e inspiradora sobre o que significa, hoje, estar verdadeiramente bem.

Vivemos numa era em que falar de saúde mental se tornou “normal”. Mas será que essa normalização é real ou apenas superficial? O que ainda estamos a evitar enfrentar coletivamente?
Hoje fala se muito de saúde mental, mas essa normalização ainda é, na minha opinião, bastante superficial. Porquê? Perguntam vocês. Porque continuamos a evitar aquilo que realmente importa. Reparem, fala-se muito em ansiedade, burnout ou autocuidado, mas vivemos numa sociedade que valoriza a produtividade e a sobrecarga e isso faz com que as  rotinas nos deixem exaustos e “entulhados de tarefas”, isto porque, continuamos a aceitar sempre mais tarefas do que conseguimos, trabalhamos até mais tarde e, por vezes, sem pausas, tentamos ser perfeitos em tudo, continuamos a assumir responsabilidades que não são nossas ou  a viver a um ritmo muito acelerado que não nos permite “respirar de forma consciente”, deixar por minutos o piloto automático.
Também é importante lembrar que cuidar da saúde mental ainda não é igual para toda a gente. Fazer terapia ainda não é algo que toda a gente possa fazer, porque não há psicólogos suficientes nos cuidados de saúde primários e, muitos cidadãos não têm possibilidades financeiras para o fazer. Claro que é importante nestes casos definirem prioridades e neste caso não estou a falar de pessoas que priorizam outras coisas estou mesmo a falar de todos os que não podem usufruir e investir na sua própria qualidade de vida. 
Além disso, evitamos olhar para a nossa própria responsabilidade. É mais fácil culpar o trabalho, o stress ou a rotina do que reconhecer padrões que repetimos, por exemplo, procrastinar na implementação de hábitos saudáveis como, uma alimentação saudável e equilibrada, uma boa higiene do sono e atividade física.  Falar de saúde mental é importante, mas só faz diferença quando estamos dispostos a olhar para dentro e a mudar o que for preciso. Tem de haver movimentação para haver transformação dos hábitos que são os pilares básicos da saúde mental. Muitas vezes, procuramos soluções muito complexas quando o básico não está bem feito!
A saúde mental só será realmente normalizada quando deixarmos de apenas falar sobre ela e começarmos a transformar a forma como vivemos, trabalhamos e cuidamos de nós e dos outros.

Até que ponto o discurso atual sobre autocuidado pode estar a transformar-se numa pressão silenciosa — quase mais uma obrigação que gera ansiedade?
Autocuidado significa “cuidar de nós” e deveria ser usado para aliviar a tensão do dia-a-dia, mas a verdade é que, muitas vezes, acaba por criar ainda mais pressão nas pessoas porque passamos a ver algo que deveria ser para relaxar, para nos sentirmos melhor e recuperar o nosso bem-estar como sendo mais uma obrigação na checklist diária. Só que quando o autocuidado é visto como uma obrigação e não conseguimos atingir essa meta diária, sentimos culpa, como se estivéssemos a falhar até no cuidado connosco mesmas. As redes sociais também alimentam esta ideia de um autocuidado “bonito” e idealizado, que nem sempre é realista. No fundo, o autocuidado só funciona quando deixa de ser mais uma exigência e passa a ser algo simples, flexível e adaptado ao que realmente precisamos naquele momento. E é importante lembrar que cada pessoa tem a sua realidade e que não precisamos de começar com uma hora de autocuidado por dia. Para muitos de nós isso é impossível. Podemos começar com cinco minutos por dia e experimentar uma atividade de cada vez, sem pressões e ao nosso ritmo.

As redes sociais amplificam a consciência sobre saúde mental, mas também a comparação e o julgamento. Na sua perspetiva, estamos mais informados ou mais vulneráveis?
As redes sociais têm o seu lado bom e o seu lado mau. Por um lado, aumentaram a literacia em saúde mental: existem páginas que partilham informação útil, explicam conceitos, normalizam o pedir ajuda e mostram que não estamos sozinhos nas nossas dificuldades. Mas, por outro lado, são muitas as pessoas que passam horas a fazer scroll no telemóvel ou tablet sem dar conta, e isso inevitavelmente traz comparações, críticas e julgamentos. Quando estamos constantemente a ver vidas, rotinas e emoções dos outros, é fácil sentirmos que não estamos felizes, que não estamos a fazer o suficiente ou que estamos “atrás” de toda a gente. E isso deixa nos mais vulneráveis.
Por isso, por um lado estamos mais informados, sim, mas também mais expostos. As redes sociais ajudam-nos a compreender melhor a saúde mental, mas ao mesmo tempo criam padrões irreais que nos fazem duvidar do nosso próprio ritmo e das nossas próprias conquistas. Muitas vezes vemos pessoas que parecem sempre equilibradas, produtivas e emocionalmente estáveis, e isso faz com que questionemos o nosso valor ou a forma como lidamos com a vida. E esquecemos efetivamente que as pessoas apenas colocam nas redes sociais aquilo que querem mostrar. 
No fundo, estamos mais informados, mas também mais vulneráveis ao impacto da comparação e do julgamento. O desafio é aprender a filtrar o que vemos, lembrar nos de que cada pessoa mostra apenas uma parte da sua realidade e usar as redes sociais como ferramenta não como medida de quem somos.

Que sinais subtis — muitas vezes ignorados — podem indicar que alguém aparentemente “funcional” está, na verdade, em sofrimento psicológico?
Hoje existe uma tendência para transformar emoções como, por exemplo, a tristeza, a frustração ou a ansiedade em algo que é “anormal”, quando na verdade fazem parte da experiência humana. As emoções transmitem-nos mensagens e essas mensagens são muitas vezes fundamentais para a nossa sobrevivência. As emoções passam a preocupar apenas quando se tornam muito intensas, duram demasiado tempo ou começam a interferir com o dia-a-dia. Aí pode ser importante procurar apoio profissional.
Ao mesmo tempo, é importante lembrar que o sofrimento psicológico nem sempre é visível. Muitas pessoas continuam a funcionar, a trabalhar e a cumprir tudo, mas por dentro estão exaustas e a viver um “turbilhão de emoções”. Os sinais são subtis: isolamento, irritabilidade, cansaço constante, perda de interesse, respostas mais curtas, sensibilidade maior a críticas ou a sensação de estar sempre “no limite”. Pequenas frases como “anda tudo igual” ou “é só cansaço” podem esconder muito mais do que isso. Podem esconder o verdadeiro sofrimento pelas quais as pessoas estão a passar!
No fundo, não devemos ignorar as emoções normais, elas devem ser vivenciadas e devemos estar atentos aos sinais discretos de sofrimento em quem parece estar bem por fora (mal está “a apodrecer por dentro”. 

Se pudesse mudar uma crença profundamente enraizada na sociedade sobre saúde mental, qual seria — e porquê?
Na minha perspetiva uma das crenças que eu mudava na saúde mental era a crença de que “pedir ajuda é sinal de fraqueza”. Esta crença ainda está muito presente na sociedade em que vivemos. Isto faz com que muitas pessoas escondam o que sentem, minimizem o próprio sofrimento e tentem aguentar tudo sozinhas, porque para elas vulnerabilidade é sinonimo de fracasso pessoal.
Esta visão cria silêncio, sofrimento, vergonha e isolamento. Impede as pessoas de procurem apoio profissional quando começam a sentir que algo não está bem, e faz com que só peçam ajuda quando já estão no limite. Além disso, reforça a ideia de que ser forte é nunca vacilar quando, na verdade, força também é reconhecer limites, pedir apoio quando necessário e permitir-se ser humana.
Se mudássemos esta crença, abriríamos espaço para conversas mais honestas, relações mais empáticas e uma sociedade onde cuidar da saúde mental não fosse visto como exceção, mas como parte natural da vida. Pedir ajuda não diminui ninguém é um ato de coragem, de responsabilidade e de autocuidado real.









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