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“Na YBOM Advogados não fazemos qualquer distinção entre Homens e Mulheres”

Na entrevista concedida à Business Voice, Sara Luís Dias, Advogada e Sócia da YBOM Advogados – Yolanda Busse, Oehen Mendes & Associados, partilha o seu percurso e a forma como construiu uma carreira sólida no Direito Fiscal. Com uma visão marcada pelo mérito e pelo reconhecimento profissional, destaca que “felizmente sempre fui, enquanto advogada e no escritório que hoje lidero (YBOM Advogados), motivada e valorizada pelos colegas que trabalhavam comigo”, sublinhando a importância de ambientes colaborativos na liderança e na excelência jurídica.

O Dia Internacional da Mulher é mais do que uma data simbólica. Na sua perspetiva, que desafios estruturais continuam a marcar a vida profissional das mulheres, especialmente em áreas tradicionalmente exigentes como o Direito e a Fiscalidade?
Considerando as dificuldades que as mulheres ainda enfrentam (em especial em alguns países, nos quais as mulheres são desrespeitadas e maltratadas de forma desumana), esta data continua a ser relevante para chamar à atenção da sociedade para estes casos, com o intuito de motivar reações e mudanças.
E, mesmo nas sociedades modernas e mais desenvolvidas, muitas são, ainda, as desigualdades e desafios. Chocam-me as barbaridades que adolescentes e jovens adultos dizem publicamente, ainda hoje em dia, sobre as mulheres, que as culpam pelas suas frustrações e insucessos. É um problema sério, que merece atenção das famílias, das escolas e da sociedade em geral.
No exercício do Direito e na Fiscalidade e, em particular, na advocacia, persistem desafios muito concretos: a penalização “silenciosa” da maternidade, a cultura de disponibilidade total, a dificuldade na gestão de todo os seus papéis e a pressão constante. A nossa sociedade ainda assenta na ideia de que a mulher tem obrigação de exercer todos os papéis (trabalhar, ser independente, casar, ter filhos, cuidar do lar, entre outros), não podendo escolher livremente o seu caminho e a sua vida, abdicando, se assim entender, de viver determinadas experiências. A pressão, para as mulheres, é muito mais marcada, pesada e difícil de gerir. Aquilo que, muitas vezes, para os homens é extraordinário e digno de destaque, para as mulheres é visto como um dever, uma obrigação.
Como advogada, professora universitária, mãe e gestora de um escritório, vejo diariamente que o talento das mulheres não falta. O que muitas vezes falta é tempo, rede de suporte e modelos de organização que reconheçam que a vida tem várias vertentes e que as mulheres são igualmente livres de escolher o seu caminho. Não temos de nos sentir culpadas por fazer escolhas, tomar decisões e ambicionar: ocupar espaço, negociar condições, criar alianças, abandonar relações infelizes, fazer escolhas e liderar com rigor e humanidade. Podemos — e devemos — construir carreiras de alto nível sem nos apagarmos ou culparmos. Mas isso exige que todos deixemos de tratar a conciliação e as escolhas como “um problema individual” e a assumamos como uma responsabilidade coletiva.

Ao longo do seu percurso, sentiu que teve de provar mais vezes a sua competência por ser mulher? Que formas subtis (ou explícitas) de desigualdade ainda persistem no exercício da advocacia?
Felizmente sempre fui, enquanto advogada e no escritório que hoje lidero (YBOM Advogados), motivada e valorizada pelos colegas que trabalhavam comigo. Cresci profissionalmente junto de homens advogados, com carreiras de sucesso, e que sempre apoiaram o meu crescimento profissional. E, hoje em dia, os colegas homens que comigo trabalham são igualmente elementos de apoio e incentivo, que respeitam e valorizam as suas colegas mulheres.
No entanto, o exercício da advocacia é, no geral, desafiante para todos os advogados profissionais liberais e, em especial, para as mulheres. Continuar a cumprir prazos, reunir com clientes e estar presente em diligências é algo perfeitamente comum numa advogada num período pós-parto (1 ou 2 semanas depois do parto, por exemplo), para não “desagradar” clientes nem falhar diligências, que – não obstante poder haver colegas disponíveis (como tantas vezes invocam os Tribunais) – a mulher advogada quer e deve fazer, mas num momento em que reúne condições para tal. 
Esta pressão é inaceitável e as mulheres continuam, de forma heroica e admirável, a cumprir. Necessitamos de outros apoios e medidas, colaboração, empatia e reconhecimento por parte das n/ instituições profissionais, Tribunais e pela sociedade em geral. 

Como Managing Partner de uma sociedade de advogados, de que forma procura promover a igualdade de oportunidades e a valorização do talento feminino dentro da organização?
Na YBOM Advogados não fazemos qualquer distinção entre homens e mulheres e respeitamos as diferenças e características de cada um. Temos profissionais admiráveis, trabalhadores e competentes e é isto que valorizamos. E, em especial, as mulheres que comigo trabalham são exemplos de força e competência, que se apoiam, admiram e crescem conjuntamente. 
As oportunidades são dadas a quem manifestar competência, dedicação e esforço, seja homem ou mulher. Não precisamos de medidas excecionais de valorização do talento feminino ou masculino, porque este é naturalmente reconhecido, quando detetado. 
E, como gestora do escritório e líder de uma equipa de diferentes profissionais, procuro investir e apoiar o crescimento profissional dos jovens profissionais que, na minha perspetiva, merecem esse reconhecimento.

A conciliação entre liderança, docência universitária, investigação e vida pessoal continua a ser um dos grandes temas associados às mulheres. Que estratégias considera essenciais para evitar que esta multiplicidade de papéis se transforme num fator de desgaste?
Esta conciliação é, honestamente, uma das fontes de maior desgaste e não podemos romantizar esta realidade. Sentir culpa, cansaço extremo, medo de falhar, pressão…é uma realidade constante, que vamos aprendendo a gerir. 
O problema raramente é “falta de capacidade”, mas sim a soma de responsabilidades, desafios, muitas vezes com uma expectativa de disponibilidade permanente, resiliência extrema e gestão das prioridades. Vamos aprendendo a encontrar um equilíbrio e gerir prioridades. Mas a gestão de todas estas vertentes é a maior dificuldade da maioria das mulheres que escolhe ser bem-sucedida profissionalmente, sem descurar o seu papel de mãe e mulher. A pressão social sobre a mulher e sua culpabilização (no seu papel como mãe, mulher, profissional e até na sua aparência física e posição social) é, como referi, enorme.
Creio que é importante aprender a priorizar os desafios por ciclos e aceitar essa alternância (há semanas em que o escritório exige mais, noutras a docência ou a escrita); definir prioridades pessoais e profissionais, que podem variar a longo do tempo; aprender a delegar sem culpa e com método, confiando no trabalho de equipa (e nem sempre é fácil encontrar as pessoas certas para este apoio e trabalho conjunto); definir limites claros de disponibilidade, aprendendo a dizer “não” quando necessário e oportuno; procurar rede de apoio real: em casa e no trabalho; cuidar de si próprio, aprendendo a dedicar tempo para tal; aproveitar bem o tempo com a família e amigos (investindo mais na qualidade desses momentos, do que na quantidade). Para mim, demonstrar às minhas filhas diariamente que a mãe é uma mulher independente, autónoma, bem resolvida e livre de fazer as suas escolhas é uma prioridade. E isto não implica não ter tempo de qualidade com elas, não ser feliz num relacionamento, isolar-me ou não admitir que, às vezes, o cansaço pesa. Significa que somos capazes de gerir todos estes papéis e encontrar um equilíbrio e perceber as nossas próprias capacidades e limitações.  
Todos os dias trabalho para colocar estas estratégias em prática, no entanto, o mais importante é sentirmo-nos realizados e felizes naquilo que fazemos: tanto no trabalho, como na vida familiar e social. Isto facilita tudo o resto.

O Direito foi, durante décadas, um setor maioritariamente masculino. Como avalia a evolução da posição das mulheres na advocacia nos últimos anos e que barreiras considera que ainda precisam de ser derrubadas para que a igualdade seja efetivamente alcançada?
Hoje há cada vez mais mulheres na advocacia: em número, em qualidade técnica e em diversidade de percursos. Mas, apesar desse progresso, ainda existe, em alguns contextos, uma certa resistência silenciosa à normalização da liderança feminina: desde reservas na forma como a autoridade é reconhecida, até expectativas diferentes sobre disponibilidade, assertividade e “estilo” de gestão. E esta resistência verifica-se também noutras mulheres, que não lidam tão bem com o sucesso alheio. E é precisamente nas estruturas mais tradicionais — como alguns grandes escritórios e áreas com forte componente comercial — que a ascensão a posições de topo continua a ser mais lenta e mais escrutinada.
Temos de investir na redução da pressão quotidiana sobre as mulheres no desempenho dos seus diferentes papéis; alterar modelos de progressão que penalizam maternidade e responsabilidades familiares; amenizar as culturas disponibilidade constante e imediata e investir na competência técnica, capacidade e desempenho profissional de todos os que a revelem (homens ou mulheres).
Já não se discute se há mulheres capazes, competentes, bem-sucedidas. Há, e muitas. O que precisa mudar é o sistema e a visão da sociedade para que o mérito seja reconhecido sem filtros, e para que liderar seja uma possibilidade natural, não uma exceção que exige o dobro da prova.

Que papel podem e devem ter as instituições, empresas e universidades na criação de ambientes mais inclusivos, justos e equilibrados para as mulheres? E que papel têm as Mulheres neste «abrir de portas»?
Estas entidades têm um papel decisivo: criar regras e culturas que permitam que o mérito apareça e seja reconhecido. Não acredito que a resposta passe, necessariamente, por impor números mínimos de cargos para mulheres ou condições especiais para as mulheres — acredito, isso sim, em processos justos, transparentes e exigentes, onde a avaliação é feita por competência, resultados e potencial, e não por expectativas de género.
Na prática, isso implica: critérios claros de progressão e liderança, remuneração transparente, distribuição equilibrada de oportunidades, tolerância zero a microdiscriminações, e adoção de modelos de trabalho que respeitem a vida e reduzam a pressão social sobre as mulheres — porque a exigência profissional não pode ser sinónimo de disponibilidade ilimitada ou assentar num protótipo de perfeição na execução dos vários papéis.
E as mulheres? Temos um papel fundamental neste caminho: não esperar que a mudança venha dos outros. Apoiar outras mulheres, partilhar informação e oportunidades, recomendar e “patrocinar” talento, aplaudir sucessos, incentivar o crescimento, amenizar a pressão, inspirar e elogiar, criar redes de apoio, e, sobretudo, não sabotar o crescimento das outras para responder às pressões sociais ou lidar com frustrações impostas (erradamente) pela sociedade — algo que, infelizmente, ainda acontece por receio, falta de confiança, competição ou ausência de espaços. 
Quando uma mulher cresce e alcança o sucesso, não deve ser uma exceção; deve ser um caminho mais aberto para as que vêm a seguir.  
Numa sociedade como a nossa, a igualdade efetiva constrói-se com um princípio simples: reconhecer mérito sem filtros, criando ambientes onde todas as pessoas (mulheres e homens) possam crescer com exigência, justiça e equilíbrio, sem pressões desmedidas ou exigências infundadas.

Que mensagem deixaria às jovens mulheres que ambicionam uma carreira de topo no Direito, mas que ainda sentem receio de não conseguir «chegar a bom porto»?
Às jovens mulheres que ambicionam uma carreira de topo no Direito e, em especial, na advocacia, eu diria isto: o receio é normal, mas não pode ser limitador. Em Portugal, temos algo precioso: liberdade para escolher o nosso caminho, para estudar, trabalhar, liderar, empreender, ser mãe ou não ser, mudar de área, ter ou não relacionamentos, desistir e recomeçar. Essa liberdade não elimina as dificuldades, mas dá-nos o direito de sermos quem quisermos. Não temos de abdicar da vida pessoal para sermos boas profissionais, nem “esquecer” a carreira profissional para sermos mães e companheiras.
Existirão momentos de dúvida, desgaste e comparação. Muitas portas que parecem demasiado resistentes para abrir. Mas a competência constrói-se, a confiança treina-se e não temos de enfrentar tudo isto sozinhas: podemos procurar mentores, criar redes de apoio, pedir oportunidades, admirar e aplaudir outras mulheres, aprender com elas e não viver com receio de falhar.
Muitas vezes, o que separa quem chega ao “topo” de quem fica pelo caminho não é apenas o talento, é a persistência, a consistência, a dedicação, a humildade e a coragem de dar o próximo passo, acreditando que ser Mulher não é um fardo, mas uma bênção, porque o que as mulheres podem e conseguem fazer é simplesmente admirável. 
Um bem-haja a todas as mulheres maravilhosas que conheço!


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