“Acreditem no Vosso Potencial, Construam Conhecimento”
No âmbito do Dia Internacional da Mulher, conversámos com Lara Gonçalves, Country Manager da NORSAN Portugal, para uma reflexão sobre liderança, igualdade e o papel crescente das mulheres em posições de decisão. Numa área ainda maioritariamente masculina, a sua trajetória afirma-se como um exemplo de determinação, competência e visão estratégica. Nesta entrevista, partilha desafios, conquistas e a importância de promover uma cultura empresarial mais inclusiva e equilibrada.
Se a sua carreira fosse um filme, que género seria e qual seria a cena que melhor define o seu percurso até hoje?
Se a minha carreira fosse um filme, seria claramente um filme de aventura. Apesar de o meu percurso profissional ter sido pensado e estruturado desde cedo (licenciei-me em Ciências Farmacêuticas e exerci durante quase 20 anos), a verdade é que a vida acabou por me levar por caminhos inesperados. E é precisamente essa imprevisibilidade, aliada à capacidade de adaptação e superação, que torna esta jornada uma verdadeira aventura. Em 2013, decidi testar a minha resiliência da forma mais desafiante possível: emigrei para a Noruega com o meu marido e uma criança com pouco mais de um ano. Fui sem trabalho, “à boleia” da oportunidade profissional do meu marido. Decidimos, enquanto família, dar esse passo. Ele conseguiu colocação rapidamente, e eu parti para o desconhecido. Posso dizer que nunca baixar os braços e ter uma vontade profunda de não depender de ninguém fizeram toda a diferença. Poucos meses depois, entrei numa farmácia como estagiária, com o objetivo de aprender a língua e compreender a organização do sistema. Após o reconhecimento do meu curso e maior domínio do norueguês, assinei contrato nessa mesma farmácia. Desde o início do estágio até à assinatura do contrato passaram cerca de seis meses: seis meses de aprendizagem intensa, adaptação e superação. Continuei a crescer profissionalmente, mas, com o tempo, comecei a sentir que faltava algo. Faltava-me propósito. Sentia que queria ir além da prática tradicional e contribuir de forma mais profunda para a saúde das pessoas. Em 2024, regressei a Portugal. Ao fazê-lo, e tendo-me despedido para encerrar esse ciclo, trouxe comigo muito mais do que experiência profissional. Trouxe a cultura norueguesa, a sua visão estruturada e preventiva da saúde, e a convicção de que queria alinhar a minha prática com a saúde integrativa: olhar para cada pessoa como um ser único, apostar na prevenção e na qualidade de vida a longo prazo. Foi nesse contexto que trouxe para Portugal a marca NORSAN, alinhada com o meu propósito, os meus valores e a minha missão profissional. Se tivesse de escolher a cena que melhor define o meu percurso, seria o momento em que pisei solo norueguês. Foi ali, naquele passo aparentemente incerto, que começou a verdadeira transformação. Foi essa decisão corajosa que me permitiu crescer, redefinir prioridades e chegar exatamente onde estou hoje.
Qual foi o momento “aha!” na sua trajetória profissional em que percebeu que poderia realmente liderar e marcar a diferença?
O meu momento “aha!” surgiu pouco tempo depois de assinar o contrato na farmácia na Noruega. Sendo estrangeira e recém-chegada, no início foi difícil conquistar o reconhecimento dos meus colegas. Mas, com dedicação e profissionalismo, rapidamente ganhei respeito e confiança: os meus colegas e a chefia começaram a consultar-me, apoiar-se na minha palavra e valorizar as minhas decisões. Foi nesse momento que percebi que posso realmente liderar e marcar a diferença: não apenas no meu trabalho diário, mas também ao criar impacto positivo na equipa e na organização. Ao longo do tempo, esse percurso levou-me a assumir funções de liderança, guiando colegas, tomando decisões estratégicas e aprendendo a liderar com propósito. Mais tarde, ao regressar a Portugal, apliquei o que tinha aprendido, na criação da NORSAN, onde hoje lidero com impacto, alinhando os meus valores e missão: promover a saúde integrativa, olhar para o indivíduo de forma holística e apostar na prevenção para uma maior qualidade de vida a longo prazo.
No mundo corporativo, os desafios são reais. Qual foi o momento em que sentiu que a sua determinação e visão fizeram a diferença na NORSAN Portugal?
No mundo corporativo, os desafios são reais, mas tenho a sorte de trabalhar numa empresa como a NORSAN, onde todas as vozes contam. Sinto-me sempre ouvida e apoiada, e existe espaço para trazer à mesa qualquer questão ou solução que considere relevante. Um momento em que senti que a minha determinação e visão realmente fizeram a diferença foi ao conseguir integrar a minha perspetiva científica, desenvolvida ao longo do meu percurso académico em Ciências Farmacêuticas, na estratégia da NORSAN Portugal. Enquanto Diretora Nacional em Portugal, trabalho em colaboração com os Diretores Nacionais de outros países, (e não só) cada um com backgrounds diferentes, e conseguimos unir as nossas expertises para fortalecer a marca e consolidá-la como uma referência de confiança no setor da saúde. Sinto que a minha visão sobre saúde integrativa é realmente valorizada, pois contribui para decisões estratégicas e para soluções que apresentamos aos profissionais de saúde. Quando posso trazer à mesa questões mais científicas, vejo o impacto direto: estas discussões refletem-se na forma como comunicamos com os profissionais de saúde e no valor que entregamos a clientes e parceiros. Este alinhamento entre visão científica, valorização interna e impacto real no mercado foi um momento claro em que percebi que a minha determinação e contributo estratégico fazem, de facto, a diferença na NORSAN Portugal, ajudando-nos a crescer enquanto marca sólida e confiável, com propósito e inovação.
O Dia da Mulher celebra conquistas, mas também inspira reflexão. Que mensagem gostaria de deixar às mulheres que aspiram liderar no setor industrial ou tecnológico?
O Dia da Mulher é uma oportunidade para celebrar conquistas, mas também para refletir sobre os desafios que ainda existem. Às mulheres que aspiram liderar no setor industrial ou tecnológico, gostaria de deixar uma mensagem de coragem e confiança: não deixem que estereótipos ou preconceitos determinem o vosso valor ou capacidade. A minha própria experiência mostra que é possível enfrentar o desconhecido, aprender, crescer e liderar, mesmo em ambientes novos ou desafiantes. Quando emigrei para a Noruega, comecei do zero, num país diferente, sem trabalho garantido, e com barreiras culturais e linguísticas. Mas, com dedicação, resiliência e vontade de contribuir, rapidamente ganhei respeito, assumi funções de liderança e percebi que liderar é mais sobre competência, visão e propósito do que sobre género. O mito de que mulheres são instáveis ou dominadas pelas hormonas ainda limita muitas carreiras. Desafiem-no. Mostrem que a liderança feminina é estratégica, resiliente e capaz de gerar impacto real. Acreditem no vosso potencial, construam conhecimento, cultivem redes de apoio e nunca deixem de perseguir oportunidades que alinhem propósito e paixão. A liderança é construída passo a passo, com coragem e persistência. E, quando alcançada, não só transforma a carreira de cada uma, como também inspira mudanças significativas nas equipas e organizações onde atuam.
Se pudesse “desconstruir” um mito sobre mulheres em posições de liderança, qual seria e como acha que ele limita o crescimento profissional?
Se pudesse desconstruir um mito sobre mulheres em posições de liderança, seria a ideia de que somos instáveis ou dominadas pelas hormonas. Este estereótipo ainda persiste em algumas organizações, apesar de não ter qualquer base factual. Na prática, as mulheres demonstram resiliência, disciplina, capacidade de tomar decisões estratégicas e inteligência emocional, muitas vezes equilibrando múltiplas responsabilidades profissionais e pessoais de forma eficaz. Este mito limita o crescimento profissional de várias formas. Primeiro, reduz oportunidades: muitas mulheres são preteridas em processos de promoção ou projetos estratégicos simplesmente porque a perceção social as considera menos confiáveis ou previsíveis, independentemente das suas competências. Segundo, gera desconfiança e pressão constante: as mulheres precisam de provar continuamente o seu valor, enquanto os homens em situações equivalentes raramente enfrentam o mesmo escrutínio. Por fim, impede que muitas assumam cargos de liderança por receio de serem avaliadas injustamente, atrasando o acesso a posições onde poderiam ter impacto real. Testemunhos de mulheres líderes confirmam que esta perceção é frequentemente usada para minimizar a sua contribuição ou desvalorizar opiniões, mesmo quando demonstram conhecimento, experiência e capacidade de decisão. No entanto, experiências como a minha mostram que, quando mulheres são respeitadas pelo seu profissionalismo e visão, conseguem gerar impacto positivo e inspirar mudanças significativas. Desconstruir este mito é, portanto, essencial não só para permitir que mais mulheres alcancem posições de liderança, mas também para que organizações beneficiem plenamente das competências, criatividade e visão estratégica que as mulheres trazem.
Imaginemos que cada decisão sua na NORSAN Portugal é uma “marca digital” deixada na história da empresa. Qual decisão sente que terá o maior impacto a longo prazo?
Se cada decisão que tomo na NORSAN Portugal fosse uma “marca digital” deixada na história da empresa, a que sinto que terá o maior impacto a longo prazo é a decisão de reforçar, de forma consistente, os valores de confiança e transparência em tudo o que fazemos. Num mercado como o da saúde e dos suplementos alimentares, onde os consumidores e os profissionais de saúde procuram cada vez mais clareza, rigor e responsabilidade, apostar em práticas que cultivem confiança e transparência cria um legado que ultrapassa os resultados imediatos. Esta decisão não é um único ato isolado, mas sim um compromisso contínuo com:
• Comunicação aberta e honesta: explicar de forma acessível e precisa os benefícios e limitações dos nossos produtos, sem hipérboles ou promessas infundadas.
• Rigor científico e qualidade comprovada: disponibilizar informações sobre composição, certificações independentes e análises laboratoriais que atestem a pureza e eficácia dos produtos, reforçando que a NORSAN partilha conhecimento.
• Ética e sustentabilidade: adotar práticas produtivas responsáveis e comunicar de forma transparente os nossos compromissos ambientais e sociais.
Esta aposta contínua em confiança e transparência molda a relação da marca com os consumidores, com os profissionais de saúde e com o mercado em geral. É uma marca que não se perde com o tempo, antes cresce e se fortalece, porque gera credibilidade, fidelidade e respeito. Por isso, a decisão que acredito ter maior impacto a longo prazo é esta: fazer da confiança e da transparência princípios orientadores de cada ação e cada comunicação da marca. É esta consistência que constrói uma história de valor duradouro e que deixa uma marca digital positiva na trajetória da NORSAN Portugal.
Para além da liderança e carreira, que hábito ou prática pessoal a ajuda a manter energia, foco e criatividade no dia a dia?
Para além da liderança e da minha carreira, há hábitos que me ajudam a manter energia, foco e criatividade no dia a dia. A música, que sempre teve um efeito terapêutico em mim, é muito importante: estar rodeada dela ou de alguma forma conectada com ela ajuda-me a relaxar, a inspirar-me e a reorganizar ideias, especialmente nos dias mais intensos. Estar com os meus filhos e aproveitar os momentos em família é igualmente essencial. Estes momentos permitem-me recarregar energia, trazer novas perspetivas e manter-me centrada no que realmente importa, equilibrando o ritmo acelerado do trabalho com experiências que dão sentido e alegria à vida.
Se pudesse escrever uma carta para si mesma aos 20 anos, numa altura em que ainda dava os primeiros passos na carreira, qual seria o conselho mais inesperado que lhe daria?
Se pudesse escrever uma carta para mim mesma aos 20 anos, diria algo que talvez não esperasses ouvir: acredita sempre em ti e no teu potencial, mesmo quando tudo parecer assustador e incerto. A vida profissional pode apresentar desafios que parecem impossíveis de superar, mas cada experiência, mesmo as mais difíceis, acontece por uma razão e contribui para moldar o teu percurso. Nunca desistas, por mais complexo que seja o presente. O medo do desconhecido é natural, mas é precisamente nos momentos de maior dificuldade que se descobrem capacidades inesperadas, se constrói resiliência e surgem oportunidades que transformam a tua carreira e a tua vida pessoal. E mais: rodeia-te de pessoas que partilhem os teus valores e propósito. Estar perto de quem acredita no mesmo que tu, fortalece, inspira e ajuda a enfrentar obstáculos de forma mais confiante e assertiva. No fundo, a mensagem que deixaria à minha versão mais jovem é esta: confia em ti, mantém a tua visão e honra os teus valores. Passo a passo, cada decisão, cada desafio e cada aprendizagem, constrói uma trajetória de impacto, propósito e realização, muito maior do que alguma vez conseguirias imaginar.