“Empoderamento é Literacia em Saúde”
Esta é uma conversa que não pede licença. Afirma presença. E lembra que saúde da mulher não é nicho — é prioridade. Na sua entrevista à Business Voice, Rita Paiva — Fisioterapeuta, Fundadora da Ritta Care, Influencer e Defensora da Saúde da Mulher — desafia tabus, quebra silêncios e redefine o que significa cuidar no feminino.No Dia Internacional da Mulher, não falamos apenas de conquistas — falamos de corpo, de voz e de poder.
O Dia Internacional da Mulher nasceu da luta, mas hoje também carrega celebração. Em que momento da sua vida sentiu, pela primeira vez, que ser mulher foi simultaneamente um desafio… e uma força?
Senti isso de forma muito clara nos primeiros anos da minha prática clínica dedicada à saúde pélvica feminina. Percebi rapidamente que estava a atuar numa área historicamente desvalorizada, onde a dor e as disfunções femininas eram frequentemente normalizadas. Foi desafiante ocupar esse espaço, falar de temas íntimos, questionar abordagens instaladas. Mas, ao mesmo tempo, ser mulher tornou-se uma força imensa. A minha capacidade de escuta, empatia e compreensão do contexto emocional das pacientes permitia-me ir além do sintoma. Houve uma consulta em que uma mulher me disse: “É a primeira vez que me sinto realmente ouvida.” Nesse momento compreendi que a minha identidade não era apenas parte do percurso era parte da solução.
A uroginecologia ainda é um território rodeado de silêncio, tabus e invisibilidade. O que mais a incomodou nesse silêncio e o que a motivou a transformá-lo em propósito através da RITTA Care?
O que mais me incomodou foi a normalização do sofrimento feminino. Mulheres jovens a aceitarem perdas urinárias como inevitáveis. Dor nas relações descrita como “fase”. Pós-partos vividos sem acompanhamento especializado do pavimento pélvico. Esse silêncio não era apenas social; era também clínico.
Transformei esse incómodo em propósito porque percebi que não bastava tratar individualmente. Era necessário criar estrutura, formação, literacia. A RITTA Care nasceu da vontade de devolver dignidade à saúde pélvica da população, integrando ciência avançada, abordagem multidisciplinar e uma visão que olha a mulher como um todo. Não queria apenas intervir na disfunção queria mudar a narrativa cultural sobre o corpo feminino.
Por isso, dentro do ecosistema RITTA Care, dispomos do cuidado em Clincia, através da RITTA Clinic, e do cuidado através da nossa aplicação, RITTA Care app, desenvolvida para dar solução e empoderar as Mulheres desde o cuidado da sua saúde pélvica.
Liderar um ecossistema inovador na área da saúde exige ciência, coragem e visão. Que decisões difíceis tomou que ninguém viu mas que foram determinantes para se tornar a mulher e líder que é hoje?
As decisões mais difíceis foram, muitas vezes, silenciosas. Investir fortemente em formação internacional numa área ainda pouco reconhecida no nosso contexto. Dizer “não” a percursos mais previsíveis para construir algo que ainda estava em consolidação. Assumir riscos financeiros e estratégicos para internacionalizar conhecimento e posicionamento.
Também houve decisões internas: aprender a liderar equipas, estruturar processos, delegar com confiança. Crescer implica desconforto. E talvez a decisão mais determinante tenha sido escolher coerência em vez de aprovação. Manter-me fiel à visão de elevar a saúde pélvica a nível global, a um novo patamar científico, e uma mudança de paradigma, mesmo quando isso significava ir contra o fluxo.
Como formadora e palestrante internacional, cruza culturas, sistemas de saúde e realidades femininas muito diferentes. Há algo que une todas as mulheres, independentemente do país ou contexto?
Sim. A necessidade profunda de validação e escuta qualificada. Independentemente da cultura, encontro mulheres que aprenderam a priorizar tudo menos o próprio corpo. Muitas chegam com a sensação de que exageram, de que a dor é normal, de que devem simplesmente aguentar.
O que as une é essa procura por um espaço seguro onde possam ser ouvidas sem julgamento. Quando lhes devolvemos linguagem para compreender o próprio corpo, acontece algo universal: reconexão. E essa reconexão não depende do país depende da possibilidade de acesso a informação e cuidado especializado.
Foi esse o grande motor da criação da nossa aplicação: RITTA Care APP, o nosso mais recente projeto. Onde uma vez mais quebramos o paradigma do online, e cumprimos um novo propósito: Fazer chegar a saúde pélvica integrada de forma multidisciplinar, estruturada, conectada e medida, a todo o mundo.
Ao longo do seu percurso, que crença sobre o corpo e a saúde feminina sente que precisa urgentemente de ser desafiada — tanto pela medicina como pela própria sociedade?
A crença de que dor e disfunção fazem parte inevitável de ser mulher. Dor menstrual incapacitante não é normal. Dor nas relações não é normal. Perdas urinárias não são consequência obrigatória da idade ou da maternidade.
Precisamos de desafiar a ideia de que o corpo feminino é naturalmente frágil ou problemático. Ele é complexo, cíclico e altamente adaptável. O que precisa é de investigação específica, profissionais especializados e uma medicina que reconheça diferenças biológicas sem as desvalorizar.
No dia 8 de março fala-se muito em empoderamento. Para si, o que é verdadeiro empoderamento feminino — e que mito urgente precisamos de desconstruir sobre ele?
Verdadeiro empoderamento feminino não é fazer tudo sozinha nem performar força constante. Não é competir, é cuidar, é ser cuidada, é construir. Para mim, empoderamento é literacia em saúde, autonomia informada e acesso a uma rede qualificada.
O mito que precisamos desconstruir é que empoderamento é apenas individual ou estético. Não é uma frase inspiradora nem uma tendência. É estrutural. É garantir que as mulheres têm acesso a cuidados diferenciados, investigação científica e representação nos espaços de decisão. Empoderar mulheres na saúde íntima é transformar sistemas e essa é uma responsabilidade coletiva.