“Liderar passa por Construir um percurso Próprio, Distintivo e Sustentado”
No âmbito do Dia Internacional da Mulher, a Business Voice entrevistou Rute Silva, CEO & Fundadora da LuxReg Solutions, LDA e Diretora de Compliance & Responsável pelo Cumprimento Normativo da Luso Digital Assets, LDA. Numa conversa centrada na liderança feminina e na responsabilidade ética nas organizações, a nossa interlocutora reflete sobre o papel das mulheres em setores altamente regulados e tradicionalmente exigentes, destacando a importância da competência, da resiliência e da visão estratégica como motores de mudança e de igualdade no mundo empresarial.
O Dia Internacional da Mulher é mais do que uma data simbólica. Na sua perspetiva, que papel desempenha este dia na promoção de uma liderança mais inclusiva e consciente nas organizações?
O Dia Internacional da Mulher tem valor quando deixa de ser apenas simbólico e passa a ser um convite à responsabilidade. Mais do que celebrar conquistas, este dia deve servir para provocar reflexão nas organizações sobre como o poder é exercido, como as decisões são tomadas e quem fica sistematicamente de fora desses processos. Uma liderança mais inclusiva e consciente não nasce de quotas/participações sociais ou discursos, mas de culturas organizacionais que valorizam clareza, escuta ativa, responsabilidade emocional e diversidade real de pensamento. Este dia relembra-nos que liderar não é apenas ocupar um cargo, mas criar contextos onde diferentes vozes podem contribuir com autonomia, segurança e impacto — independentemente do género.
Hoje é Diretora de Compliance e Responsável de Cumprimento Normativo na Luso Digital Assets, Lda., cargo que desempenha, acumulando atualmente com as funções de Fundadora e CEO da LuxReg Solutions, Unipessoal Lda. Como analisa o seu trajeto e alguma vez sentiu que ser mulher influenciou — positiva ou negativamente — o acesso a posições de liderança? De que forma?
O meu percurso foi construído de forma progressiva, assente em rigor técnico, responsabilidade e consistência estratégica ao longo do tempo. O acesso a posições de liderança surgiu de forma natural, como consequência da competência demonstrada e da confiança construída no contexto profissional, mais do que de qualquer necessidade de afirmação pessoal. Ser mulher não foi, para mim, um fator determinante no acesso às funções que desempenho, embora, em alguns contextos, tenha influenciado a forma como essas competências foram inicialmente percecionadas. Houve situações em que senti ser necessário demonstrar de forma mais consistente para que o mesmo nível de autoridade fosse reconhecido — não apenas por uma questão de género, mas também pela idade. Em contrapartida, essa exigência contribuiu para o desenvolvimento de um estilo de liderança mais consciente, atento ao detalhe, à ética e ao impacto das decisões. Atualmente, encaro a liderança como um espaço de responsabilidade e não de validação. O meu foco está na criação de estruturas sólidas, processos claros e ambientes onde a confiança se constrói através do mérito, da clareza e da coerência — valores que considero essenciais, independentemente do género. Tenho oportunidade de o demonstrar diariamente na Luso Digital Assets, Lda., onde existe total confiança no meu trabalho e um elevado nível de respeito profissional, independentemente de todos os restantes cargos de liderança serem desempenhados por homens. Já na LuxReg Solutions, Lda., lidero uma equipa atualmente composta por homens e mulheres, o que imprime uma dinâmica diferente, mas igualmente assente em rigor, clareza e responsabilidade.
Que desafios específicos enfrentou enquanto mulher no seu setor de atuação e como os transformou em oportunidades?
No meu setor de atuação, os principais desafios não estiveram tanto associados a obstáculos formais, mas a expectativas implícitas. Em contextos ainda maioritariamente masculinos, senti que, enquanto mulher, era frequentemente exigido um nível acrescido e contínuo de demonstração de competência, firmeza e consistência para que a autoridade técnica fosse plenamente reconhecida, sendo por vezes menos ouvida nos momentos iniciais. Em alguns casos, a idade reforçou essa perceção. Transformei esses desafios em oportunidades ao adotar uma abordagem assente em rigor, preparação irrepreensível e atuação pela diferença, em detrimento de seguir o padrão dominante. Em vez de procurar corresponder a estereótipos de liderança, concentrei-me na construção de credibilidade através de decisões fundamentadas, processos bem estruturados e de uma postura ética predominante. Esse percurso permitiu-me afirmar um estilo de liderança próprio, mais consciente e orientado para a responsabilidade, no qual a confiança se constrói pelo mérito e pela coerência entre discurso e ação. Hoje encaro esses desafios como parte integrante de um percurso que contribuiu para o desenvolvimento de uma liderança mais sólida, pragmática e resiliente, capaz de gerar impacto sustentável nas organizações em que atuo.
A liderança feminina é muitas vezes associada a empatia, ética e visão estratégica. Considera que estas características fazem hoje a diferença num contexto empresarial cada vez mais regulado e exigente?
A empatia, a ética e a visão estratégica não são características exclusivas da liderança feminina, mas tornaram-se hoje competências essenciais num contexto empresarial cada vez mais regulado, exigente e exposto ao escrutínio público. Em ambientes onde o risco, a conformidade e a tomada de decisão responsável são determinantes, a capacidade de compreender impactos, antecipar consequências e agir com integridade faz uma diferença real. A liderança que integra empatia com rigor técnico, ética com responsabilidade e visão estratégica com execução consistente permite construir organizações mais sustentáveis, resilientes e alinhadas com as exigências regulatórias e sociais atuais. Nesse sentido, modelos de liderança tradicionalmente associados ao feminino têm vindo a revelar-se particularmente eficazes, não por uma questão de género, mas pela sua adequação às necessidades do contexto empresarial contemporâneo.
Que barreiras estruturais ainda persistem para as mulheres que ambicionam cargos de topo e que mudanças considera urgentes para acelerar a igualdade na liderança?
As principais barreiras que ainda persistem não são apenas individuais, mas sobretudo estruturais. Continuam a existir modelos de liderança e de progressão profissional desenhados a partir de pressupostos pouco compatíveis com diversidade real, onde a disponibilidade total, a informalidade dos círculos de decisão e a avaliação subjetiva do potencial tendem a favorecer perfis já consolidados no poder. A isto soma-se, em muitos contextos, uma menor tolerância ao erro quando este é cometido por mulheres, o que condiciona o acesso a funções de topo. Para acelerar a igualdade na liderança, considero urgente uma mudança ao nível da cultura organizacional e dos processos de decisão. Isso passa por critérios de avaliação mais objetivos, transparência nos percursos de progressão, responsabilização efetiva das lideranças pela diversidade e pela inclusão, e pela criação de ambientes onde a competência, a ética e a capacidade de decisão sejam os verdadeiros fatores de reconhecimento, em detrimento do género. A igualdade na liderança não se constrói apenas com intenções, mas com estruturas que permitam que o talento avance de forma justa e sustentável.
No seu percurso, houve algum momento decisivo em que teve de provar mais do que o esperado apenas por ser mulher? Como lidou com essa pressão?
Ao longo do meu percurso existiram, naturalmente, momentos em que senti a necessidade de demonstrar mais do que o esperado para que a minha autoridade técnica fosse plenamente reconhecida. Esses momentos não se manifestaram de forma explícita, mas em contextos subtis, nos quais a perceção associada à imagem feminina ainda tem um peso relevante, tornando a validação mais exigente e o nível de escrutínio superior, sobretudo em ambientes maioritariamente masculinos e altamente técnicos. Lidei com essa pressão de forma pragmática, investindo de forma consistente na preparação, na clareza das decisões e na solidez da execução. Em vez de reagir à pressão, optei por responder com ética e resultados sustentados ao longo do tempo. Essa postura permitiu-me transformar a exigência acrescida num fator de fortalecimento profissional e pessoal, consolidando um estilo de liderança mais seguro, consciente e resiliente, onde a confiança se constrói pelo trabalho realizado e não pela necessidade de afirmação.
A conciliação entre vida pessoal e profissional continua a ser um dos maiores desafios para as mulheres líderes. Como gere esse equilíbrio e que mensagem deixa às organizações sobre este tema?
A conciliação entre vida pessoal e profissional não é um estado fixo de equilíbrio, mas um exercício contínuo de ajustamento. Ao longo do meu percurso, aprendi que gerir esse equilíbrio passa menos por tentar fazer tudo e mais por definir prioridades claras, estabelecer limites e assumir, com consciência, que diferentes fases exigem diferentes níveis de foco e disponibilidade. Enquanto líder, procuro gerir esse equilíbrio com responsabilidade e intencionalidade, valorizando organização, planeamento e clareza de expectativas, tanto a nível pessoal como profissional. Acredito que as organizações têm um papel decisivo neste tema: não através de discursos, mas através de culturas que respeitem o tempo, promovam flexibilidade responsável, avaliem pelo resultado e não pela presença constante e reconheçam que o bem-estar dos líderes e das equipas é um fator crítico de sustentabilidade e desempenho a longo prazo.
Como Fundadora e CEO, que valores procura promover na sua empresa para garantir diversidade, inclusão e igualdade de oportunidades?
Enquanto Fundadora e CEO, procuro promover valores que se traduzem em práticas reais e não apenas em intenções. A diversidade, a inclusão e a igualdade de oportunidades começam, para mim, por critérios claros de mérito, transparência nos processos e decisões fundamentadas. Acredito que ambientes verdadeiramente inclusivos são aqueles onde as pessoas sabem o que é esperado delas, como são avaliadas e quais os caminhos possíveis de crescimento. A LuxReg Solutions, Lda, valoriza uma cultura assente em respeito, responsabilidade, rigor profissional e autonomia, onde a diversidade de perfis e de pensamento é vista como um fator de enriquecimento e não como um desafio a gerir. Procuro garantir que todos têm espaço para contribuir, questionar e evoluir, independentemente do género, idade ou percurso, criando condições para que o talento se afirme pela competência, pela ética e pela consistência. Para mim, a igualdade de oportunidades constrói-se diariamente, através de liderança consciente, processos justos e coerência entre valores e ação.
Que conselhos daria às jovens mulheres que desejam construir uma carreira de liderança em áreas altamente técnicas, reguladas ou tradicionalmente dominadas por homens?
A principal recomendação que deixaria é o investimento sério e consistente na preparação técnica e no rigor profissional. Em áreas altamente técnicas e reguladas, o conhecimento sólido continua a ser o principal fator de autonomia, credibilidade e autoridade. Quanto mais robusta for a base técnica, menor será a dependência de validação externa e maior a liberdade para decidir, influenciar e liderar. Acrescentaria ainda a importância de desenvolver clareza interna, resiliência e capacidade de estabelecer limites. Nem todos os contextos serão imediatos ou justos no reconhecimento, e haverá momentos em que será necessário demonstrar mais. Ainda assim, é essencial não confundir adaptação com perda de identidade. Liderar não passa por replicar modelos existentes, mas por construir um percurso próprio, distintivo e sustentado. O espaço na liderança constrói-se com tempo, consistência e escolhas conscientes — e não com pressa ou necessidade de aprovação.
Se pudesse deixar uma mensagem neste Dia Internacional da Mulher, qual seria o principal apelo às empresas, decisores e à sociedade sobre o papel das mulheres na liderança do futuro?
A mensagem que deixo neste Dia Internacional da Mulher é um apelo à responsabilidade coletiva na forma como a liderança é pensada, avaliada e promovida. O futuro das organizações exige líderes capazes de integrar rigor, ética, visão estratégica e consciência do impacto das decisões, aliados a condições justas de reconhecimento, nomeadamente uma remuneração consistente e equitativa. As mulheres têm demonstrado, de forma clara e consistente, essa capacidade sempre que lhes é concedido espaço real para liderar. Às empresas e órgãos de decisão, o apelo é inequívoco: não basta abrir portas. É essencial rever estruturas, critérios e culturas organizacionais para que o talento feminino possa exercer liderança com autonomia, autoridade e continuidade. À sociedade, deixo a mensagem de que a liderança do futuro não se constrói através de exceções simbólicas, mas com oportunidades reais, reconhecimento baseado no mérito e confiança sustentada no tempo. A igualdade na liderança não é apenas uma questão de justiça social — é uma condição essencial para organizações mais sólidas, responsáveis e preparadas para os desafios que temos pela frente. A verdadeira liderança não é sobre controlo, mas sobre coerência entre quem somos, o que fazemos e o impacto que deixamos.