“A Mulher pode ser um agente da Mudança”
E se o verdadeiro progresso não estivesse na tecnologia, nos rankings ou nos números de crescimento — mas na forma como tratamos as pessoas?
É com esta provocação silenciosa que se entra na entrevista com Regina Freitas, Médica e Diretora Clínica da Medicser. Uma conversa que começa na saúde, passa pela liderança e acaba num território mais profundo: o da consciência coletiva. “Gostaria de ver um mundo mais justo, mais empático e mais consciente, onde as mulheres não tenham de escolher entre ser profissionais ou ser pessoas”, afirma a nossa entrevistada. A frase não soa a slogan. Soa a urgência. A experiência vivida. A realidade ainda não resolvida.
Num cenário onde a exigência profissional continua a ser desenhada por padrões pouco compatíveis com a vida real, Regina Freitas desafia o paradigma. Questiona o modelo que romantiza a disponibilidade total, que premeia a resistência ao cansaço e que ainda coloca sobre as mulheres o peso invisível de uma escolha que não deveria existir. Esta não é apenas uma entrevista sobre medicina, saúde ou gestão clínica. É uma reflexão sobre o tipo de mundo que estamos a construir — e sobre a coragem necessária para o transformar.
O Dia Internacional da Mulher é um momento de reflexão e ação. Enquanto Médica e Mulher, que significado pessoal e profissional tem para si o 8 de março?
O 8 de março não é um dia simbólico. É um lembrete. Lembra-me que nada foi garantido.
Que muitas mulheres antes de nós abriram caminho enfrentando resistência real. Para mim, é um dia de responsabilidade. Porque igualdade não se celebra, constrói-se. E constrói-se todos os dias, sobretudo quando ninguém está a aplaudir.
A Medicina é, historicamente, uma área exigente e de grande responsabilidade. Como tem sido o seu percurso enquanto mulher na área da saúde e de que forma sente que a sua presença contribui para uma prática médica mais humana e próxima?
Foi exigente. E foi solitário em muitos momentos. Comecei na enfermagem e depois decidi tornar-me médica. Trabalhei, estudei, fui mãe e mantive a ambição intacta. Não houve atalhos. Ser mulher na medicina significa, muitas vezes, ter de provar competência mais vezes. Ter de mostrar disponibilidade constante. Ter de ser firme sem ser rotulada. Aprendi cedo que ninguém me iria oferecer espaço. Tive de o conquistar. E essa conquista deu-me estrutura.
A Medicina Geral e Familiar coloca o médico muito próximo das pessoas e das suas realidades. De que forma o olhar feminino influencia a relação médico-doente e a abordagem aos cuidados de saúde?
A Medicina Geral e Familiar exige proximidade e responsabilidade. O chamado olhar feminino traduz-se em capacidade de leitura global: perceber o contexto, o não dito, a dimensão emocional e social da doença. A minha prática é rigorosa e humana.
Escuto com atenção. Decido com firmeza. O doente não é um diagnóstico.
E liderança clínica não tem género, tem competência.
Hoje assistimos a uma presença cada vez maior de mulheres na área da saúde. Considera que esta realidade trouxe mudanças estruturais na forma como a saúde é pensada, gerida e praticada? Se sim, quais?
Sem dúvida. A presença crescente de mulheres trouxe uma maior valorização do trabalho em equipa, da comunicação, da conciliação entre vida pessoal e profissional e da atenção à saúde preventiva. Houve também um reforço da humanização dos cuidados e uma maior sensibilidade para temas como saúde da mulher, saúde mental e bem-estar global, que hoje ocupam um espaço mais central na prática clínica.
Ao longo do seu percurso, certamente enfrentou desafios e obstáculos. Quais foram os maiores desafios que sentiu enquanto mulher médica e empreendedora, e como conseguiu superá-los?
Ser mulher médica e empreendedora foi escolher crescer sem abdicar de quem sou. O maior desafio não foi a carga de trabalho, foi manter a minha identidade num meio onde, muitas vezes, se espera que a mulher se ajuste ou se torne mais pequena para caber. Eu escolhi não caber. Escolhi construir.
Como Diretora Clínica da Medicser, o que a motiva neste projeto e que valores femininos considera estarem presentes na sua génese e na sua orgânica quotidiana?
A Medicser é independência construída. Não nasceu de facilidades. Nasceu de visão e disciplina. De horas invisíveis de trabalho. De decisões difíceis. É um espaço onde a medicina não é feita em modo automático. É feita com estratégia, rigor e autoridade clínica. E liderança, para mim, não é agradar. É assumir responsabilidade.
Apesar dos avanços, as mulheres continuam a enfrentar desigualdades, tanto no mundo profissional como pessoal. Na sua opinião, quais são hoje os principais obstáculos que as mulheres ainda enfrentam na sociedade e no mercado de trabalho?
Preparem-se tecnicamente. Estudem. Estruturem-se. Mas não se anulem para serem aceites. Não peçam desculpa por serem firmes. Não diminuam a ambição para proteger o conforto dos outros. E não confundam sensibilidade com fragilidade. Competência é a base. Carácter é a diferença.
O crescimento pessoal e profissional das mulheres tem sido uma conquista contínua. Que papel acredita que a educação, a saúde e a autonomia desempenham nesse crescimento?
A educação abre horizontes. A saúde sustenta a força. A autonomia liberta escolhas. Quando estes pilares estão presentes, a mulher cresce inteira, consciente, confiante e capaz de construir o seu próprio caminho, com verdade e propósito.
Como mulher, médica e líder, que mensagem considera essencial transmitir às mulheres que estão a iniciar agora o seu percurso profissional, especialmente nas áreas da saúde?
Diria para acreditarem na sua competência, mesmo quando duvidam. Para não se anularem, para pedirem ajuda quando necessário e para não confundirem sensibilidade com fragilidade. A medicina precisa de profissionais tecnicamente competentes, mas também humanas, éticas e inteiras.
Para terminar, olhando para o futuro, que mundo gostaria de ver construído pelas mulheres e para as mulheres, e que papel acredita que cada uma pode ter nessa transformação?
Gostaria de ver um mundo mais justo, mais empático e mais consciente, onde as mulheres não tenham de escolher entre ser profissionais ou ser pessoas. Acredito que cada mulher, através das suas escolhas diárias, da sua voz e do seu exemplo, pode ser agente de mudança. A transformação começa em cada uma de nós, mas só ganha força quando é coletiva.