“Quero ajudar as Pessoas como um Todo e não em partes”
Num tempo em que a saúde mental deixou de ser um tema silencioso para se tornar uma prioridade urgente, Ana Sofia Dias surge como uma voz de equilíbrio, consciência e transformação. Terapeuta Transpessoal e Fundadora do projeto Integra, dedica o seu trabalho a ajudar pessoas a reconectarem-se consigo próprias, promovendo bem-estar emocional, autoconhecimento e crescimento interior. Nesta entrevista à Business Voice partilha a sua visão sobre os desafios da saúde mental na sociedade atual e a importância de olharmos para o ser humano de forma integrada, mais consciente e humana.
O projeto Integra nasce com uma proposta de desenvolvimento pessoal e terapêutico. Como surgiu esta iniciativa e que propósito procura cumprir na vida das pessoas?
O projeto Integra nasceu de uma longa jornada pessoal, sinto que tudo o que vivi culminou neste projeto. Sempre fui alguém a quem os outros confiavam facilmente as suas histórias e sempre senti um interesse genuíno em ouvir para poder ajudar.
Eu própria frequentei um consultório de psicologia/psicoterapia em três momentos distintos da minha vida, o que me ajudou a ser quem sou hoje, mas sentia que me faltava sempre algo. Com o tempo, procurei outras terapias que complementassem o meu processo de autoconhecimento. Foi após uma fase de grandes mudanças na minha vida que encontrei a Terapia Transpessoal e, consequentemente, o curso que representou o ponto alto da minha transformação. O nome do projeto surgiu num diálogo com uma amiga, o termo Integra permite fazer vários jogos de palavras, como "Integra-mente", "Integra-corpo" ou "Integra-emoção", o que reflete a essência desta abordagem. O propósito deste projeto é ajudar as pessoas como um todo e não em partes.
Para quem ainda não conhece, como explicaria de forma simples o que é a Terapia Transpessoal e o que a distingue de outras abordagens terapêuticas?
A Terapia Transpessoal é uma abordagem integrativa, ética e não religiosa, que trabalha o ser humano de uma forma global. Isto significa que considera o corpo, as emoções, os pensamentos, a história de vida, os padrões internos e o sentido que cada um atribui à sua existência. O objetivo é ajudar a pessoa a compreender, regular e integrar a sua experiência de vida de forma segura e prática.
O que a distingue de outras terapias é a sua abrangência. Enquanto muitas outras terapias se focam somente nos pensamentos, comportamentos e na história pessoal, a Terapia Transpessoal vai mais longe:
- Integra o corpo como portador de memórias;
- Analisa os padrões automáticos de proteção;
- Resolve conflitos internos;
- Apoia em crises de sentido e identidade.
Ela não substitui outras metodologias, complementa-as.
A Terapia Transpessoal propõe uma visão integrada do ser humano, unindo mente, corpo e dimensão espiritual. De que forma esta abordagem pode ajudar as pessoas a encontrar maior equilíbrio e sentido na vida?
Primeiro, vou esclarecer o que é o espiritual/ espírito porque, hoje em dia, quando se ouve esta palavra ou pensa-se em religião ou em alguém que tem um dom ou um sexto sentido mais apurado. Há pouco tempo ouvi um formador e autor de vários livros, Luís Martins Simões a indicar que é importante esclarecer que espirito etimologicamente deriva do latim spiritus, que significa literalmente "sopro", "ar" ou "respiração".
Este termo latino provém do verbo spirare (soprar/respirar). Na antiguidade, a ligação entre a vida e o fôlego era absoluta: enquanto o corpo respirava, a "centelha vital" estava presente; quando o sopro parava, a vida partia.
Na minha perspetiva, eu penso que a Terapia Transpessoal consegue nos conectar com a raiz do trauma, que foi criado nos primeiros 7 anos de vida. E ao trabalharmos a raiz do problema - sempre que algo nos faça despertar um gatilho que possa estar ligado a um evento traumático - o que é feito em terapia é que com diferentes técnicas vamos modificar a forma como reagimos. O trauma nunca se sana, ou seja, nunca se apaga, mas a forma como eu reajo sempre que me tocarem na ferida é que pode ser trabalhada. E ao fazermos este trabalho de raiz, mexemos em tudo o que nos liga, na forma como respiramos, como estamos presentes no dia-a-dia, nas dores que transportamos no físico por emoções reprimidas, na forma como percecionamos os outros… no fundo quando se trabalha a raiz do problema, tudo se altera em nós – na mente, corpo e emoção.
Vivemos numa altura em que os temas da saúde mental estão cada vez mais presentes. Que tipo de desafios emocionais ou existenciais chegam hoje com mais frequência até si?
Sim, penso que vivemos uma época em que se fala muito na atenção que também devemos dar a essa área da nossa vida, porque na verdade se vamos ao médico porque nos doí algo ou porque queremos verificar se está tudo em ordem com os restantes órgãos, porque é que não damos o mesmo nível de atenção à nossa mente/ emoções? Contudo, este nível de terapias não é acessível a toda a gente e num futuro a curto prazo gostava de abrir uma vaga para acompanhar alguém que não tenha possibilidades de pagar uma terapia destas e acompanhá-lo por um valor bastante inferior. Foi ideia de uma colega de curso e achei super interessante e se todos nós na área da saúde mental, abríssemos uma vaga para acompanhar alguém numa situação precária, criaríamos muito mais impacto.
Porém, a questão mais frequente que chega até mim são sobre relações, principalmente amorosas. Não porque o amor não existe ou porque é difícil partilhar/ conviver com o outro, mas porque é nas relações com o outro, um a um, na partilha da casa, no convívio diário, na rotina, nas decisões a dois, que vamos “reviver/ reavivar” os padrões que criamos entre o “Eu” e os meus pais/ tutores. Um dos meus formadores é terapeuta de casal transpessoal e um dia ele partilhou que a terapia de casal que ele faz, não é em casal, é individual com cada elemento do casal. Na altura aquilo fez-me um pouco de confusão, porque eu própria também já fiz terapia de casal e ajudou muito. No entanto, a verdade é um clichê que é real, antes de existir um Nós, existe um Eu ou neste caso dois Eu’s, então temos de trabalhar estes Eu’s individuais, os seus traumas, as suas crenças, o que for necessário para depois existir um maior entendimento do “Nós”.
De que forma a Terapia Transpessoal pode contribuir para responder a problemáticas como ansiedade, stress ou vazio existencial, que marcam a sociedade contemporânea?
A sociedade atual, marcada pela aceleração e pela pressão constante, conduz frequentemente o indivíduo a estados de ansiedade, stress e a um profundo vazio existencial. A Terapia Transpessoal surge como uma resposta eficaz a estas problemáticas porque não isola o sintoma da pessoa, nem reduz o ser humano a uma única dimensão. Esta terapia foca-se na reorganização interna. A ansiedade e o stress são vistas como sinais de um sistema em desequilíbrio.
A terapia transpessoal funciona porque:
- Integra corpo, mente e emoções: Não trata apenas ansiedade, mas ajuda a pessoa a reconhecer como essa ansiedade se manifesta no corpo.
- Trabalha padrões, não apenas sintomas: Identifica os mecanismos repetitivos que geram a exaustão, o que permite uma mudança duradoura em vez de um alívio passageiro.
- Promove a regulação: O objetivo é que o cliente desenvolva autonomia e consciência, de forma a evitar a dependência do processo terapêutico.
Contudo, também há muitas pessoas que atravessam crises de sentido onde "apenas falar" parece insuficiente. A Terapia Transpessoal é ideal para estes casos, pois:
- Respeita a crise como um processo de crescimento: Procura a integração e a clareza, o que ajuda a transformar o vazio numa oportunidade de reconexão.
- Aborda o ser humano na sua totalidade: Sem impor interpretações espirituais ou religiosas, o terapeuta trabalha com a experiência direta do cliente, o que valida o seu percurso individual.
O sucesso desta abordagem reside no seu princípio ético e colaborativo. O terapeuta atua como um facilitador que respeita o ritmo de cada um. Este método serve para quem procura uma ligação autêntica entre a mente e o corpo, e para quem deseja viver com maior clareza, sem se submeter a interpretações externas.
O autoconhecimento é frequentemente apontado como uma das bases desta abordagem. Porque é que olhar para dentro continua a ser um dos maiores desafios das pessoas?
Muitas vezes, evitamos "olhar para dentro" por medo de encarar as nossas sombras — aquelas partes de nós que rejeitamos, como traumas, falhas ou desejos reprimidos. Esse olhar obriga-nos a ver a verdade sem filtros, e nem sempre existe preparação imediata para o que essa clareza revela.
Além disso, o nosso cérebro prefere poupar energia. É muito mais fácil repetir padrões (mesmo que prejudiciais) do que analisar as causas dos nossos atos. Mudar exige esforço e desconforto, a maioria das pessoas prefere a segurança do conhecido, ainda que este traga sofrimento. Por exemplo: se alguém viveu toda a vida sobre mentiras, quem será essa pessoa sem mentir? Ao desvincular-se de um padrão, a pessoa muda e cria impacto em tudo o que a rodeia.
Muitas pessoas "sabem" racionalmente qual é o seu problema, mas não o "sentem" nem o integram no corpo. A Terapia Transpessoal atravessa a barreira da mente para chegar à experiência real, o que pode ser desafiante, pois envolve o contacto com emoções guardadas durante anos.
Para quem sente que precisa de apoio, mas ainda tem dúvidas ou receios em iniciar um processo terapêutico, que mensagem deixaria sobre a importância de cuidar da saúde mental?
Vivemos num mundo desenhado para nos manter focados no exterior. Notificações, redes sociais e o excesso de trabalho funcionam como um analgésico. Por isso, persiste a ideia errada de que a terapia serve apenas para situações limite. Na verdade, cuidar da mente é como cuidar do corpo: é muito melhor fazer a manutenção do que esperar por uma avaria total.
Na Terapia Transpessoal, o terapeuta não avalia as suas escolhas. O seu papel é ajudar a que essas decisões passem a ser mais íntegras e conscientes, em vez de serem fruto do stress ou de hábitos antigos. É um espaço de segurança absoluta.
Cuidar da saúde mental é dar voz ao que o corpo tenta dizer há algum tempo através da ansiedade, do cansaço ou mesmo de doenças. Ignorar estes sinais é como ignorar fumo dentro de casa, o problema não desaparece só porque fechamos as portas e as janelas. Dar o primeiro passo é um gesto de enorme respeito pela sua própria história e pelo seu bem-estar futuro.