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“Queremos que deixe de ser exceção ver Mulheres a liderar negócios, e que passe a ser o normal”

Num tempo em que a inovação já não se mede apenas pela tecnologia, mas pela capacidade de transformar pessoas, criar impacto e desafiar modelos tradicionais de liderança, Nádia Leitão destaca-se como uma das figuras mais influentes e disruptivas do atual ecossistema empreendedor português. Com uma visão profundamente humana, estratégica e orientada para o futuro, tem vindo a afirmar-se na promoção do empreendedorismo, da inovação e da liderança feminina, defendendo uma nova cultura empresarial mais inclusiva, colaborativa e sustentável.
Enquanto Managing Director da Startup Barreiro e Cofundadora da iniciativa Dame Changers (Woman Summit), acredita que o verdadeiro crescimento económico nasce da valorização das pessoas, do talento e da criação de oportunidades reais para quem quer inovar e liderar. A sua abordagem à liderança afasta-se dos modelos rígidos e tradicionais, apostando antes na construção de ecossistemas onde criatividade, diversidade e visão estratégica convivem lado a lado.
Nesta entrevista, Nádia Leitão partilha a sua visão sobre o futuro do empreendedorismo, o papel das mulheres na transformação económica e os desafios de liderar num mundo em constante mudança. Assume que a sua forma de liderar é guiada pela proximidade, pela confiança e pela capacidade de potenciar talento: “A minha liderança é influenciada pela convicção de que, quando cuidamos do talento e lhe damos estrutura, a inovação e os resultados surgem de forma natural.”
Mais do que promover igualdade, o objetivo passa por redefinir aquilo que ainda hoje é visto como exceção no universo empresarial e tecnológico. A mensagem é clara, forte e transformadora: “Queremos que deixe de ser exceção ver mulheres a liderar negócios, tecnologia e transformação económica, e que passe a ser o normal.”

Enquanto mulher em posição de liderança no ecossistema empreendedor, que desafios considera ainda persistirem e como os tem superado ao longo do seu percurso?
Ao longo do meu percurso, enquanto mulher em liderança e construtora de ecossistemas, tenho percebido que o maior desafio do mundo do empreendedorismo não é a falta de talento feminino. Ele existe, e em grande quantidade.
O que muitas vezes falta são os acessos certos: às mesas onde se decidem investimentos, às redes de influência, às oportunidades que realmente fazem a diferença.
Vejo mulheres com ideias extraordinárias, visão estratégica e uma coragem enorme, mas que ficam pelo caminho porque não tiveram quem abrisse uma porta no momento certo.
Chegou um momento em que percebi que não fazia sentido apenas identificar o problema. Era preciso agir.
Foi dessa convicção que nasceu a Dame Changers (Woman Summit), iniciativa da qual sou cofundadora. A cimeira, que iniciou em março de 2026, em Cascais, nasce com uma ambição clara: criar um espaço onde talento, liderança feminina, capital e decisão económica se encontram de forma concreta.
Queremos que deixe de ser exceção ver mulheres a liderar negócios, tecnologia e transformação económica, e que passe a ser o normal.
No fundo, tudo o que faço parte do mesmo lugar: o desejo de ligar pessoas, conhecimento e oportunidades. Criar pontes. Abrir caminhos.
E garantir que o talento, especialmente o talento feminino, não fica invisível por falta de estrutura, rede ou confiança, mas tem as condições certas para prosperar e transformar o ecossistema de forma mais justa e inclusiva.

A liderança feminina tem vindo a ganhar cada vez mais destaque. Na sua perspetiva, que características diferenciadoras é que as mulheres aportam à gestão de projetos e equipas?
Ao longo de mais de vinte anos, aprendi uma coisa essencial: liderança não tem género.
Há mulheres profundamente hierárquicas e autoritárias, tal como há homens colaborativos, empáticos e orientados para as pessoas.
O que muda não é quem somos, mas os modelos de liderança que fomos socializados a repetir, e o espaço que hoje temos para os questionar.
Dito isto, aquilo que tenho observado repetidamente é que muitas mulheres acabam por trazer para a gestão abordagens que respondem melhor às exigências das organizações contemporâneas.
Não por virtude natural, mas muitas vezes por percurso, contexto e experiência vivida.
Durante muito tempo, os modelos dominantes de gestão foram rígidos, verticais e focados quase exclusivamente em resultados de curto prazo.
Esses modelos funcionaram, e continuam a funcionar, em determinados contextos. Mas não são os únicos possíveis.
Hoje, as organizações são mais complexas, interdependentes e humanas. Exigem lideranças capazes de equilibrar resultados com relação, estratégia com empatia, decisão com escuta.
É neste enquadramento que certos estilos de liderança, mais frequentemente adotados por mulheres, ganham visibilidade e relevância.
Um desses estilos passa por uma maior atenção às dimensões emocionais e relacionais do trabalho. Não se trata de “liderar com o coração” no sentido romântico da expressão, mas de compreender que desempenho sustentável nasce de relações funcionais. Quando as pessoas se sentem respeitadas e envolvidas, o compromisso aumenta e os resultados seguem o mesmo caminho.
Outro aspeto recorrente é a valorização de modelos mais colaborativos e horizontais.
Mais uma vez, não exclusivos das mulheres, mas frequentemente praticados por elas. Este tipo de liderança não elimina a responsabilidade nem a tomada de decisão, redistribui-a de forma mais inteligente.
Há ainda uma dimensão que merece ser referida sem romantização: a resiliência.
O percurso das mulheres no mercado de trabalho tem sido, historicamente, menos linear e mais exigente. Isso não cria líderes “melhores”, mas tende a criar líderes mais adaptáveis, com maior capacidade de ler contextos, gerir múltiplas pressões e transformar limitações em soluções práticas. Num mundo instável, essa competência é particularmente valiosa.
No fundo, falar de liderança feminina não é exaltar um género em detrimento do outro.
É reconhecer que existem formas diferentes de exercer poder e influência, e que o momento atual pede lideranças menos centradas no controlo e mais focadas na construção.
As organizações não precisam de líderes mais duros ou mais suaves. Precisam de líderes mais conscientes.

De que forma é que o seu papel enquanto mulher influencia a sua abordagem à liderança e à forma como apoia empreendedores na Startup Barreiro?
O facto de ser mulher influencia a minha liderança sobretudo na forma como coloco as pessoas no centro do processo. Não vejo isso como algo exclusivo de um género, mas como uma abordagem que fui construindo ao longo do meu percurso e que hoje considero essencial para trabalhar inovação de forma sustentável.
Na StartUp Barreiro, isso traduz‑se na forma como apoio os empreendedores: não fico apenas pelo plano de negócios ou pelos números. 
Procuro perceber quem está por trás da ideia, como lida com a pressão, com a incerteza e com o erro. Criar um ambiente de confiança e segurança psicológica é fundamental para que os fundadores consigam aprender, ajustar e continuar a avançar.
Ao mesmo tempo, valorizo muito a colaboração. Acredito que as startups crescem mais rápido quando fazem parte de redes fortes e não quando competem isoladamente.
O meu papel passa por criar essas pontes, entre empreendedores, investidores, universidades e território, sempre com uma visão humana, estruturada e orientada para o longo prazo.
No fundo, a minha liderança é influenciada pela convicção de que, quando cuidamos do talento e lhe damos estrutura, a inovação e os resultados surgem de forma natural.

A proximidade no acompanhamento aos empreendedores é muitas vezes apontada como um fator crítico de sucesso. Como é que a Startup Barreiro garante esse apoio próximo e personalizado?
O apoio próximo e personalizado assenta num acompanhamento prático e contínuo, sempre respeitando o princípio de que a iniciativa, as decisões e o risco são do empreendedor. O nosso papel é acompanhar, estruturar e potenciar, nunca substituir.
Cada projeto é seguido através de reuniões regulares de incubação e follow‑up, onde trabalhamos lado a lado com os fundadores na estruturação do negócio, na preparação de pitches e em momentos críticos, como o lançamento de novos produtos.
Os empreendedores têm também acesso a mentoria especializada, acionada conforme necessidades concretas, através de um HelpDesk que garante encaminhamento eficaz e acompanhamento por parte da coordenação.
Promovemos ainda sinergias internas entre startups incubadas, incentivando a colaboração e a partilha de competências, bem como a integração dos projetos em eventos e redes externas, dando‑lhes visibilidade e acesso a oportunidades reais.
O acompanhamento estende‑se também às dimensões ética e profissional, assegurando que os projetos cumprem os princípios e responsabilidades da incubação.
No fundo, garantimos proximidade sem paternalismo: damos estrutura, acesso e contexto, mas é o empreendedor quem lidera o caminho e assume o crescimento do seu negócio.

Definir expectativas claras desde o início pode ser determinante para o sucesso de um projeto. Que metodologias ou práticas utilizam para alinhar objetivos com os empreendedores?
O alinhamento de expectativas começa logo no início do processo de incubação. Desde o primeiro contacto, deixamos claro o que o empreendedor pode esperar da incubadora, e, sobretudo, o que a incubadora espera dele.
A iniciativa, as decisões e o risco pertencem sempre ao fundador; o nosso papel é dar estrutura, acompanhamento e acesso ao ecossistema.
Nos primeiros momentos, ajudamos os empreendedores a clarificar objetivos, prioridades e métricas realistas, evitando falsas expectativas sobre timings, financiamento ou crescimento.
Acima de tudo, promovemos uma cultura de responsabilidade mútua e transparência.
O sucesso do projeto depende do compromisso do empreendedor, mas acreditamos que expectativas claras, trabalhadas desde o início, criam bases muito mais sólidas para decisões conscientes, crescimento sustentável e relações de confiança ao longo do percurso.

Num contexto onde muitos projetos enfrentam dispersão estratégica, como ajudam as startups a manter o foco e a desenvolver uma estratégia sólida de crescimento?
Num contexto onde tudo parece urgente, ajudar as startups a manter o foco começa por criar clareza. Muitas vezes, a dispersão surge porque os empreendedores tentam responder a demasiadas oportunidades ao mesmo tempo. O nosso papel é ajudá‑los a parar, priorizar e decidir com consciência.
Esse foco é mantido através de acompanhamento regular, onde questionamos decisões, avaliamos desvios e ajustamos o rumo quando necessário. Não promovemos estratégias rígidas, mas sim coerentes: tudo o que a startup faz deve contribuir, de forma clara, para o seu objetivo principal naquele momento.
Acima de tudo, ajudamos os empreendedores a desenvolver pensamento estratégico e capacidade de escolha. Crescer de forma sólida não é fazer mais, é fazer melhor — e saber dizer “não” no timing certo.

Olhando para o futuro, que impacto ambiciona que a Startup Barreiro continue a ter no desenvolvimento do ecossistema empreendedor e na criação de negócios sustentáveis?
O impacto que ambicionamos para a StartUp Barreiro passa, acima de tudo, por apoiar negócios que façam sentido no longo prazo, para quem empreende, para o território e para a sociedade.
Queremos continuar a ajudar a nascer projetos sustentáveis, atentos às alterações climáticas, à inovação tecnológica e às reais necessidades das pessoas.
Apostamos cada vez mais em soluções ligadas à sustentabilidade, à economia circular e à adoção consciente de tecnologia, como a Inteligência Artificial, sem perder a ligação ao contexto local.
Ao mesmo tempo, valorizamos projetos com impacto social concreto, que melhorem o dia a dia da comunidade e gerem valor económico real.
Outro pilar essencial é o contacto com as novas gerações, criando pontes entre empreendedores e estudantes, partilhando experiências e inspirando futuros projetos.
Queremos que a StartUp Barreiro continue a ser um espaço onde as ideias ganham estrutura, crescem com responsabilidade e contribuem para um ecossistema mais colaborativo, humano e preparado para o futuro.

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