“Escolhi Crescer, mesmo sem saber exatamente onde isso me iria levar”
Disseram às Mulheres, durante demasiado tempo, que precisavam de chegar a uma versão final de si mesmas. A versão certa. A equilibrada. A bem-sucedida. A preparada. A “completa”. Mas a verdade é outra: a Mulher não nasce para permanecer igual. Nasce para transformar-se.
E é precisamente nesse território de mudança, coragem e reconstrução que Sandra Cristina Ferreira ergue a sua voz. Fundadora da Épicas Hub, a nossa interlocutora representa uma geração de mulheres que deixou de pedir permissão para recomeçar. Mulheres que perceberam que reinventar-se não é perder identidade — é recuperá-la, vezes sem conta, ao longo da vida.
Nesta conversa intensa, humana e profundamente inspiradora, Sandra desafia a ideia de que existe um ponto de chegada. Porque a reinvenção não acontece uma única vez. Não tem idade. Não tem calendário. Não acontece apenas depois de uma crise, de um divórcio, de uma mudança de carreira ou de uma queda. A reinvenção acontece todos os dias, em cada escolha silenciosa de uma mulher que decide continuar a crescer.
“Acredito profundamente que a reinvenção é um processo contínuo. Não existe um momento final em que podemos dizer: ‘já está, agora estou completamente pronta’. Estamos sempre a evoluir, a aprender e a ajustar o nosso caminho.”
As suas palavras ecoam como um manifesto moderno sobre a condição feminina: a liberdade de mudar sem culpa, de evoluir sem justificações e de abandonar a pressão de ter tudo resolvido.
Porque talvez a maior revolução da mulher contemporânea seja esta: perceber que não precisa de ser uma obra concluída para ser extraordinária.
Esta entrevista não é apenas sobre empreendedorismo, liderança ou desenvolvimento pessoal. É sobre identidade. Sobre coragem. Sobre renascimento. E, acima de tudo, sobre a beleza poderosa de uma mulher que nunca deixa de se reinventar.
Ao longo da sua trajetória, houve um momento-chave em que sentiu que precisava de se reinventar. O que desencadeou essa mudança e como deu o primeiro passo?
Sem dúvida que o momento-chave aconteceu por volta dos meus 40 anos. Foi uma fase em que comecei a sentir uma estagnação muito grande. Por fora, a minha vida parecia organizada e segura, mas por dentro já existia um vazio difícil de ignorar. Sentia que estava a viver uma versão de mim demasiado limitada para aquilo que realmente queria construir.
Durante muitos anos trabalhei como técnica de marketing numa empresa onde estive cerca de 17 anos. Era um lugar seguro, conhecido, confortável. E às vezes o conforto é perigoso, porque acomoda-nos sem darmos conta. Chegou uma altura em que percebi que já não estava alinhada comigo própria nem com aquilo que desejava para o meu futuro.
Tomar a decisão de sair não foi nada fácil. Existia medo, insegurança e muitas dúvidas. Afinal, estava a deixar para trás uma estabilidade que muitas pessoas procuram a vida inteira. Mas ao mesmo tempo sentia que, se não arriscasse, ia continuar presa a uma vida que já não fazia sentido para mim.
O primeiro passo foi exatamente esse: decidir ouvir-me. Parar de ignorar aquilo que sentia. Depois disso começou um processo de crescimento muito intenso, mas também muito desafiante. Não foi uma transformação linear nem perfeita. Houve avanços, recuos, momentos de entusiasmo e outros de grande incerteza.
No fundo, tive de escolher entre permanecer na facilidade ou ir atrás de algo que me desafiasse verdadeiramente. Escolhi crescer, mesmo sem saber exatamente onde isso me iria levar.
Reinventar-se implica, muitas vezes, sair da zona de conforto. Quais foram os maiores desafios emocionais e práticos que enfrentou nesse processo?
Acho que o maior desafio foi precisamente avançar mesmo sentindo medo. Existe uma ideia muito romantizada da reinvenção, como se as pessoas tivessem sempre tudo planeado e soubessem exatamente o que estão a fazer. No meu caso, muitas vezes parecia que eu tinha certezas, mas a verdade é que estava a aprender tudo do zero.
Isso mexe muito connosco emocionalmente. Obriga-nos a confiar em nós próprias quando ainda não temos respostas, resultados ou garantias. Houve momentos em que questionei as minhas decisões, em que pensei se estaria realmente preparada para recomeçar.
Depois existe toda a parte prática, que também pesa bastante. Tomar decisões sem garantias financeiras, lidar com instabilidade, adaptar-me a novos ambientes, aprender competências diferentes e perceber como me posicionar num mundo completamente novo. Nada disso é simples.
Tive também de desenvolver uma grande capacidade de adaptação e de observação. Percebi rapidamente que ninguém nos entrega espaço ou reconhecimento. Temos de construir a nossa voz, afirmar a nossa presença e encontrar a nossa identidade.
Outro desafio importante foi aprender a lidar com a opinião dos outros. Quando mudamos de caminho, nem toda a gente compreende. Algumas pessoas apoiam, outras questionam, outras até projetam os seus próprios medos em nós.
No fundo, reinventar-me foi aprender a continuar a caminhar mesmo sem certezas absolutas. E honestamente, acho que essa foi uma das maiores lições da minha vida.
Que papel tiveram os erros ou fracassos na sua reinvenção? Houve algum que hoje reconheça como essencial para o seu crescimento?
Os erros tiveram um papel fundamental no meu percurso. Na altura custam sempre, claro. Existem decisões que parecem verdadeiros falhanços, sobretudo quando envolvem tempo, dinheiro, expectativas e investimento emocional.
Mas hoje consigo olhar para trás e perceber que foram precisamente esses momentos mais difíceis que mais me fizeram crescer. Os erros obrigaram-me a parar, a refletir, a questionar caminhos e a encontrar novas soluções.
Se tudo tivesse corrido sempre bem, provavelmente teria permanecido confortável no mesmo lugar. E hoje sei que conforto sem propósito não chega para me fazer feliz.
Muitas vezes aprendemos mais quando algo falha do que quando tudo funciona. Porque somos obrigadas a desenvolver resiliência, criatividade e maturidade emocional.
Mais do que perceber o que quero para a minha vida, os erros ensinaram-me muito claramente aquilo que já não quero aceitar. E isso acaba por ser extremamente importante.
Aprendi também que fracassar não significa perder valor. Significa apenas que estamos em movimento, a tentar, a experimentar e a crescer. Quem nunca falha normalmente também nunca arrisca verdadeiramente.
Como equilibra a sua identidade pessoal com as várias fases de transformação que viveu? Sente que se perdeu em algum momento ou, pelo contrário, encontrou-se?
Os meus valores nunca se perderam. Esses sempre fizeram parte de mim. Mas existiram fases em que me afastei bastante da minha essência e daquilo que realmente precisava.
A vida, as responsabilidades e até as expectativas externas podem fazer-nos viver em piloto automático durante muito tempo. E às vezes só percebemos isso quando começamos a sentir um vazio constante.
A transformação obriga-nos inevitavelmente a olhar para dentro. A fazer perguntas difíceis, como: quem sou eu hoje? O que me faz feliz? O que quero realmente para a minha vida?
E esse processo nem sempre é confortável, porque implica desapegarmo-nos de versões antigas de nós próprias. Versões que talvez já não façam sentido, mas às quais continuamos agarradas por hábito, medo ou insegurança.
No meu caso, sinto que a reinvenção acabou por ser um reencontro comigo mesma. Hoje conheço-me muito melhor. Sei mais claramente aquilo que valorizo, aquilo que tolero e aquilo que já não estou disposta a aceitar.
Não significa que tenha tudo resolvido. Acho que ninguém tem. Mas sinto-me muito mais alinhada comigo própria e deixei de ignorar aquilo que sinto.
Na sua opinião, o que distingue uma mulher que se reinventa de uma que permanece na mesma trajetória, mesmo diante de insatisfação?
Acredito que existem muitas mulheres infelizes em silêncio. Mulheres que continuam exatamente onde estão não por falta de capacidade, mas por medo, insegurança ou até por acreditarem que já é tarde para mudar.
Eu compreendo isso porque também já senti esse conflito interno. Aquela sensação de saber que algo não está bem, mas ao mesmo tempo não ter coragem para alterar a própria vida.
Na minha opinião, a mulher que se reinventa não é necessariamente mais forte ou mais corajosa do que as outras. A grande diferença é que chega um momento em que ela decide parar de ignorar aquilo que sente.
E isso muda tudo. Porque quando deixamos de fugir de nós próprias começamos finalmente a agir. Mesmo que devagar, mesmo com medo, mesmo sem certezas absolutas.
A transformação começa muito antes das grandes mudanças externas. Começa quando assumimos internamente que merecemos uma vida mais alinhada connosco.
Que conselhos daria a outras mulheres que sentem vontade de mudar de rumo, mas ainda não tiveram coragem para o fazer?
Diria para começarem, mesmo que devagar. Muitas vezes ficamos bloqueadas porque pensamos que precisamos mudar tudo de uma vez. E não é verdade.
Não esperem deixar de ter medo para agir, porque provavelmente esse medo vai existir durante muito tempo. O importante é não permitir que ele controle completamente a vossa vida.
Comecem pequeno. Experimentem algo novo. Deem um passo, depois outro. Às vezes basta uma pequena decisão para começarmos a recuperar confiança em nós próprias.
Costuma-se dizer que quem não arrisca não petisca, e eu acredito mesmo nisso. Mas também acredito que não precisamos construir uma revolução num único dia. Pequenos avanços consistentes podem transformar completamente uma vida.
Acima de tudo, acho importante percebermos que nunca é tarde para recomeçar, aprender ou descobrir novas versões de nós próprias.
Olhando para o futuro, acredita que a reinvenção é um processo contínuo? O que ainda gostaria de transformar ou alcançar na sua vida?
Acredito profundamente que a reinvenção é um processo contínuo. Não existe um momento final em que podemos dizer: “já está, agora estou completamente pronta”. Estamos sempre a evoluir, a aprender e a ajustar o nosso caminho.
Cada nova experiência, cada desafio e cada escolha acaba por nos transformar um pouco mais. E sinceramente, acho isso bonito. Significa que continuamos vivas, curiosas e abertas ao crescimento.
Quanto ao futuro, ainda tenho muita vontade de construir, criar impacto e levar a minha mensagem a mais mulheres. Sinto que existe ainda muito trabalho a fazer quando falamos de reinvenção feminina, autoestima, maturidade e propósito.
Quero continuar a desenvolver projetos que ajudem mulheres a sentirem-se mais vistas, valorizadas e confiantes nesta fase da vida.
Mas acima de tudo, quero continuar alinhada comigo própria. Porque para mim o verdadeiro sucesso não é apenas alcançar mais objetivos. É conseguir viver de forma autêntica, com verdade, propósito e liberdade interior.