Uma Voz Autêntica na Promoção da Saúde Mental
Na mais recente edição da Business Voice, tivemos a oportunidade de entrevistar Andreia Barbosa, Psicóloga e Fundadora do Consultório Andreia Barbosa – Psicóloga. Numa conversa franca, transparente e dinâmica, a nossa interlocutora partilhou a sua visão sobre os desafios atuais que envolvem a saúde mental, sublinhando a importância de quebrar estigmas, promover o autoconhecimento e criar espaço para o diálogo aberto. Um testemunho inspirador que reforça como a saúde psicológica é um pilar essencial para o equilíbrio pessoal e profissional.
Comecemos pelo essencial: Como define, na sua perspetiva clínica e humana, o que é ter saúde mental nos dias de hoje?
Na minha perspetiva clínica e humana, ter saúde mental hoje é muito mais do que não ter uma doença — significa ter capacidade de regular emoções, manter relações significativas, enfrentar desafios quotidianos e funcionar de forma adaptativa nas várias áreas da vida (trabalho, família, lazer). A saúde psicológica é um determinante central da saúde global e um recurso essencial para a vida quotidiana, tão importante como a saúde física. Envolve bem-estar emocional, funcionamento cognitivo ajustado e capacidade de contribuir positivamente para a comunidade. Em suma: ter saúde mental é viver com equilíbrio, significado e humanidade — não numa perfeição irreal, mas na capacidade de reconhecer que somos feitos de força e fragilidade, e que ambas podem coexistir de forma saudável.
Ainda que o tema esteja mais presente na sociedade, o estigma em torno da saúde mental continua forte. Porquê que acredita que ainda há tanto preconceito?
O estigma pode ser alimentado por crenças culturais, desinformação que associam sofrimento psíquico a fraqueza ou perigo. Estudos mostram que o estigma reduz a procura de ajuda e aumentar isolamento e a discriminação. Adicionalmente, as redes sociais e a linguagem popular por vezes minimizam problemas sérios (“é só stress”), o que pode reforçar também o preconceito. Ao longo da minha prática encontro muitas pessoas que internalizam expectativas irrealistas (ex.: “tenho que ser forte”, “consigo fazer tudo”) e preferem silenciar os sinais por medo do julgamento. A Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) tem alertado que atitudes negativas e estereótipos continuam a condicionar os pedidos de ajuda e a discriminação. É preciso informação de qualidade e ações sustentadas.
Enquanto Psicóloga, quais são os estigmas mais enraizados que encontra diariamente nos seus pacientes ou até em contextos profissionais?
Alguns dos estigmas mais frequentes: “Procurar o psicólogo é para pessoas ‘fracas’” — muitos acreditam que terapia é sinal de incapacidade, não de coragem; “Os problemas mentais são culpa do indivíduo” — atribuições morais (falta de força de vontade) que negam fatores contextuais; “Terapia é só falar, não resolve” — subestimação da eficácia das intervenções baseadas em evidência. No contexto profissional também há resistência a investir em saúde mental (medo de custos, receio de admitir problemas na organização). Estas crenças bloqueiam encaminhamentos e a criação de políticas preventivas. Há ainda muita necessidade de desmistificar com psicoeducação, divulgar a eficácia das terapias baseadas em evidência e promover testemunhos reais que ajudem a desconstruir.
Acredita que em Portugal a saúde mental ainda é vista como um tabu? Que mudanças têm sido mais visíveis nos últimos anos?
Sim, sobretudo em certas gerações e contextos profissionais. No entanto, considero que nos últimos anos notam-se mudanças positivas: há mais pessoas que falam publicamente de saúde mental e procuram ajuda. Têm-se assistido a um aumento de campanhas de sensibilização, a uma maior presença de temas de saúde mental na comunicação social e também a um crescimento da oferta privada de serviços neste âmbito. Ainda falta, contudo, equidade de acesso e integração nos cuidados de saúde primários.
A pandemia teve um impacto brutal na saúde mental global. O que mudou na forma como os portugueses encaram o apoio psicológico desde então?
A pandemia aumentou a procura por apoio psicológico e contribuiu em grande medida para o aumento da literacia em saúde mental — as pessoas passaram a saber reconhecer sintomas de algumas problemáticas e a perceber a importância de intervir precocemente. Acelerou também a aceitação das consultas de psicologia em formatos mais flexíveis (online/hibrido). Desde essa altura, noto maior abertura, menos vergonha em procurar ajuda e até preferência, muitas vezes, pela intervenção psicológica à distância.
Que papel têm as empresas e instituições na promoção da saúde mental coletiva?
Considero que têm um papel fundamental, na medida em que as empresas podem (e devem) criar ambientes de trabalho que previnam riscos psicossociais e promovam o bem-estar – através da criação de culturas de apoio, da formação em literacia emocional, apoio a líderes para gerir equipas e acesso a recursos como o apoio psicológico e/ou programas de prevenção. As intervenções ao nível organizacional permitem reduzir o absentismo, diminuem o burnout e aumentam a produtividade sustentável. A experiência prática mostra que programas breves, apoiados por acompanhamento psicológico e adaptados à cultura da organização, têm um impacto real e muito positivo.
Num país onde o acesso ao apoio psicológico ainda é desigual, o que falta fazer em termos de políticas públicas e investimento real na saúde mental?
Parece-me que falta um investimento sistemático nos cuidados de saúde primários para incluir psicólogos em equipas de cuidados de saúde locais; financiamento para consultas de psicologia para grupos vulneráveis; e programas de prevenção. Isto é, na prática, precisamos de mais psicólogos nos cuidados de saúde primários e também nos contextos escolares; subsídios ou comparticipação para as consultas de psicologia, de forma a diminuir as desigualdades de acesso; programas escolares e laborais de literacia em saúde mental; e, formação para profissionais de saúde. Já que os estudos demonstram que políticas que aliam a prevenção, a acessibilidade e a formação profissional geram maior impacto a médio e longo prazo.
Fala-se muito em autocuidado, mas muitas vezes de forma superficial. Como podemos resgatar o verdadeiro significado do autocuidado na vida moderna?
O autocuidado é um conjunto de práticas sustentadas que protegem a saúde mental (sono, limites, alimentação, rede de apoio) — e não apenas “momentos de luxo” esporádicos. Na minha prática clínica, costumo incluir e ensinar rituais simples e realistas: pausas intencionais, micro-rotinas de respiração, limites claros no trabalho e pequenos rituais diários que alimentem a autoestima. O autocuidado sustentável exige compromisso e apoio do contexto pessoal/familiar e laboral, do qual pertencemos. A OPP recomenda integrar o autocuidado em políticas organizacionais (pausas, flexibilidade) e promover estas práticas sem culpa, uma vez que a aplicação de programas que transformam hábitos têm efeitos duradouros.
Há um crescimento visível da procura por psicoterapia, especialmente entre os mais jovens. Isso é sinal de maior fragilidade… ou de maior consciência?
Na minha opinião, é sobretudo sinal de maior consciência, de vontade de gerir problemas precocemente e, de menor tolerância ao sofrimento não tratado. Os jovens têm mais literacia digital e são muitas vezes mais expostos a assuntos sobre saúde mental; por isso, com maior facilidade identificam sintomas e procuram ajuda. Atualmente, encontro jovens mais informados e proativos. Contudo, o desafio é garantir a qualidade, a continuidade e acessibilidade destes ao apoio psicológico.
Para quem ainda sente medo ou vergonha de procurar ajuda psicológica, que mensagem gostaria de deixar?
Gostaria de dizer, com toda a convicção: pedir ajuda é um ato de coragem, de responsabilidade e até de autocuidado. Procurar um psicólogo não é sinal de fraqueza; é uma forma inteligente de investir em si — na sua saúde, nas suas relações e no seu futuro. Procure informação fidedigna, fale com alguém de confiança ou experimente uma sessão — pode ser o primeiro passo para uma mudança duradoura. Saiba que pedir ajuda é um dos preditores mais fortes de recuperação e bem-estar. Neste sentido, a OPP disponibiliza recursos informativos e linhas de apoio — use-os como um primeiro passo para a mudança.