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“Temos de deixar de olhar para a Saúde Mental apenas quando surge a doença”

Vivemos numa época de extraordinária velocidade. Estamos permanentemente ligados, recebemos informação a cada instante, comunicamos através de múltiplas plataformas e temos ao nosso alcance ferramentas tecnológicas capazes de transformar profundamente a forma como trabalhamos, aprendemos e nos relacionamos. Mas existe uma pergunta que não podemos continuar a adiar: estaremos verdadeiramente mais próximos uns dos outros ou apenas mais conectados?
A saúde mental deixou há muito de poder ser entendida apenas como a ausência de doença. É equilíbrio, capacidade de adaptação, qualidade das relações, sentido de vida e capacidade para enfrentar a adversidade sem perder a possibilidade de continuar a crescer. E, numa sociedade marcada pela pressão, pela comparação permanente, pela exigência de produtividade e pela exposição constante, cuidar da saúde mental tornou-se uma necessidade — não um luxo.
É neste contexto que a Business Voice conversa com José Padrão Mendes, Neurologista, Neuropsiquiatra e Diretor Clínico da Clínica NeuroPsyque, numa entrevista que procura olhar para a saúde mental em Portugal para além dos diagnósticos e dos números. Uma conversa sobre aquilo que acontece quando o excesso de estímulos começa a ocupar o espaço da reflexão, quando a hiperconectividade convive com o isolamento emocional e quando a procura incessante pela felicidade pode transformar-se, paradoxalmente, numa fonte adicional de sofrimento.
Porque, no final, uma sociedade mentalmente saudável não se constrói apenas com mais consultas, mais tecnologia ou mais conhecimento. Constrói-se também com relações mais humanas, com menos julgamento e com maior capacidade de estar verdadeiramente presente. E talvez seja essa a inovação de que mais precisamos: não perder aquilo que nos torna humanos enquanto avançamos para o futuro

Pela sua experiência, como define a saúde mental nos dias de hoje?
Durante muito tempo, associámos saúde mental apenas à ausência de doença. Hoje sabemos que é muito mais do que isso. Saúde mental é a capacidade de viver com equilíbrio, enfrentar desafios, construir relações saudáveis e encontrar significado naquilo que fazemos.
Não significa estar feliz todos os dias ou não sentir tristeza, ansiedade ou frustração. Essas emoções fazem parte da condição humana. Ter saúde mental significa conseguir lidar com elas sem perder a capacidade de continuar a viver, crescer e relacionar-se com os outros.
Num mundo cada vez mais acelerado, cuidar da saúde mental tornou-se uma necessidade e não um luxo.

Vivemos uma era hiperconectada. Que impacto têm as redes sociais na saúde mental?
As redes sociais são uma ferramenta extraordinária, mas vieram alterar profundamente a forma como nos relacionamos connosco próprios e com os outros.
O problema não está na tecnologia em si. O problema surge quando passamos a comparar a nossa vida real com versões editadas da vida dos outros. Criamos expectativas irrealistas sobre felicidade, sucesso, aparência física ou realização pessoal.
Além disso, os algoritmos tendem a mostrar-nos aquilo com que já concordamos. Aos poucos, deixamos de ouvir opiniões diferentes e encerramo-nos em bolhas de pensamento. Não é apenas a saúde mental individual que é afetada. É também a nossa capacidade coletiva de dialogar, compreender e conviver.

Os jovens parecem particularmente vulneráveis. O que mudou?
Os jovens de hoje enfrentam desafios que nenhuma geração anterior viveu da mesma forma.
Crescem ligados ao mundo inteiro vinte e quatro horas por dia. Recebem uma quantidade massiva de informação, são constantemente avaliados e muitas vezes sentem que têm de ser bem-sucedidos em tudo ao mesmo tempo.
Na consulta observo frequentemente jovens inteligentes, sensíveis e capazes, mas profundamente ansiosos. Nunca tivemos jovens tão conectados digitalmente e, simultaneamente, tão vulneráveis ao isolamento emocional.
Precisamos de os ajudar a perceber que errar faz parte do crescimento e que a perfeição não existe.

Que sinais devem preocupar pais e educadores?
Mais do que procurar sintomas isolados, devemos estar atentos a mudanças persistentes de comportamento.
O isolamento, a perda de interesse por atividades habituais, alterações do sono, irritabilidade marcada, quebra do rendimento académico ou comentários de desesperança merecem atenção.
O mais importante é criar ambientes onde os jovens sintam que podem falar sem medo de serem julgados. Muitas vezes, a melhor intervenção começa por uma conversa sincera e por alguém que esteja verdadeiramente disponível para ouvir.

Ainda existe estigma em torno da saúde mental?
Sim, embora tenhamos evoluído bastante nos últimos anos.
Durante muito tempo acreditou-se que quem sofria emocionalmente era menos forte ou menos capaz. Essa visão fez com que muitas pessoas passassem décadas em silêncio.
Hoje fala-se mais sobre depressão, ansiedade ou burnout. Isso é positivo. Mas ainda encontramos pessoas que sentem vergonha de pedir ajuda ou que receiam ser vistas de forma diferente.
Precisamos de compreender que a saúde mental faz parte da saúde global da pessoa. Ninguém tem vergonha de procurar ajuda para uma doença cardíaca. O mesmo deve acontecer com o sofrimento psicológico.

Porque é que os problemas de saúde mental parecem estar a aumentar?
Vivemos numa sociedade onde existe uma enorme pressão para sermos produtivos, felizes, disponíveis e bem-sucedidos em permanência.
Ao mesmo tempo, dispomos de menos tempo para descansar, refletir e cultivar relações significativas.
Existe também um fator positivo nesta aparente subida dos números: hoje reconhecemos e diagnosticamos melhor estes problemas. Pessoas que há vinte anos sofriam em silêncio procuram agora ajuda especializada.
Ainda assim, não podemos ignorar que estamos perante um desafio social que exige respostas individuais, familiares e comunitárias.

Como avalia a situação da saúde mental em Portugal?
Portugal tem profissionais altamente qualificados e uma crescente sensibilização para estas questões.
Contudo, continuam a existir desigualdades no acesso aos cuidados e tempos de espera que podem atrasar o início do tratamento.
A boa notícia é que a sociedade está cada vez mais consciente da importância da prevenção e da necessidade de investir na saúde mental. O caminho é positivo, mas ainda existe muito por fazer.

O que falta fazer ao nível das políticas públicas?
Temos de deixar de olhar para a saúde mental apenas quando surge a doença.
As políticas públicas devem investir mais na prevenção, na literacia emocional, na intervenção precoce e no apoio às famílias.
A escola, os locais de trabalho e os cuidados de saúde primários podem desempenhar um papel determinante. Quanto mais cedo identificarmos sinais de sofrimento, maiores serão as possibilidades de recuperação.

A inovação tecnológica pode ajudar?
Sem dúvida.
As teleconsultas aumentaram significativamente o acesso a cuidados especializados. A inteligência artificial, a neuroestimulação e diversas ferramentas digitais estão a abrir novas possibilidades diagnósticas e terapêuticas.
Mas existe algo que nenhuma tecnologia conseguirá substituir: a relação humana. O olhar atento, a empatia, a escuta e a confiança continuam a ser elementos centrais de qualquer processo terapêutico. O futuro será provavelmente uma combinação inteligente entre inovação tecnológica e proximidade humana.

O burnout continua a ser uma preocupação crescente?
Continua e de forma muito significativa.
O burnout não resulta apenas de excesso de trabalho. Surge frequentemente quando existe um desequilíbrio prolongado entre o esforço exigido e os recursos disponíveis para responder a esse esforço.
As organizações mais bem preparadas compreenderam que cuidar das pessoas não é apenas uma questão ética. É também uma estratégia de sustentabilidade, produtividade e retenção de talento.
Colaboradores saudáveis criam organizações mais saudáveis.

Qual a importância da prevenção em saúde mental?
A prevenção é provavelmente a intervenção mais eficaz e menos valorizada.
Dormir bem, praticar exercício físico, manter relações saudáveis, aprender a gerir o stress e procurar ajuda precocemente são fatores protetores extremamente importantes.
Tal como investimos na prevenção das doenças cardiovasculares, devemos investir na prevenção do sofrimento emocional. Os resultados traduzem-se numa melhor qualidade de vida para todos.

Que mensagem gostaria de transmitir a quem está atualmente a enfrentar dificuldades emocionais?
Gostaria de dizer algo simples: não está sozinho.
Quando atravessamos momentos difíceis, é comum acreditarmos que nada irá melhorar. Contudo, a experiência clínica mostra-nos diariamente que a recuperação é possível.
Pedir ajuda não é um sinal de fraqueza. É um ato de coragem. Existem profissionais, familiares, amigos e redes de apoio preparados para ajudar.
Nenhum sofrimento deve ser carregado em silêncio.

Como devemos abordar o tema do suicídio?
Com seriedade, empatia e sem preconceitos.
Uma das ideias mais importantes que precisamos de compreender é que falar sobre suicídio não aumenta o risco. Pelo contrário, pode permitir que alguém expresse uma dor que estava escondida.
Muitas vezes, a pessoa não quer morrer. Quer apenas encontrar uma forma de terminar um sofrimento que naquele momento sente como insuportável.
A prevenção passa por ouvir, acolher, identificar sinais precoces e garantir acesso rápido a apoio especializado. A esperança continua a ser um dos fatores mais importantes na recuperação.

Que transformação considera mais urgente para melhorar a saúde mental da sociedade?
Se tivesse de escolher apenas uma, diria: reaprender a escutar.
Vivemos numa época extraordinariamente conectada, mas nem sempre verdadeiramente próxima. Construímos redes digitais globais, mas muitas pessoas sentem-se profundamente sozinhas.
Além disso, observamos uma crescente polarização social e política. Em toda a Europa multiplicam-se extremos, criando barreiras invisíveis entre pessoas que deixam de querer ouvir quem pensa de forma diferente. As redes sociais amplificam esta tendência ao mostrarmos apenas aquilo que reforça as nossas convicções.
A saúde mental não se constrói apenas nos consultórios. Constrói-se na forma como educamos, comunicamos, trabalhamos e convivemos. O grande desafio do futuro será preservar a tecnologia e a inovação sem perder aquilo que nos torna humanos: a capacidade de compreender o outro.
Porque, no final, a saúde mental é também a qualidade das relações que conseguimos construir ao longo da vida.



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