“A Saúde Mental não é um privilégio, é um Direito Humano Fundamental”
Por ocasião do Dia Mundial da Saúde Mental, assinalado no passado dia 10 de outubro, a Business Voice esteve à conversa com Eduarda Figueiras, Psicóloga, para refletir sobre um dos grandes desafios da sociedade contemporânea: compreender as emoções, reconhecer as nossas vulnerabilidades e dar à saúde psicológica a importância que merece. Num mundo que exige cada vez mais, parar, escutar e pedir ajuda são também sinais de coragem. Porque cuidar da mente não é um luxo — é uma condição essencial para viver melhor.
O Dia Mundial da Saúde Mental procura, todos os anos, colocar este tema no centro da discussão, mas numa sociedade onde ainda existe muito sofrimento vivido em silêncio, considera que estamos verdadeiramente mais conscientes sobre a importância da Saúde Mental ou continuamos, em muitos casos, a desvalorizar sinais que deveriam merecer atenção?
O Dia Mundial da Saúde Mental celebrou-se a 10 de outubro. Esta data celebra-se desde 1992, por iniciativa da Federação Mundial de Saúde Mental e com o apoio da Organização Mundial de Saúde (OMS). Com esta data pretende-se sensibilizar a sociedade para a importância da saúde mental, reduzir o estigma associado às perturbações mentais e promover políticas que garantam cuidados acessíveis a todos. Apesar de existir um progresso visível nos últimos anos é importante garantir que o apoio chega a todas as pessoas, sem barreiras de idade, género, condição socioeconómica ou localização. Isto porque não existe saúde sem saúde mental e esta deve ser um direito de todos. A maior parte das pessoas conseguem reconhecer os sinais/sintomas de uma perturbação mental, mas a verdade é que apesar de reconhecerem apenas uma pequena parte procura o acompanhamento psicológico. O estigma, a falta de recursos e a dificuldade de acesso continuam a ser as principais barreiras no acesso ao serviço especializado. Por isso, podemos dizer que no nosso país o sofrimento ainda é silenciado. Na minha opinião, não é apenas no dia 10 de outubro que devemos falar e priorizar a saúde mental. Devemos olhar para esta como um direito e uma prioridade coletiva, todos os dias do ano. A saúde mental não é um privilégio, é um direito humano fundamental e deve ser incluída nos cuidados de saúde primários. Aliás é fundamental a prevenção. Não devemos recorrer ao psicólogo apenas quando atingimos (ou ultrapassamos) a linha vermelha e o sofrimento já é imenso. Para assinalar o dia da saúde mental gostava de deixar uma mensagem especial para que realmente comecemos a colocar a saúde mental no centro das nossas preocupações. Devemos estar atentos a quem está ao nosso lado, devemos aprender a escutar sem julgamento e incentivar e relembrar que pedir ajuda é sinal de coragem e nunca um ato de fraqueza.
Vivemos numa realidade marcada pela pressão profissional, pela necessidade de corresponder a expectativas, pela exposição constante nas redes sociais e pela dificuldade em desligar; até que ponto este ritmo de vida está a contribuir para uma sociedade emocionalmente mais cansada e vulnerável?
Na sociedade em que vivemos, atualmente, a pressão da vida moderna pode transformar rapidamente o cansaço em exaustão emocional, por isso, torna-se cada vez mais importante que cada individuo consiga reconhecer os seus limites e parar (sem se culpabilizar) quando o corpo e a mente pedem descanso. E isto não pode ser visto como um ato de fraqueza, mas sim como uma forma de autocuidado. Estamos a vivenciar uma época em que dispomos de muitos recursos para nos facilitar a vida no dia-a-dia, mas a verdade é que esta época coincide com a altura em que utilizamos demasiado a frase “estou cansada”. E a verdade é que temos de parar para refletir o que está a acontecer para sentirmos este cansaço. Certamente, também concorda que os dias passam a correr e quando dá conta não teve um minuto para desligar, para fazer uma pausa, para fazer uma respiração consciente. O problema é que quando temos uma mente que nunca desliga esta fica demasiado propensa ao desgaste e ao esgotamento. Quando chegamos a este ponto nem uma noite bem dormida nos ajuda a recuperar. E ao acordar, a primeira coisa que exclamamos é: “estou cansado". Podemos chamar a isto cansaço emocional, um estado de esgotamento psicológico que vai muito além do cansaço “simples”. É uma sensação de não ter energia ao acordar, mesmo depois de dormir durante várias horas; de realizar tarefas automaticamente, mas sem entusiasmo; de perceber que qualquer pequeno problema parece grande demais para enfrentar. Aos poucos, deixamos de sentir prazer nas atividades que antes eram significativas e passamos apenas a sobreviver à rotina.
Reparem que na sociedade em que vivemos atualmente existe uma conexão muito grande ao telemóvel e às redes sociais o que pode contribuir para o desgaste emocional, uma vez que, estas passam a ideia muitas vezes de que a vida é perfeita e a comparação com este tipo de vida faz com que fiquemos mais tristes e não damos atenção às nossas conquistas. O uso intenso das redes sociais está associado ao aumento de sintomas de ansiedade, depressão, baixa autoestima e stress.
Para além das redes sociais vivemos numa sociedade que valoriza a produtividade. E, assim, descansar passou a ser confundido com preguiça. A verdade é que existe uma pressão silenciosa para produzir continuamente, responder rapidamente, aprender novas habilidades, estar disponível e aproveitar todas as oportunidades que existem. O problema é que o cérebro humano não foi projetado para permanecer em alta performance durante vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Aqui, muitas vezes, o indivíduo começa a sentir alterações no sono, no apetite, dificuldades de concentração, irritabilidade, esquecimentos frequentes, preocupação excessiva, desânimo e perda de motivação. Em muitos casos aparecem sintomas físicos, como dores musculares, cefaleias, alterações gastrointestinais, queda da imunidade e fadiga persistente.
É fundamental olhar com “olhos de ver” para este cansaço emocional. Não o confundir com falar de competências, de motivação ou disciplina, mas vê-lo como um sinal de necessitarmos de abrandar e rever alguns pontos da nossa vida como por exemplo os excessos. O descanso é um pilar fundamental para manter o desempenho, concentração, a saúde mental, o equilíbrio emocional e a qualidade de vida.
É cada vez mais comum ouvirmos expressões como ansiedade, burnout, exaustão emocional ou depressão, mas existe também o risco de banalizarmos conceitos clínicos e confundirmos sofrimento psicológico com os desafios naturais da vida; onde considera que devemos estabelecer essa fronteira?
A ansiedade, a depressão e o burnout são três condições de saúde mental cada vez mais comuns na nossa sociedade e que afetam uma grande parte das pessoas de todas as idades e contextos. Estas têm impacto direto na qualidade de vida, produtividade e relações pessoais. Compreender estas condições e saber como preveni-las é essencial para uma vida equilibrada. Estas condições partilham alguns sintomas semelhantes (fadiga, alterações do sono, irritabilidade, etc), mas podem ter causas, evoluções e abordagens diferentes e, por isso, confundir estas três condições pode atrasar o tratamento indicado. No entanto, vou definir brevemente cada um destes conceitos porque apesar de muito semelhantes acabam por serem diferentes: ansiedade (preocupação/medo e estado de alerta muitas vezes concentrados no futuro; depressão – humor deprimido, desesperança, perda de interesse/prazer, com impacto global e persistente e burnout – esgotamento ligado sobretudo ao contexto laboral com distanciamento do trabalho ou perda da eficácia. Existem algumas situações em que devemos estar atentos aos sinais porque pode ser necessário procurar ajuda personalizada de um psicólogo, psiquiatra ou médico de medicina geral e familiar. Uma das dimensões à qual devemos estar atentos é à duração dos sintomas e ao seu impacto no funcionamento da pessoa, por exemplo, se os sintomas persistem há mais de 2 semanas e estão a ter um impacto negativo na vida de uma pessoa devemos claramente pedir ajuda; se temos crises de ansiedade frequentes e que nos deixam bloqueados também devemos pedir ajuda; se não conseguimos focar e manter a concentração em atividades como trabalho, estudar ou cuidar de si também acaba por ser importante procurar ajuda. Se as emoções são muito intensas e temos dificuldades em lidar com elas também devemos procurara ajuda psicológica.
Muitas pessoas continuam a procurar apoio psicológico apenas quando sentem que chegaram ao limite e já não conseguem gerir sozinhas aquilo que estão a viver; o que ainda está a impedir-nos de encarar a prevenção e o acompanhamento psicológico como parte integrante dos cuidados de saúde?
Pedir ajuda antes de chegar “à linha vermelha” pode mudar o percurso da ansiedade, depressão e burnout. Muitas pessoas só procuram ajuda especializada quando o sofrimento já se tornou insuportável. Chegar ao limite pode tornar o caminho mais difícil. Por isso, torna-se importante reconhecer os primeiros sinais de ansiedade, depressão ou burnout e procurar ajuda desde os primeiros sinais. Quando existe um pedido de ajuda no início dos sintomas isso faz toda a diferença no tratamento e na recuperação. Cuidar da saúde mental não é sinal de fraqueza, é sim um ato de coragem e de autocuidado. Quando os primeiros sinais de sofrimento são reconhecidos e acolhidos, é possível agir antes que o quadro se agrave. Por isso, procurar apoio nessa fase costuma tornar o tratamento mais leve e favorecer uma recuperação mais rápida. Esperar até o esgotamento total, por outro lado, pode intensificar os sintomas e prolongar o sofrimento. Reconhecer que algo não está bem e cuidar da saúde mental desde cedo é um passo importante para preservar o bem-estar. Para concluir gostava de deixar uma mensagem importante para ainda não colocou a saúde mental no lugar que ela realmente merece estar. Quero reforçar que muitos de nós só procuramos ajuda quando atravessamos um momento de exaustão, sofrimento intenso ou crise, mas a verdade é que a terapia não deve ser apenas usada quando estamos nestes momentos de maior vulnerabilidade. Muito pelo contrário o acompanhamento psicológico é mais eficaz quando se iniciam os sinais de alarme. Além do mais as consultas de Psicologia são um espaço seguro de escuta e julgamento; um processo de descoberta e transformação e uma grande feramente para viver a sua vida de forma mais livre e tranquila.
Quando uma pessoa atravessa um período de sofrimento psicológico, é frequentemente confrontada com frases como “tens de ser forte”, “isso é apenas uma fase” ou “há pessoas com problemas maiores”; porque é que este tipo de discurso continua tão presente e que impacto pode ter em quem já está emocionalmente fragilizado?
Este tipo de discurso continua muito saliente na sociedade de hoje porque muitas pessoas sentem-se desconfortáveis perante o sofrimento emocional dos outros. Quando alguém está emocionalmente vulnerável, a pessoa que está próxima (ou a ouvir a pessoa) pode acarretar sentimentos de impotência, não saber o que dizer ou ter receio de piorar a situação. Então, como forma de aliviar esse desconforto, acabam por recorrer a frases feitas como, por exemplo, “há pessoas com problemas maiores”. Muitas destas frases não nascem de falta de cuidado, mas sim de uma cultura que valoriza a resistência, a produtividade e o controlo emocional. Desde pequenos que ouvimos que devemos ser fortes, ultrapassar rapidamente os problemas e não "ficar presos" às emoções difíceis. Como consequência, o sofrimento psicológico é, muitas vezes, interpretado como algo que deve ser rapidamente corrigido, em vez de escutado e validado. O problema é que frases como "tens de ser forte", "isso é apenas uma fase" ou "há pessoas com problemas maiores" podem ter um efeito muito diferente daquele que é pretendido. Para alguém que já está emocionalmente fragilizado, estas mensagens podem transmitir a ideia de que: o seu sofrimento não é legítimo ou que está a exagerar ou a dramatizar, ou seja, a pessoa sente que as suas emoções não estão a ser validades, compreendidas e acolhidas e, por isso, mesmo pode começar a colocar as suas emoções em causa. Por exemplo, em vez de: "estou a sofrer e preciso de apoio", pode começar a pensar "não tenho razão para me sentir assim" ou "há algo de errado comigo por não conseguir ultrapassar isto sozinho". Além disso, quando estamos com uma pessoa vulnerável emocionalmente também devemos evitar comparar o sofrimento das pessoas com outras histórias. O sofrimento humano não é uma competição. E a verdade é que mesmo que existam situações em que pessoas estão a passar por situações mais graves isso não vai diminuir o sofrimento da pessoa. Curiosamente, aquilo que mais ajuda uma pessoa em sofrimento costuma ser algo muito mais simples. Em vez de tentar mudar imediatamente aquilo que ela sente, é muitas vezes mais útil transmitir mensagens como: Consigo perceber que isto está a ser difícil para ti. Ou Não tens de passar por isto sozinho. Estas frases além de não eliminarem totalmente a dor vão fazer com que a pessoa se sinta colhida, compreendida e que não está sozinha no meio “da escuridão”. No fundo, o sofrimento psicológico agravar-se quando existe minimização ou julgamento por parte de quem nos rodeia. Quando encontram um espaço de validação, compreensão e presença humana e genuína as pessoas notam diferenças.