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“Não vejo a IA como substituta do Contabilista”


A Inteligência Artificial está a transformar a Contabilidade, mas o verdadeiro valor continua a estar na capacidade humana de interpretar, antecipar e aconselhar. Em entrevista à Business Voice, Corina Pereira, Fundadora e CEO da Somabsoluta – Contabilidade e Fiscalidade, Lda, reflete sobre uma nova era para a profissão, onde a tecnologia não vem retirar valor ao contabilista, mas desafiar os seus limites e ampliar o seu papel estratégico. Como afirma a própria: “Não vejo a IA como substituta do contabilista. Vejo-a como uma ferramenta que nos obriga a evoluir.” Porque o futuro da Contabilidade não passa apenas por fazer mais depressa, mas por pensar melhor, decidir com rigor e criar mais valor.

A Somabsoluta nasceu da sua visão empresarial assente no conhecimento, na experiência e na proximidade com os clientes. Que percurso esteve na origem da criação da Somabsoluta e que princípios continuam hoje a orientar a forma como lidera a empresa?
Comecei a trabalhar na área da contabilidade em 1998 e, em 2009, criei a Somabsoluta. A minha forma de trabalhar e de liderar resulta naturalmente desse percurso, mas também da minha formação pessoal. A passagem pelo Instituto dos Pupilos do Exército marcou-me muito e deixou-me valores como a disciplina, a responsabilidade, o rigor, a lealdade e o espírito de entreajuda, que transportei naturalmente para a vida profissional.
Ao longo destes anos, a empresa cresceu e a forma de trabalhar mudou muito, mas há princípios que se mantêm: conhecer os nossos clientes, estar disponíveis e assumir com responsabilidade o trabalho que nos confiam.
Hoje acrescentaria algo que se tornou cada vez mais importante para mim: questionar e melhorar continuamente a forma como trabalhamos. Se uma tarefa pode ser automatizada, se uma informação pode ser obtida sem voltar a pedi-la ao cliente ou se conseguimos detetar um problema antes de ele acontecer, então devemos procurar fazê-lo melhor.

A Inteligência Artificial está a transformar rapidamente a Contabilidade, automatizando tarefas que durante anos fizeram parte do quotidiano dos profissionais. Na sua perspetiva, estamos perante uma evolução da profissão ou perante uma verdadeira mudança de paradigma?
Acredito que estamos perante uma mudança de paradigma.
A tecnologia já vinha a transformar a profissão através da digitalização e da automatização. A Inteligência Artificial acrescenta uma capacidade diferente: não se limita a executar tarefas, consegue também apoiar a análise de grandes quantidades de informação, identificar padrões e ajudar-nos a encontrar situações que merecem atenção.
Isso altera aquilo a que dedicamos o nosso tempo e, consequentemente, aquilo que se espera de nós.
Não vejo a IA como substituta do contabilista. Vejo-a como uma ferramenta que nos obriga a evoluir. Quanto menos tempo gastarmos em tarefas repetitivas, mais tempo teremos para interpretar, questionar, antecipar e aconselhar.

Se a tecnologia consegue processar informação, identificar padrões e executar determinadas tarefas com grande rapidez, onde reside hoje o verdadeiro valor acrescentado de um contabilista?
Na capacidade de transformar informação em conhecimento útil.
Uma ferramenta pode identificar uma variação numa conta. O contabilista tem de perceber por que aconteceu, se é normal naquele negócio, quais as consequências e se é necessário atuar.
Os números não existem isoladamente. Por trás deles há empresas, pessoas, decisões, contratos, investimentos e riscos. É necessário conhecer o cliente e o seu negócio para lhes dar contexto. É aí que vejo cada vez mais o nosso valor: não apenas produzir informação contabilística, mas saber interpretá-la e ajudar o empresário a utilizá-la. Contabilidade não é apenas prestar contas. É ajudar a gerir melhor.

A IA poderá libertar os profissionais de tarefas mais repetitivas e permitir-lhes dedicar mais tempo à análise, ao aconselhamento e à estratégia. Poderá esta transformação aproximar o contabilista do papel de verdadeiro parceiro de gestão das empresas?
Sim, e considero que essa é uma das maiores oportunidades desta transformação.
Durante muitos anos, uma parte significativa do tempo dos profissionais foi absorvida pela recolha, classificação, conferência e processamento de informação e pelo cumprimento de inúmeros prazos. Se conseguirmos automatizar uma parte desse trabalho, podemos deslocar tempo para aquilo que realmente acrescenta valor: analisar a evolução da empresa, identificar riscos, acompanhar indicadores e apoiar decisões.
É também essa visão que está na origem do Soma Intelligence, um projeto interno que estamos a desenvolver na Somabsoluta para transformar dados contabilísticos em informação mais clara e útil, criar controlos e alertas e apoiar a análise. A tecnologia deve libertar o contabilista para ser mais contabilista, não menos.

Num setor onde são tratados dados financeiros e informação altamente sensível, que desafios coloca a Inteligência Artificial em matéria de confidencialidade, segurança, responsabilidade e confiança na informação produzida?
Este é um dos pontos em que considero que temos de ser particularmente exigentes. Trabalhamos diariamente com informação financeira, fiscal, empresarial e pessoal extremamente sensível. Não podemos utilizar uma ferramenta apenas porque é útil ou rápida sem perceber onde ficam os dados, como são tratados, quem pode ter acesso a eles e se estão asseguradas as exigências legais de proteção de dados.
Há também outra questão fundamental: a IA pode apoiar uma análise, mas não elimina a responsabilidade profissional. Uma resposta produzida por uma ferramenta não deve ser automaticamente considerada correta.
Tem de existir validação humana, espírito crítico e regras claras sobre a informação que pode ser utilizada.
A inovação é importante, mas a confiança dos clientes é um ativo que não podemos colocar em risco.

A transformação tecnológica exige também profissionais preparados para trabalhar com novas ferramentas. Que competências deverá desenvolver o contabilista do futuro para continuar a ser relevante num contexto cada vez mais digital e automatizado?
O conhecimento técnico continuará a ser essencial, mas já não será suficiente por si só. O contabilista terá de compreender a tecnologia, saber interpretar dados e, sobretudo, desenvolver a capacidade de questionar a informação que recebe.
Considero também fundamentais a capacidade analítica, o pensamento crítico e a comunicação. Não basta identificar um problema; é necessário conseguir explicá-lo ao empresário de forma clara e ajudá-lo a perceber as suas consequências.
E há uma competência que valorizo particularmente: a vontade de aprender. A tecnologia evolui rapidamente e temos de estar disponíveis para questionar métodos, adquirir novos conhecimentos e melhorar continuamente a forma como trabalhamos.

Olhando para os próximos anos, que lugar acredita que continuará a ocupar o fator humano na Contabilidade e que papel deverá assumir o contabilista numa realidade em que a Inteligência Artificial será cada vez mais presente?
Acredito que o fator humano se tornará ainda mais importante precisamente porque teremos mais tecnologia. Uma empresa não procura apenas números. Procura alguém em quem confia para lhe dizer: “há aqui um risco”, “devemos olhar para isto” ou “antes de tomar esta decisão, vamos analisar as consequências”.
A Inteligência Artificial pode aumentar extraordinariamente a nossa capacidade de trabalhar e analisar informação, mas continua a ser necessário alguém que questione, valide, contextualize e assuma responsabilidade.
Vejo o contabilista do futuro menos concentrado em processar o passado e muito mais envolvido em compreender o presente e ajudar a preparar o futuro. É esse o caminho que procuro construir na Somabsoluta: utilizar a tecnologia para sermos mais eficientes, mais preventivos e, acima de tudo, mais úteis aos nossos clientes.
Porque acredito que o verdadeiro valor da contabilidade não está apenas em explicar o que aconteceu, mas também em ajudar as empresas a tomar melhores decisões sobre o que vem a seguir.


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