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A Crise Entra em Casa e Chega ao Trabalho: Cuidar das Pessoas é Assegurar o Futuro

Por Cátia Arnaut, Fundadora e Chief Happiness Officer (CHO) da empresa Happyology – The Science of Happiness


Durante demasiado tempo, o bem-estar foi tratado como um tema complementar, subordinado aos resultados, à produtividade e à rentabilidade. A realidade atual obriga-nos a inverter esta lógica. 

Num contexto marcado pela guerra, pela pressão económica, pela aceleração tecnológica e pela emergência climática, cuidar das pessoas deixou de ser apenas uma escolha ética. É uma condição de sustentabilidade para famílias, organizações e sociedade.
A guerra entre os Estados Unidos e o Irão, com a forte perturbação da circulação no Estreito de Ormuz, voltou a expor a vulnerabilidade das cadeias energéticas globais. A guerra na Ucrânia continua, por sua vez, a afectar infraestruturas, rotas comerciais, produção agrícola e capacidade de refinação. O resultado chega rapidamente ao quotidiano: combustíveis mais caros, aumento dos custos de transporte e produção e nova pressão sobre os preços. Em Junho de 2026, o Banco Central Europeu voltou a aumentar as taxas de juro em 25 pontos base, reconhecendo que o choque energético estava a agravar a inflação e a reduzir as perspetivas de crescimento.
A macroeconomia entra, assim, nas nossas casas. Entra na prestação do crédito à habitação, no depósito do automóvel, no supermercado e na conta da eletricidade. Para muitas famílias portuguesas, com rendimentos já absorvidos por custos fixos elevados, cada novo aumento representa menos margem para a saúde, a educação e, por vezes, para necessidades essenciais. A Comissão Europeia confirma que os choques energéticos atingem proporcionalmente mais os agregados de menores rendimentos, precisamente aqueles que dispõem de menor capacidade para absorver novas despesas.
Mas a pressão financeira é apenas uma parte do cenário. Vivemos num ambiente geral de incerteza. A crise climática manifesta-se em ondas de calor, incêndios, inundações, perdas económicas e alterações profundas nos territórios e nos modos de vida. Ao mesmo tempo, a inteligência artificial acelera uma revolução tecnológica que promete ganhos de eficiência, sem que com isso se perspective mais tempo disponivel para os trabalhadores, transforma profissões, redefine competências e gera receios legítimos quanto à segurança do emprego e ao futuro do Estado Social. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que um em cada quatro empregos seja impactado pela inteligência artificial, embora defendam que a transformação das funções seja mais provável do que a substituição integral dos trabalhadores, e eu acrescentaria, numa primeira fase.
É neste contexto que temos de falar seriamente de bem-estar individual e organizacional. Não como uma moda, uma campanha pontual ou um conjunto de benefícios periféricos, mas como uma estratégia estruturante e fundamental na resposta a uma realidade que aumenta a pressão emocional, cognitiva e financeira das pessoas.
O bem-estar individual começa pelo reconhecimento de que ninguém consegue viver permanentemente em modo de sobrevivência. É necessário proteger o equilíbrio entre vida profissional e pessoal, respeitar o descanso, estabelecer limites à disponibilidade digital e recuperar tempo para aquilo que dá sentido à vida, nomeadamente o aprofundamento das relações significativas, factor absolutamente essencial à saúde (física e mental) e um factor contributivo da longevidade. Em períodos de incerteza, a família, os amigos e os vínculos de confiança funcionam como uma verdadeira infraestrutura emocional e o mecanismo mais rápido para que as pessoas recuperem de situações mais dificeis.
Importa também desenvolver as chamadas happy skills: competências que nos ajudam a construir uma vida com maior bem-estar, mais consciente, equilibrada e significativa. Entre elas estão a gratidão, a generosidade, o propósito e a promoção de relações significativas. Estas competências não eliminam os problemas externos, sobre os quais não temos qualquer controlo, mas aumentam a capacidade para os atravessar sem perder o equilíbrio, a humanidade e a possibilidade de escolha.
Contudo, seria injusto colocar toda a responsabilidade sobre o indivíduo. Não basta recomendar exercício físico, meditação ou pensamento positivo a pessoas sujeitas a cargas de trabalho excessivas, insegurança contratual, lideranças hostis, iniquidades, ou ausência de reconhecimento. A resiliência, palavra que tão depressa entrou em voga nas organizações, não pode ser vista como uma forma sofisticada de responsabilizar o trabalhador por condições que a organização tem o dever de corrigir.
O bem-estar organizacional exige, antes de mais, segurança: física, psicológica e, sempre que possível, contratual. As pessoas precisam de sentir que podem colocar questões, reconhecer erros, pedir ajuda, discordar e apresentar ideias sem receio de humilhação, retaliação ou consequências danosas para o seu trabalho. Precisam também de transparência sobre o futuro da organização e sobre a utilização da tecnologia.
A inteligência artificial não deve ser introduzida apenas como instrumento de redução de custos ou de vigilância, mas acompanhada por diálogo, participação, requalificação e proteção da autonomia profissional. 
Neste processo, os líderes intermédios são determinantes. São eles que traduzem a estratégia em experiência quotidiana. Precisam de preparação para reconhecer sinais de exaustão, ansiedade, isolamento ou dificuldade financeira: praticar escuta ativa; acolher sem julgar e adaptar, dentro do possível, objetivos, horários e cargas de trabalho. Não se pretende que substituam especialistas, mas que sejam líderes humanos, atentos e capazes de encaminhar as pessoas para os apoios adequados.
As organizações devem reconhecer que os trabalhadores não deixam as preocupações à entrada do escritório, numa qualquer esquizofrenia funcional. O peso da prestação da casa, do custo dos alimentos, da incerteza profissional ou do cuidado de familiares acompanha-os durante o dia. Ignorá-lo não aumenta a produtividade: aumenta o presenteísmo, o erro, o conflito e a intenção de saída. Programas de literacia financeira, aconselhamento confidencial, flexibilidade responsável, apoio psicológico, políticas efetivas de desconexão  e sistemas de trabalho mais previsíveis podem gerar benefícios humanos e económicos.
A principal tendência para os próximos anos deverá ser a passagem do bem-estar cosmético para o bem-estar estrutural: menos iniciativas isoladas e mais revisão do desenho do trabalho, das cargas, das práticas de liderança, da equidade, da inclusão, da justiça organizacional e dos mecanismos de participação. Em suma intervenções organizacionais, formação dos gestores e prevenção dos riscos psicossociais, em vez de respostas centradas exclusivamente na capacidade individual de suportar a pressão.
Cuidar das pessoas não significa baixar a exigência. Significa criar condições para que a exigência seja sustentável. Uma organização saudável pode procurar produtividade, inovação e rentabilidade, mas compreende que estes resultados dependem de pessoas com energia e saúde, níveis altos de engajamento, confiança e sentido de pertença.
Não sabemos quando terminarão as guerras, como evoluirão os preços, que empregos serão profundamente alterados pela inteligência artificial ou quais serão os próximos impactos climáticos. Sabemos porém que, esperar pela estabilidade para começar a cuidar será um erro.
A estabilidade pode demorar. 
O bem-estar não pode.

Nota: A Cátia Arnaut é a Fundadora e Chief Happiness Officer (CHO) da empresa Happyology – The Science of Happiness, uma organização que promove o Bem-Estar Organizacional através de serviços de formação e consultoria. Com mais de 20 anos de experiência, muitos dos quais no estrangeiro em posições de topo em grandes empresas, a Cátia tem um Doutoramento na área do Bem-Estar Nacional, vários artigos e livros publicados.

Ver a propósito ETUC - European Trade Union Syndicat Confederation. (2021). ETUC Position on the Right to Disconnect (Vol. 32, Issue March). https://www.etuc.org/sites/default/files/document/file/2021-04/Adopted- EN ETUC Position Right to Disconnect_0.pdfETUC - European Trade Union Syndicat Confederation, 2021)

Nota: O artigo foi redigido sem observar o acordo ortográfico que a autora não subscreve. Assim a direcção editorial da Business Voice tem total liberdade para fazer as necessárias correcções


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