Uma Voz Apaixonada pela Solicitadoria e pela Igualdade no setor
Na mais recente edição da Business Voice, tivemos o privilégio de entrevistar Patrícia Pires, Solicitadora, cuja paixão pela profissão é tão firme quanto a sua convicção na importância de promover a igualdade de género no setor. Com uma visão clara e determinada, a nossa interlocutora partilhou connosco a sua experiência num universo em constante evolução, onde a figura do Solicitador assume um papel cada vez mais relevante e próximo das pessoas. Focada na ética, na competência e na proximidade ao cidadão, a nossa entrevistada sublinhou o orgulho que sente em exercer uma profissão que alia conhecimento técnico a um forte sentido de missão.
Mas esta conversa foi também uma oportunidade para refletir sobre o papel das mulheres na área jurídica, onde, apesar dos avanços, ainda há um caminho a percorrer. Para Patrícia Pires, é essencial continuar a abrir portas, a criar oportunidades e a garantir que o talento — venha de onde vier — possa florescer sem barreiras. Um testemunho inspirador que nos lembra que a excelência profissional caminha lado a lado com a inclusão, e que a verdadeira mudança começa com vozes como a de Patrícia Pires.
Pode contar-nos como começou o seu percurso na área da Solicitadoria e o que a motivou a seguir esta profissão dentro do universo jurídico?
Não cresci a sonhar ser Solicitadora, mas sempre senti uma afinidade natural com a área jurídica. O que realmente moldou o meu percurso foi a experiência pessoal, perdi o meu pai e, desde muito nova, tive de lidar com as questões complexas das partilhas e heranças na família. Essa vivência mostrou-me o valor de ter alguém que acompanhe estas situações com sensibilidade e rigor. Foi na prática da Solicitadoria que encontrei o equilíbrio entre a análise técnica e a proximidade com as pessoas. O que me motivou e o que continua a fazer sentido todos os dias é exatamente isso, resolver questões concretas, acompanhar os clientes e poder ajudar de forma prática e humana.
Ao longo do seu trajeto profissional, quais foram os momentos mais marcantes ou desafiantes que contribuíram para moldar a sua visão sobre o papel do solicitador na sociedade?
Os momentos mais desafiantes foram, curiosamente, os que mais me fortaleceram. Lidar com situações urgentes, partilhas complexas, conflitos familiares, tudo isso ensinou-me que o solicitador é, muitas vezes, muito mais que um técnico, é um mediador e um ouvinte. A perda precoce do meu pai deu-me uma sensibilidade especial para quem atravessa processos legais carregados de emoção. Ver a força silenciosa da minha mãe, a sua resiliência, moldou a mulher e profissional empática e determinada que sou hoje. Noutro momento da minha carreira, trabalhei diretamente com penhoras, execuções e despejos. Vi de perto o sofrimento de muitas pessoas em situações-limite, muitas vezes não por má-fé, mas por azares da vida. Isso marcou-me profundamente e reforçou a importância de praticar o Direito com consciência social, com menos julgamento e mais humanidade. Estas experiências moldaram a minha visão sobre o papel do solicitador, alguém que, mesmo nos contextos mais técnicos, precisa de ter empatia, estrutura e compromisso. É essa abordagem que procuro levar diariamente ao meu trabalho.
Como tem evoluído a sua atuação enquanto solicitadora ao longo dos anos e de que forma tem procurado inovar ou contribuir ativamente para o desenvolvimento e valorização da profissão?
Ao longo dos anos, a minha atuação enquanto solicitadora tem evoluído para além da prestação de serviços tradicionais. Invisto muito na organização interna do meu escritório, para garantir processos mais eficientes e uma comunicação clara, próxima e transparente com os clientes. Para mim, inovar, não é só adotar ferramentas digitais e investir em tecnologia, é também estabelecer e construir relações transparentes e humanas, que geram confiança e valorizam o nosso trabalho. Paralelamente, procuro contribuir ativamente para o desenvolvimento da profissão, partilhando conhecimento com colegas, orientando clientes e envolvendo-me em iniciativas que fortalecem a nossa classe. Atualmente, integro a Assembleia de Representantes da Ordem dos Solicitadores e dos Agentes de Execução, onde tenho a oportunidade de dar voz aos colegas e o privilégio de representar os interesses dos profissionais e valorizar a prática da solicitadoria em Portugal.
Na sua perspetiva, quais foram os principais fatores que impulsionaram o aumento da presença feminina na Solicitadoria e que desafios ainda persistem?
A presença feminina na Solicitadoria tem vindo a crescer de forma significativa nos últimos anos, impulsionada por vários fatores. O aumento do acesso das mulheres à formação jurídica e a autonomia para escolherem carreiras na área do Direito são fundamentais nesse processo. Além disso, a profissão de solicitadora oferece uma certa flexibilidade, que atrai muitas mulheres que conciliam múltiplos papéis, como mulheres, gestoras, mães e cuidadoras, uma realidade que conheço bem ao equilibrar o meu trabalho com o papel de cuidadora informal da minha mãe. Um marco importante e simbólico para esta evolução foi a recente eleição da primeira bastonária mulher na Ordem dos Solicitadores e Agentes de Execução, que representa um incentivo e uma reafirmação do papel decisivo das mulheres na profissão. Apesar destes avanços, ainda persistem desafios, especialmente no que toca ao acesso a cargos de maior visibilidade e ao equilíbrio entre vida pessoal e profissional, áreas onde ainda é necessário continuar a trabalhar para garantir igualdade plena.
De que forma considera que a atuação das mulheres tem contribuído para uma prática mais humanizada e próxima dos cidadãos?
Acredito que as mulheres trazem uma escuta mais atenta, uma comunicação empática e uma capacidade de gerir múltiplas dimensões dos processos, para além do jurídico. As mulheres solicitadoras têm contribuído para quebrar barreiras de linguagem, criar pontes com os cidadãos e mostrar que a justiça pode, e deve, ser compreensível e acessível. Essa proximidade é algo que valorizo, pois sei o impacto real que o acompanhamento humanizado tem na vida das pessoas. A nossa presença nas estruturas representativas é igualmente fundamental para sermos ouvidas e para influenciar mudanças positivas. Por isso, deixo uma reflexão aos colegas da área, a nossa profissão ganha força quando estamos unidos e participamos ativamente nos espaços de decisão e debate. Envolvermo-nos nas questões da classe fortalece a nossa voz coletiva e contribui para elevar o reconhecimento e a valorização da solicitadoria no país.
Como avalia o impacto da representatividade das mulheres no fortalecimento da confiança pública no sistema jurídico português?
A representatividade das mulheres no sistema jurídico português tem um impacto profundo no fortalecimento da confiança pública. Quando os cidadãos veem especialmente mulheres, envolvidas na justiça, sentem que o sistema reflete melhor a sociedade e está mais próximo da sua realidade. A presença feminina traz equilíbrio, sensibilidade e abordagens inovadoras na resolução de conflitos, o que contribui para uma justiça mais humana e acessível. Essa diversidade é essencial para que o Direito deixe de ser visto como algo distante ou exclusivo, tornando-se um instrumento de inclusão e justiça para todos. Como mulher e profissional, sinto diariamente o valor dessa representatividade, que não só inspira confiança, mas também fortalece a legitimidade do nosso sistema jurídico.
Acredita que as mulheres solicitadoras enfrentam preconceitos ou barreiras específicas no seu dia a dia? Como combatê-los de forma eficaz?
Sim, as mulheres solicitadoras ainda enfrentam preconceitos e barreiras específicas no dia a dia, muitas vezes subtilmente manifestados, seja na forma como somos abordadas por alguns clientes, seja na dificuldade em impor autoridade em ambientes mais conservadores. Esses obstáculos podem minar a nossa confiança e limitar o nosso potencial, mas não podemos deixá-los definir o nosso caminho. Para combater essas barreiras de forma eficaz, é fundamental investir em formação contínua, fortalecer redes de apoio entre colegas e criar espaços seguros onde a nossa voz seja ouvida, valorizada e respeitada, como esta entrevista, mas também nas Ordens Profissionais e em grupos de trabalho. Partilhar experiências pessoais e desafios ajuda a desmistificar preconceitos e a construir uma comunidade mais sólida e confiante, capaz de transformar a realidade da solicitadoria.
Que contributos únicos ou diferenciadores acredita que as mulheres têm trazido para a prática da Solicitadoria?
Para além da competência técnica, as mulheres têm trazido uma linguagem mais clara, mais relacional e mais orientada para soluções efetivas. Incorporamos uma visão de longo prazo, colaborativa e integradora, que transforma profundamente a experiência dos clientes com o serviço jurídico. Essa abordagem humanizada gera conforto e confiança, fatores essenciais para quem lida com situações muitas vezes complexas e delicadas. A capacidade de unir técnica, empatia e uma liderança inclusiva tem sido um contributo único e diferenciador que fortalece a prática da solicitadoria e eleva o seu impacto social.
Qual tem sido o papel das redes de apoio, associações profissionais e iniciativas de mentoria no empoderamento das mulheres solicitadoras?
Estas redes têm um papel fundamental. Estar em contacto com outras mulheres que partilham os mesmos desafios cria um sentimento de pertença e de força coletiva. A mentoria, por exemplo, não serve apenas para partilhar conhecimento técnico, oferece coragem, espelha possibilidades e mostra que não estamos sozinhas. O simples “já passei por isso, vai melhorar” pode mudar tudo num momento difícil. Ter alguém que nos inspire, nos ouça e nos oriente faz diferença. Além disso, estas iniciativas abrem portas, promovem a confiança e ajudam-nos a crescer, não só como profissionais, mas também como mulheres que conciliam tantos papéis todos os dias. Acredito que precisamos de continuar a alimentar estas redes, para que mais mulheres sintam que pertencem, que são capazes e que há espaço para todas na construção do futuro da solicitadoria.
Que mensagem gostaria de deixar às jovens que hoje aspiram seguir esta profissão?
Se tens paixão pela Justiça e sentido de responsabilidade, a Solicitadoria pode ser um caminho verdadeiramente enriquecedor. A minha principal mensagem é não desistirem à primeira dificuldade. Esta é uma profissão que exige mais do que conhecimento técnico, exige coragem, consistência e verdade. Abrir um escritório já é um desafio, mas manter-se firme nos dias difíceis é o verdadeiro teste, ter de lidar com a incerteza, tomar decisões solitárias e continuar a lutar pelos teus sonhos, todos os dias, mesmo quando ninguém está a ver. É uma profissão exigente, sim, mas também profundamente gratificante para quem tem a coragem de avançar.
Que medidas considera prioritárias para consolidar os avanços e garantir um ambiente profissional verdadeiramente inclusivo?
Acredito que a inclusão verdadeira começa por criar ambientes onde todas as vozes, especialmente as femininas, sejam ouvidas com respeito e levadas a sério. Precisamos de apostar numa cultura mais humana, que valorize não só o mérito, mas também as experiências e os desafios que cada pessoa carrega. É urgente olhar para a maternidade na profissão com mais empatia, promover o equilíbrio entre vida pessoal e profissional e garantir o acesso real das mulheres a cargos de decisão. A visibilidade de exemplos femininos fortes também inspira e abre caminho. Mas, acima de tudo, é preciso agir, investir em formação com destaque na liderança inclusiva, sensibilizar para os preconceitos subtis que ainda existem e continuar a abrir espaço para o diálogo. Como mulher, profissional e cuidadora, sei o quanto é transformador trabalhar num ambiente onde o respeito, a escuta e a confiança caminham lado a lado. É isso que desejo para a nossa profissão.