Tradução e a Inteligência Artificial
As considerações sobre o tema em epígrafe não podem ser, de forma alguma, generalizadas, porquanto existem vários tipos de tradução, cada um deles com as suas idiossincrasias.
Comecemos pela tradução literária. Em 5 de Abril de 2024, um grupo de sessenta tradutores literários entregou à Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) e divulgou nas redes sociais um manifesto sobre o impacto da Inteligência Artificial (IA) na tradução literária.
Conscientes de que existem já editoras a adotar esta prática, é fundamental sublinhar o impacto que a mesma terá inevitavelmente no empobrecimento real destes profissionais, para além do mau serviço que prestará aos leitores, aos escritores e, acima de tudo, à língua portuguesa.
Como qualquer utilizador de programas como o Google Translate ou o DeepL terá certamente podido constatar, apesar de eles fornecerem traduções minimamente inteligíveis, estas estão sempre eivadas de erros decorrentes do desconhecimento de géneros, da mistura de tempos verbais e, até, da utilização de opções descabidas de tradução de substantivos com vários significados — é bem conhecido o exemplo da tradução da marca Hugo Boss por Hugo Corcunda!!! Acresce ainda o facto de as traduções fornecidas estarem sempre em Português do Brasil. Embora estes programas tenham anunciado como grande novidade o acréscimo do Português de Portugal, a verdade é que as traduções continuam igualmente más.
Refira-se a prática absolutamente inaceitável das editoras que assumiram utilizar a IA nas traduções de depois darem esses textos a corrigir a tradutores de carne e osso. Por princípio, este tipo de trabalho devia ser liminarmente recusado, e só os preços paupérrimos praticados no mercado leva alguns tradutores a aceitá-lo.
Há um outro aspecto, por assim dizer humano, a ter em conta. A tradução literária incorpora uma entrega total do tradutor à tarefa de transpor para uma outra língua um romance — de qualquer género — ou um poema, que incorporam toda uma cultura. Há questões de conhecimento dessa cultura, de sensibilidade e experiências pessoais e também a necessidade de um profundo conhecimento da língua de chegada que são essenciais em qualquer tradução e que, pelo menos por enquanto e previsivelmente durante muito tempo, nenhuma máquina poderá conter.
É verdade que os tradutores utilizam desde há muito, para além dos dicionários, enciclopédias, entre outros., tecnologias informáticas e digitais, baseadas na inteligência artificial, mas isso acontece quase exclusivamente na tradução técnica e na localização, nomeadamente as memórias de tradução e a tradução de base probabilística, esta última criada a partir de um número quase infinito de conteúdos — maioritariamente roubados — que são depois analisados e dos quais são extraídas as ocorrências mais frequentes.
Saliente-se que estes programas de tradução automática são desprovidos de qualquer capacidade de raciocínio linguístico ou semântico, essencial à comunicação e a um bom funcionamento do texto.
Todos estes considerandos se aplicam à tradução técnica, embora nela os fatores humanos atrás referidos não sejam tão cruciais. Este é por excelência o campo da tradução automática, dada a sua velocidade e também a existência de uma correspondência muito maior entre os termos da língua de partida e os da língua de chegada. Ainda assim, é preciso ter em mente que todos estes processos de tradução nunca produzem resultados totalmente aceitáveis, sendo sempre necessária a verificação exaustiva por parte do tradutor.
Relativamente à tradução para legendagem pouco há a dizer: basta assistir principalmente a séries em streaming para constatar a péssima qualidade das legendas. Este facto deve-se não só à tentativa de produzir legendas luso-espanholas-brasileiras (11) como também ao uso crescente da tradução através da inteligência artificial. Também aqui as empresas parecem querer prescindir totalmente de tradutores ou mesmo revisores “humanos”.
Num artigo publicado em 16 de Fevereiro deste ano na Revista Minerva Universitária, profundamente irónico ou desconhecedor do ofício da tradução, a autora conclui da seguinte forma: “Assim, ah!, que dor insuportável para essas almas que passaram décadas a convencer-se de que o seu trabalho era mais do que um exercício técnico! Ainda hoje se queixarão que traduzir é uma espécie de ofício místico.”
Que acusação tão ridícula: o ofício da tradução não é místico; é um trabalho de artífice, que se quer minucioso, consciencioso e de qualidade.
Por último, como é afirmado no Manifesto dos Tradutores Literários, tendo em conta os preocupantes números relativos aos hábitos de leitura em Portugal é urgente que o Governo preste especial atenção à regulação e transparência no uso de inteligência artificial generativa no sector editorial — e não só.
Maria do Carmo Figueira
Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. É Professora de Tradução na Universidade Lusófona e, neste âmbito, colaboradora do projeto PEN PAL in Translation, sediado no Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa. É tradutora literária EN-PT há 30 anos, tendo traduzido até ao momento mais de 150 obras de ficção e ensaio. É Menção Honrosa do Júri do Grande Prémio de Tradução Literária SPA/APT pela tradução de A Vegetariana, de Han Kang (Dom Quixote).