Mais do que Números: A Arte de Humanizar a Contabilidade
Num setor tradicionalmente marcado por rigor e exigência, Patrícia Ventura tem vindo a provar que a contabilidade também pode ser sinónimo de sensibilidade, visão e equilíbrio. Fundadora da Taxconsultadoria e Contabilista Certificada desde 2009, a nossa entrevistada iniciou o seu percurso profissional ainda em 1999, muito antes de concluir a licenciatura em Contabilidade e Administração pelo ISCAC. Hoje, com mais de duas décadas dedicadas à gestão financeira e à consultoria, é um exemplo inspirador de liderança feminina num universo onde o detalhe faz toda a diferença. O projeto Taxconsultadoria nasceu do seu desejo de unir duas grandes paixões: prestar um serviço de excelência e humanizar a contabilidade — tornando-a próxima, transparente e feita à medida de cada cliente.”
Nos últimos anos, assistimos a uma crescente afirmação feminina no setor da Contabilidade. Na sua perspetiva, o que distingue a visão estratégica das mulheres contabilistas na gestão financeira das empresas?
A presença feminina trouxe uma forma distinta de atuar na contabilidade. Para além de prazos e normas, evidencia-se uma sensibilidade particular para compreender impactos humanos, sociais e ambientais. As mulheres contabilistas veem a empresa como um organismo vivo, onde os números refletem não só resultados, mas também pessoas e relações. A experiência de conciliar diferentes papéis, muitas vezes incluindo a maternidade, desenvolve competências como empatia, resiliência e capacidade de gestão do detalhe sem perder a visão global. Estas diferenças relativamente à forma mais objetiva ou técnica que tradicionalmente caracteriza os homens permitem antecipar riscos, propor soluções sustentáveis e transformar relatórios em instrumentos de gestão que equilibram presente e futuro.
A Contabilidade deixou de ser apenas “cumprimento fiscal” e passou a ser um instrumento de apoio à decisão. Como avalia o papel das mulheres contabilistas nesta mudança de paradigma?
As mulheres tiveram um papel essencial nesta evolução por se assumirem como intérpretes da contabilidade. Durante muito tempo, muitos empresários viam-na apenas como obrigação legal. Hoje, graças ao contributo feminino, é reconhecida como instrumento estratégico de gestão. Esta mudança resulta da capacidade de traduzir a linguagem técnica em informação clara e prá ca. Na TaxConsultadoria, observo isso diariamente: os clientes valorizam não só o cumprimento fiscal, mas também a orientação que lhes permite decidir com maior segurança. A contabilidade é vista como ferramenta para definir prioridades, controlar custos e avaliar investimentos. Esta postura pedagógica e empática consolida a perceção do contabilista como verdadeiro parceiro estratégico.
A humanização da relação com o cliente é apontada como uma mais-valia trazida pelas mulheres ao setor. Como é que essa sensibilidade influencia a confiança e a transparência na relação empresa-cliente?
A empatia é uma das competências mais marcantes que as mulheres acrescentam à profissão. Humanizar a relação com o cliente significa apresentar a contabilidade numa linguagem clara, ouvir as suas preocupações e adaptar a informação à realidade do negócio. Muitos empresários, inicialmente recentes, mudam de perceção quando se apercebem de que têm ao lado uma profissional que explica, orienta e acompanha de forma próxima. Na TaxConsultadoria, observo este fenómeno de forma recorrente: a confiança não resulta apenas do rigor técnico, mas sobretudo da criação de proximidade e transparência. Esta sensibilidade é decisiva para afirmar o contabilista como parceiro estratégico e não como simples prestador de serviços.
A digitalização e a automação transformaram profundamente a profissão. Que contributos específicos têm dado as mulheres contabilistas para liderar essa transição tecnológica?
A digitalização constituiu um dos maiores desafios e, simultaneamente, uma oportunidade de reconfiguração da profissão. As mulheres contabilistas destacaram-se neste processo por aliarem uma rápida capacidade de adaptação a uma visão prática sobre a utilidade da tecnologia. Lideraram a implementação de softwares de gestão, plataformas digitais e processos automatizados, não apenas como ferramentas operacionais, mas como instrumentos de valor acrescentado. Mais do que adotar tecnologia, souberam integrá-la estrategicamente, garantindo que a inovação convive com a proximidade que o cliente exige. Na TaxConsultadoria, modernizámos procedimentos mantendo sempre o lado humano, demonstrando que a tecnologia não substitui a relação de confiança, mas a reforça, libertando tempo para funções de maior análise e aconselhamento estratégico.
A ética e a sustentabilidade são hoje temas incontornáveis na gestão. Como é que as mulheres contabilistas têm integrado estes valores na prá ca profissional e no aconselhamento às empresas?
A ética constitui o alicerce histórico da profissão contabilística. O contributo das mulheres tem sido notório ao acrescentarem à prática profissional uma dimensão mais abrangente, que integra a sustentabilidade económica, social e ambiental. No exercício da minha atividade, procuro sensibilizar os clientes para a importância de um cumprimento fiscal rigoroso, mas também para a adoção de modelos de gestão que assegurem a continuidade e a responsabilidade das organizações. Ética e sustentabilidade devem ser entendidas não como tendências conjunturais, mas como valores estruturantes que conferem legitimidade e solidez às empresas. O crescimento empresarial só se torna verdadeiramente consistente quando é orientado por princípios éticos e gera impacto positivo que transcende o lucro imediato.
O setor da Contabilidade em Portugal continua a ter desafios de reconhecimento social e de valorização da profissão. De que forma a liderança feminina tem ajudado a reposicionar a imagem do contabilista na sociedade?
Durante muito tempo, o contabilista foi visto como um técnico de bastidores. A liderança feminina veio mostrar que somos também estrategas e conselheiros de confiança. Pela forma como comunicamos e nos aproximamos do cliente, ajudámos a dar nova visibilidade à profissão. Hoje a contabilidade é reconhecida como mais humana, próxima e estratégica. Esta mudança de imagem tem contribuído para a valorização social e para o reconhecimento que a profissão merece.
Sendo a Contabilidade também uma profissão de grande responsabilidade, muitas vezes associada a pressão e rigor extremo, que estratégias considera essenciais para equilibrar liderança, exigência técnica e bem-estar humano?
A contabilidade é uma atividade de elevada exigência, frequentemente marcada por prazos rígidos e forte pressão técnica. Contudo, é possível conciliar esta realidade com o bem-estar profissional. A chave está em três dimensões fundamentais: um planeamento rigoroso, que reduz a ocorrência de imprevistos; a definição clara de prioridades, que evita dispersão de esforços; e uma liderança empática, que fomenta a resiliência das equipas. Liderar, neste contexto, não significa apenas exigir resultados, mas também cuidar das pessoas que os tornam viáveis. Ambientes de trabalho equilibrados traduzem-se em maior motivação e refletem-se diretamente na qualidade, consistência e credibilidade do serviço prestado.
Na sua experiência como consultora fiscal e financeira, quais as competências que considera essenciais para que uma contabilista se torne uma verdadeira parceira estratégica das empresas?
Considero três competências nucleares: o domínio técnico, a comunicação clara e a visão estratégica. O domínio técnico assegura rigor e conformidade normativa; a comunicação clara torna a informação inteligível e útil para a gestão; e a visão estratégica permite transformar dados em orientações para o futuro. Na TaxConsultadoria, procuro aplicar estas dimensões em cada cliente, demonstrando que a contabilidade não deve ser encarada como mera obrigação fiscal, mas como instrumento efetivo de criação de valor acrescentado para as organizações.
Que mensagem deixaria às jovens mulheres que estão a iniciar carreira na Contabilidade e que ambicionam ocupar lugares de liderança num setor ainda em transformação?
Acreditem firmemente no vosso valor. A contabilidade é uma profissão exigente, mas repleta de oportunidades de afirmação e liderança. Invistam em formação contínua, acompanhem de perto as mudanças legislativas e tecnológicas e não hesitem em assumir responsabilidades crescentes. A liderança constrói-se com ética, dedicação e consistência. Cada desafio superado representa uma etapa na consolidação do papel das mulheres na liderança, tornando a sua presença não apenas possível, mas indispensável para o futuro da profissão.
Por fim, olhando para o futuro: qual será, no seu entender, o papel das mulheres contabilistas na construção de uma economia mais sustentável, transparente e orientada para as pessoas?
As mulheres contabilistas terão um papel muito importante na economia do futuro. Será uma economia que deve valorizar não só os resultados financeiros, mas também a transparência, a ética e a responsabilidade social. O nosso papel será aplicar estes valores no dia a dia, ajudando as empresas a crescer de forma equilibrada e próxima das pessoas. Acredito que estaremos na frente desta mudança, contribuindo para uma economia mais justa, humana e sólida.