Mulheres Líderes - Podemos ter tudo?
Será que podemos ter tudo? Não. Lamento desiludir-vos, mas nunca podemos ter tudo. E mais, não é pelo facto de sermos mulheres! Os homens também não podem ter tudo! Mas... se calhar eles não tentam, e essa é uma grande diferença.
É preciso que cada pessoa saiba as suas prioridades. Há que optar, o que quantas vezes parece impossível - quero ser uma profissional reconhecida, quero ser uma mãe presente, quero ser uma esposa apaixonada, quero ter uma casa impecável, quero cuidar de mim, quero, quero, quero.
Se não aceitarmos o facto de que é fisicamente impossível a um ser humano realizar a 100% todos os papeis que a sociedade decidiu que uma Mulher devia ser capaz de cumprir, iremos a caminho de um burnout ou de uma depressão, apoiando a perceção de que somos o sexo frágil, quando na realidade tal acontece por tentarmos ser fortes demais,
Desde sempre as mulheres foram as cuidadoras. Dos filhos e da casa, dos maridos, dos mais velhos, dos doentes. Ao longo do tempo foram conseguindo chegar a outros lugares que lhes deviam ser abertos na sociedade, trabalhando fora de casa, tendo empregos, seguindo carreiras políticas, abrindo empresas, subindo lentamente a escada dos cargos, até (algumas) atingirem os lugares de topo.
E o que aconteceu então? Muita frustração!! Há mulheres que se sentem felizes e realizadas com o que atingem, mas tantas outras andam constantemente numa corda bamba – para subirem na carreira, sentem que estão a falhar em casa. Para se dedicarem à família, não conseguem que as levem a sério no mundo profissional. E não devemos esquecer a relação amorosa, tantas vezes em causa pela falta de tempo, de disposição ou de compreensão do companheiro.
Como mulher, várias vezes senti que tinha de optar, pois ao contrário do que se ouve em discursos motivacionais, não conseguia fazer tudo... Ou melhor, se calhar até conseguia, mas não ao mesmo tempo!
Comecei a minha carreira profissional a dar aulas na faculdade. Um trabalho interessante, mas infelizmente incerto, pelo que quando casei optei por mudar, para ter um rendimento mais certo – estive então a trabalhar como farmacêutica. Algum tempo depois, como casal escolhemos ter filhos. E novamente senti necessidade de optar, porque queria que (pelo menos) nos primeiros anos de desenvolvimento os meus filhos tivessem pais bem presentes. Não me fazia sentido tê-los para os entregar a alguém que os educasse por mim – optamos por eu ficar em casa a tempo inteiro, durante uns anos (sei que nem todas as pessoas terão esta opção, mas estou a contar-vos o meu percurso).
Quando as crianças começaram a ficar mais crescidas, quis voltar ao mercado de trabalho – o que se revelou complicado, pois as empresas parecem não ver com bons olhos quem tira tempo para estar com os filhos, receiam talvez que essas pessoas não sejam capazes de cumprir as suas tarefas, quando pelo contrário, penso que a maternidade me deu uma capacidade de gestão de tempo e gestão de conflitos muito interessante, entre outras valências. A solução foi empreender, montando uma empresa ligada à saúde e, mais tarde, tomando conta de uma farmácia, atividade que muito me satisfez profissionalmente e pessoalmente durante algum tempo, até que durante a pandemia COVID19 fiquei com os meus filhos quase em autogestão em casa, pois tinha de estar a todo o momento na farmácia.
Mais uma vez, decidi que não era assim que queria viver, e larguei a área da farmácia, para ter mais disponibilidade para a família. Procurei novamente: em que poderia trabalhar de modo a sentir-me profissionalmente realizada, e ainda assim ter a flexibilidade de horários que desejo para atender à minha família? Foi quando “descobri” a área do desenvolvimento pessoal!
O meu próprio percurso, com vários tsunamis a nível pessoal de que agora não faz sentido falar, fez com que estivesse mais aberta a compreender as necessidades de ajuda que as pessoas têm ao longo da vida. É muitas vezes difícil, especialmente para as mulheres, conseguir aceitar que têm de tomar opções, sob pena de “falharem” em todos os campos. Mas para tomar opções, é essencial conhecermo-nos, e termos bem presentes as nossas prioridades e os nossos valores. É hoje essa a minha missão, facilitar a reconstrução da identidade pessoal e a consecução dos objetivos pessoais e profissionais, para que as pessoas possam chegar mais próximo do seu potencial, sendo assim mais felizes e realizadas, tornando também o mundo um lugar melhor.
Ao longo do meu percurso enfrentei barreiras impostas por estereótipos de género, dúvidas internas e dificuldades na conciliação entre a vida profissional e familiar. O que senti no meio de todas estas opções que fui tomando? Que muitas vezes parece mais fácil para os homens. São mais facilmente levados a sério na vida profissional. Não lhes perguntam se têm filhos, pois ainda não é frequente que tenham de sair do trabalho para acudir a uma emergência familiar. Aceitam mais facilmente não estar tão presentes para os filhos, consideram a sua missão desenvolver uma carreira profissional e trazer riqueza. Muitos poderão contestar, dizer que isso já não é assim. De acordo, estou a generalizar, mas à minha volta continuam a ser estes os papéis que a sociedade assume como naturais para o homem.
Desde o início da minha carreira, percebi que o maior desafio das mulheres não era a falta de competência, mas sim a falta de oportunidades e de confiança para reivindicar o seu espaço. Mulheres e homens, temos diferenças fisiológicas, emocionais, e de papeis. Mas não devíamos ter diferenças de oportunidades. Acredito que cada conquista feminina não é apenas individual, mas sim um passo para toda a sociedade se tornar mais equitativa e próspera. A liderança feminina não se resume a ocupar cargos de chefia, mas sim à capacidade de inspirar, inovar e criar ambientes mais inclusivos e produtivos. Ao longo do meu percurso, percebi que a força da mulher reside na sua resiliência e na capacidade de equilibrar múltiplos papéis. A autoconfiança é um dos aspetos mais importantes para trabalhar em si mesmas, pois muitas vezes somos levadas a acreditar que não somos suficientemente boas ou preparadas. Sabem que as mulheres tendem a só concorrer a trabalhos onde tenham quase 100% das características pedidas, enquanto os homens concorrem mesmo com unicamente 50% dessas características?
Para mim, a mulher pode ser o que queira e quem queira. Pode ser solteira ou casada, ter filhos ou não, ser CEO de uma grande empresa ou ficar em casa com os filhos, pode ser astronauta ou cientista, corredora de F1, presidente de um país, vendedora ambulante. O meu sonho é que tenha essa liberdade de escolha, que lhe seja possível optar pelo que quer fazer, sem ter de desistir porque não lhe são permitidas as mesmas possibilidades que aos homens, sem sentir a pressão da sociedade para ser a supermulher, que aguenta todos os pratos no ar ao mesmo tempo, e nunca deixa cair nenhum. Mas as mulheres também têm de aprender a libertar-se dessa pressão. Saber o que querem, quais as suas prioridades. E esforçar-se para atingir o que querem realmente, em vez de tentarem ser o que acham que os outros esperam delas. Para mim, sempre foi prioridade a família, por muito que gostasse de desenvolver uma carreira profissional brilhante, E essa consciência fez-me tomar opções que me afastaram de alguns sonhos, mas me permitiram não descuidar tanto o que para mim é essencial.
Como mãe, aprendi que a liderança começa em casa, na forma como educamos, transmitimos valores e ensinamos pelo exemplo. As mulheres são ainda quem mais tempo passa com os filhos. Depende delas educá-los para a equidade, para a justiça social e para o respeito ao outro. Se fizermos bem o nosso trabalho, a próxima geração poderá ser mais harmónica, e quem sabe um dia não haja necessidade de haver o dia internacional da mulher, pois estaremos finalmente em pé de igualdade com os homens.