“Não tenham medo de usar a vossa Voz”
Ana Margarida Moura, Advogada e Fundadora do Escritório AnaMMoura – Advogados, concedeu uma entrevista à Business Voice. Saiba mais sobre esta Líder, que acredita que “o crescimento feminino na liderança deste setor é, desde logo, um reflexo direto da presença maioritariamente feminina nas faculdades de Direito e em áreas conexas”.
No sentido de contextualizar o nosso leitor, começo por lhe pedir para partilhar um pouco do seu percurso profissional. Que marcos são para si mais simbólicos e quais os desafios que, ao longo do seu trajeto, teve de enfrentar?
Curiosamente, quando optei pela licenciatura em Direito, o meu objetivo final era a magistratura. Durante o período de estágio da Ordem dos Advogados, tive a oportunidade de trabalhar numa prestigiada sociedade de advogados, onde aprendi bastante a nível técnico, mas sobretudo a nível humano e do quotidiano de um Advogado inserido numa grande estrutura. Foi uma experiência extremamente enriquecedora e que recordo com muito carinho. Ainda no decurso desse estágio, tomei a difícil decisão de deixar essa sociedade, optando por enveredar num escritório de uma dimensão pequena, que me permitiria ter uma outra experiência quanto à forma exercício da Advocacia.
Neste escritório, onde trabalhei durante vários anos já como Advogada, tinha um contacto diário e direto com todos os Clientes e com os problemas que nos traziam, o que me obrigou a evoluir rapidamente e a desenvolver competências técnicas muito além do que imaginei. Estes desafios e esta nova perspetiva do exercício da Advocacia foram de tal forma transformadores para mim que, depois de muita ponderação e reflexão, fizeram-me repensar e reestruturar todo o plano que tinha delineado para o meu futuro e que, durante muito tempo, passou pela magistratura. Em todo o caso, foi certamente a decisão correta, pois a Advocacia ainda hoje é a minha paixão.
Mantive-me, durante vários anos, a colaborar nesse escritório, com o bónus imensurável de me ter cruzado com pessoas que muito me ensinaram e com quem ainda hoje aprendo.
Com a experiência e as bases bem solidificadas, senti que havia chegado o momento de partir para um novo desafio, abrindo o meu próprio escritório, estruturado e direcionado para as áreas de especialidade que ali fui desenvolvendo, com os valores e os princípios que acredito serem o pilar da Advocacia.
Foi, também esta, uma decisão muito complexa (talvez a mais complexa delas), já que o risco envolvido era grande e a incerteza e a insegurança ainda maiores.
Felizmente, estes receios iniciais foram sendo ultrapassados e o projeto vingou, para o que muito contribuiu o privilégio de poder contar com uma brilhante colega de profissão (e amiga), que ainda hoje se mantém como parceira do escritório.
A Ana Margarida Moura é Advogada e Fundadora do Escritório AnaMMoura – Advogados, uma marca de enorme relevo e bastante conceituada na praça pública. Fale-nos um pouco do crescimento da marca e como é que descreve o seu papel no seio da marca?
Como referido, nos primeiros anos de exercício, estando inserida num escritório de renome, tive a oportunidade de contactar com diversas áreas do Direito, desenvolvendo desde cedo as minhas preferências/aptidões. Nesse período, um pouco por acaso (confesso), fui confrontada com uma área do Direito que, à época, me era praticamente desconhecida – o Direito do Transporte de Mercadorias –, mas que passou a integrar o meu dia a dia.
Descobri, nesse acompanhamento diário de empresas do setor dos transportes, um nicho de mercado jurídico que, na mesma medida em que me desafiava pelas especificidades técnicas, também me encantava.
Ao fim de quase dez anos a aprender e a lidar diariamente com o setor jurídico e o contencioso das empresas desse ramo, decidi que estava na altura de assumir as rédeas de um projeto direcionado ao acompanhamento jurídico desse mercado.
Foi desta forma que nasceu o escritório AnaMMoura – Advogados, com uma visão muito concreta do valor que uma atuação jurídica especializada, nas suas diversas dimensões, acrescenta às empresas do setor. Com este propósito e o objetivo de sermos nacionalmente reconhecidos como um escritório de referência neste ramo do Direito, temos vindo a trabalhar árdua e diariamente, ao lado de várias empresas extremamente prestigiadas no setor.
Esta sua função traz consigo uma liderança acrescida. Como líder feminina no setor direito, que valores ou princípios norteiam a sua abordagem ao liderar uma equipa ou gerir operações dentro da AnaMMoura – Advogados?
Gerir pessoas é, sem dúvida, um dos trabalhos mais complexos.
No AnaMMoura-Advogados temos bem definido, sendo desde logo implementado em qualquer colaborador ou parceiro do nosso escritório, que a excelência, a verdade, a confiança e a solidariedade (quer entre a equipa, quer com os Clientes) são valores absolutamente inegociáveis.
Em qualquer novo desafio ou circunstância que nos aparece, tenho bem incutido que estes são os princípios pelos quais nos regemos e é com esta cultura que vou criando as raízes e construindo uma equipa coesa.
E, com uma equipa sólida, solidária e coesa, que não é individualista, antes pensa e atua em conjunto (por e para os Clientes), o sucesso acaba por ser uma consequência natural do nosso trabalho.
Na atualidade, começamos a ver cada vez mais Mulheres em posições de Liderança no setor do Direito. Para si, que análise perpetua deste crescimento feminino no setor e o que é necessário continuar a fazer para que este cenário seja ainda mais equilibrado na presença de Homens e Mulheres no setor?
O crescimento feminino na liderança deste setor é, desde logo, um reflexo direto da presença maioritariamente feminina nas faculdades de Direito e em áreas conexas.
Acredito que com a expressão significativa que as Mulheres têm vindo a assumir neste mercado, quer na Advocacia, quer na Magistratura, inevitavelmente haverá maior probabilidade de ascenderem a posições de liderança.
Isso passará também pelo incentivo ao ingresso feminino nas profissões, através da criação de apoios que permitam às Mulheres continuar a desenvolver competências adjacentes e complementares às questões meramente técnicas, a par da promoção de políticas de igualdade em termos de projeção das respetivas carreiras, pagamento de honorários, assim como conciliação da vida familiar com a vida profissional.
A presença feminina nas posições de liderança tem vindo a aumentar, mas ainda existem desafios. Quais acredita que são as principais barreiras para as mulheres no setor do direito e como podemos superá-las?
Não obstante o significativo crescimento da presença feminina no setor, é inequívoco que existe ainda uma discrepância relevante no que respeita a posições de liderança.
Acredito que uma das barreiras particulares nesse caminho para as Mulheres é, sem dúvida, a falta de apoios na Advocacia no que respeita à conciliação da vida profissional com a vida familiar, sobretudo para aquelas Mulheres que a conjugam ou pretendem conjugar com a maternidade.
A disparidade no crescimento da carreira entre Homens e Mulheres em virtude da maternidade/paternidade é, como todos bem sabemos, um problema comum e transversal a várias carreiras, não se cinge ao Direito.
Contudo, na minha perspetiva, atinge o seu expoente máximo na Advocacia, onde a ausência de uma estrutura de previdência capaz de assegurar os direitos sociais mínimos para as Mulheres, obrigando-as a trabalhar em condições que, muitas vezes, nos envergonham (ou deviam envergonhar) enquanto classe.
A par disso, por muito que se tenha evoluído nesse campo, existe ainda um machismo enraizado nesta área (ainda que, por vezes, encapotado), tanto por Colegas de profissão, como por Magistrados e até alguns Clientes, que perpetuam a ideia de que “o Sr. Dr. tem uma voz mais grossa e far-se-á ouvir melhor na defesa dos meus interesses”.
E, verdade seja dita, esta questão é indubitavelmente mais expressiva e sentida pelas Mulheres jovens, em início de carreira, quando comparadas com Homens na mesma situação.
Na sua opinião, como é que a diversidade de género pode impactar positivamente o setor jurídico, tanto em termos de resultados quanto de cultura organizacional?
Acredito e tenho verificado, ao longo da minha prática, que Homens e Mulheres têm, regra geral, diferentes valências que, se bem conjugadas e complementadas, são indubitavelmente uma força no desenvolvimento de qualquer estrutura.
Se, numa equipa, formos capazes de trabalhar conjuntamente, aliando a criatividade, a capacidade de comunicação e de análise estratégica multifacetada, tão comuns à personalidade feminina, à capacidade analítica, focada e orientada para o resultado dos Homens, obtemos os ingredientes certos para o sucesso transversal nas nossas estruturas.
Quais conselhos daria a jovens mulheres que estão a começar a sua carreira no direito e que aspiram a ocupar posições de liderança?
O conhecimento técnico-jurídico, a criatividade e a atualização e o estudo constantes são pressupostos indiscutíveis para a formação de qualquer profissional do Direito.
Mas, se o que pretendem é, para além disso, a ocupação de posições de liderança, não devem cingir-se apenas à técnica do Direito. É fulcral estudarem e desenvolverem outras competências que, infelizmente, não nos são ensinadas nos bancos das faculdades, nem salas de aula das escolas.
É necessário olharem para o vosso escritório como uma verdadeira empresa, aprender sobre gestão, finanças, liderança, marketing, setor comercial, etc. Importa ter uma visão 360.º do negócio, o que não se compadece, única e exclusivamente, com a questão técnica.
O desenvolvimento dessas competências, a par da capacidade de comunicarem assertivamente na gestão diária das dificuldades de um projeto desta envergadura vão ser grandes aliados na caminhada árdua (mas extremamente compensadora) que vos espera.
A legislação e as políticas de igualdade de género estão a evoluir, mas em que pontos precisamos de melhorar?
De uma perspetiva geral, penso ser necessário continuar a investir em medidas que fomentem a paridade de Homens e Mulheres em termos de salários, oportunidades e de evolução na carreira.
Isso passa não só por políticas que promovam a igualdade nos vencimentos entre Homens e Mulheres, a igualdade na ascensão e nas oportunidades de carreira, mas também no combate direto, com medidas dissuasoras, das situações de ilegalidade e desigualdade que todos sabemos que ainda se verificam.
Quem não conhece a história (ou até não viveu na própria pele) da Mulher a quem perguntaram, na entrevista de emprego, se pretendia ser mãe ou se, sendo-o já, tinha com quem deixar os filhos em caso de doença? Ou que pretendeu gozar da licença integral ou licença de amamentação e, de forma subtil e por causa de ter exercido esses direitos, acabou por ser preterida para outros cargos e/ou até mesmo dispensada das funções?
É ilegal? É! Acontece? Demasiadas vezes, infelizmente.
E isto não se restringe às Mulheres que são ou pretendem ser mães. O que dizer daquela crença de que as Mulheres são demasiado emotivas/emocionais para ocuparem lugares de liderança, em que se mostra necessária a tomada de decisões objetivas e delicadas?
É importante, acima de tudo, criarem-se condições para que as Mulheres possam finalmente sentir que não precisam de optar pelo desenvolvimento profissional ou pelo desenvolvimento pessoal/familiar, que uma via não invalida e/ou dificulta necessariamente a outra.
E, também, que não sintam que são defraudadas ou prejudicadas por características habitualmente associadas ao género feminino e que, injustificadamente, são vistas de forma negativa.
Que mensagem lhe aprazaria deixar a todas as Mulheres presentes no setor do direito e que, diariamente, vivem e convivem com diversos desafios e dificuldades simplesmente porque são Mulheres?
Há quatro valores e princípios que acredito serem fundamentais para o sucesso neste setor: determinação, constância, coragem e alguma dose de ousadia.
Por último, como em tudo, verdade. Verdade na relação com o outro e, acima de tudo, verdade na relação consigo próprias.
Não tentem alterar as vossas características ou personalidades para se adaptarem ou tentarem “caber” num ambiente novo e que se mostra, por vezes, hostil. Analisem, pelo contrário, quais são as valências que vos são inatas e com que podem contribuir e ajudar na evolução desse ambiente.
Não tenham medo de usar a vossa voz e procurem sempre novas oportunidades e perspetivas onde outros veem apenas problemas ou becos sem saída.