“Liderar com impacto é isso: Inspirar pelo Exemplo, sem nunca deixar de aprender”
Na mais recente edição da Business Voice, Denise Bessa, Area Manager, partilhou uma visão inspiradora e profundamente humana sobre o que significa liderar com impacto. Numa conversa franca e envolvente, abordou a essência da liderança como um ato de proximidade, empatia e responsabilidade, destacando que o verdadeiro valor de um líder não se mede apenas pelos resultados, mas pela capacidade de despertar o potencial de cada pessoa da sua equipa. “Ver o desenvolvimento individual de cada elemento é, sem dúvida, o meu maior orgulho enquanto líder”, afirmou, com a convicção de quem sabe que o sucesso sustentável nasce da valorização do capital humano. Ao longo da entrevista, destacou ainda os desafios e recompensas de lidar com pessoas — num equilíbrio constante entre orientar, escutar e inspirar. A sua abordagem reforça que liderar vai muito além da gestão de processos: é cultivar talento, construir confiança e criar condições para que cada colaborador evolua, se supere e cresça com propósito. Uma visão que, mais do que palavras, se traduz em prática, impacto e resultados duradouros.
Como define, na sua experiência, o verdadeiro papel de um líder no contexto atual das organizações, e de que forma é que esse papel tem evoluído ao longo do tempo?
Desde a escola que sempre ouvi dos professores que tinha um perfil de liderança natural. Ao longo da minha jornada profissional procurei inspirar, formar e apoiar os meus colegas. Há seis anos surgiu a oportunidade de liderar oito equipas em contexto de loja — e foi, sem dúvida, o meu maior choque profissional. Percebi que nem sempre é possível ser a “chefe boazinha”.
Durante esta jornada enfrentei frustrações e tive de tomar decisões difíceis. Nem sempre as pessoas estão alinhadas com as nossas expectativas, e gerir essas diferenças é um desafio constante. Lidar com pessoas é, sem dúvida, uma tarefa exigente, que requer equilíbrio, empatia e firmeza.
Com o tempo, tornei-me mais assertiva e percebi que é possível inspirar pelo exemplo. Ouvir, formar, envolver as pessoas e fazê-las sentir que fazem parte da organização são pilares fundamentais. Hoje, sinto que o sentido de pertença é forte na minha equipa, e que todos ganhamos com isso. Ver o desenvolvimento individual de cada elemento é, sem dúvida, o meu maior orgulho enquanto líder.
Enquanto Área Manager, quais são os princípios que orientam a sua liderança diária e de que forma é que os mesmos se refletem na cultura da equipa que lidera?
Como Área Manager, os princípios que orientam a minha liderança diária assentam na escuta ativa, na valorização da diversidade e na criação de um ambiente onde todas as vozes contam. Acredito profundamente numa liderança inclusiva, onde cada membro da equipa se sente respeitado, envolvido e motivado a contribuir com o seu melhor.
No meu dia a dia, promovo uma comunicação aberta e transparente, incentivo o feedback bidirecional e procuro conhecer as diferentes perspetivas da equipa antes de tomar decisões. Este compromisso com a inclusão permite-me identificar talentos diversos e desenvolver soluções mais eficazes e representativas da realidade da operação.
Na prática, esta abordagem reflete-se numa cultura de equipa colaborativa, onde todos têm espaço para crescer, independentemente da sua origem, género ou percurso profissional. Valorizamos as diferenças como fator de enriquecimento coletivo, o que tem fortalecido o sentimento de pertença, o empenho individual e o desempenho global da equipa.
Acredito que liderar de forma inclusiva não é apenas uma questão de justiça — é também uma estratégia eficaz para alcançar melhores resultados, promover a inovação e construir equipas mais resilientes e coesas.
A liderança inclusiva tem vindo a ganhar destaque no mundo corporativo. Como é que aplica esse conceito na prática e de que forma acredita que contribui para o crescimento e coesão das equipas?
Acredito que a liderança inclusiva começa com algo simples, mas essencial: ouvir verdadeiramente as pessoas. No meu dia a dia como Area Manager, faço questão de criar um ambiente onde todos se sintam à vontade para partilhar ideias, dar opinião e até discordar — porque é dessa troca que nascem as melhores soluções, trabalhar em terreno com as equipas ajuda muito, sem dúvida.
Procuro conhecer bem cada pessoa da equipa, perceber as suas motivações, os seus pontos fortes e também onde precisam de apoio. Gosto de envolver e orientar, a equipa nas decisões e dar espaço para que cada um contribua à sua maneira, independentemente da experiência, do percurso ou da função que ocupa.
Valorizo muito o feedback — tanto o que dou como o que recebo — porque acredito que é assim que crescemos juntos. Já vi na prática que, quando as pessoas se sentem respeitadas e incluídas, trabalham com mais motivação, colaboram melhor entre si e sentem que fazem realmente parte de algo. O que permite alcançar os objetivos de forma mais leve e tranquila, em que a pressão é motivadora.
Para mim, liderar de forma inclusiva não é apenas fazer o que é certo — é também uma forma de construir equipas mais unidas, mais criativas e preparadas para enfrentar desafios em conjunto. Nem sempre conseguimos que todos os colaboradores se sintam como parte da organização, mas sem dúvida que são exceção e não regra.
Na sua perspetiva, quais são os maiores desafios para se manter uma liderança humana e inspiradora num ambiente marcado por objetivos, pressão e constante mudança?
Trabalhar no retalho têxtil é como estar num TGV que nunca abranda — tudo acontece a uma velocidade impressionante, e nem sempre é fácil ter equipas preparadas para embarcar nesta viagem com dedicação e entrega. A pressão existe, claro: há prazos, a loja tem de estar pronta, os processos têm de ser bem executados e os KPIs têm de ser cumpridos.
Para mim, o verdadeiro desafio é manter uma liderança próxima, humana e inspiradora no meio desta exigência constante. Acredito profundamente no poder do exemplo. Estar ao lado das equipas, orientar, ouvir e apoiar faz toda a diferença. Só assim se cria confiança e motivação para que todos queiram crescer e superar-se.
Sei que trabalhar com objetivos nem sempre é motivador à partida, por isso procuro desmistificá-los e apresentar as metas de forma clara e leve. Tento mostrar que, se cada um contribuir com o seu melhor, todos ganhamos no final. Quando surgem dificuldades, a minha prioridade é reforçar a confiança da equipa — lembrá-los de que têm as ferramentas necessárias para alcançar os resultados.
E a verdade é que, quando conseguimos atingir esses objetivos juntos, o nível de motivação sobe imenso. A equipa começa a desafiar-se a si própria, a querer fazer mais e melhor, quase como uma forma de orgulho e pertença. É esse espírito que me move: ver cada pessoa crescer, acreditar em si e puxar pelos outros.
Como consegue manter-se fiel aos seus valores pessoais enquanto lidera equipas diversas, e de que forma é que essa autenticidade influencia o ambiente de trabalho e os resultados alcançados?
Quando comecei a liderar equipas, um dos meus maiores receios era perder a minha essência. Tinha algum medo que o papel de líder pudesse, de alguma forma, afastar-me dos meus valores. Sempre acreditei que liderar é muito diferente de mandar — e, com o tempo, percebi que o "mandar" simplesmente não fazia parte daquilo em que acredito na gestão de pessoas.
Ao longo dos projetos por onde passei, fiz sempre questão de manter como base valores que são, para mim, inegociáveis: a honestidade, a empatia, o sentido de compromisso, o espírito de equipa e a autenticidade. Felizmente, sempre trabalhei em ambientes onde tive liberdade para ser fiel a mim própria, sem sentir qualquer pressão para agir de forma contrária ao que acredito. Tenho muito claro que, no dia em que isso acontecer, não estarei no projeto certo.
Sinto que essa autenticidade se reflete no ambiente de trabalho. Quando somos genuínos, criamos uma relação de confiança com as equipas. Elas sabem que podem contar connosco, que estamos ali para as desenvolver, apoiar e, sempre que possível, proteger.
Claro que nem sempre é fácil — há decisões difíceis, momentos em que sabemos que a equipa não vai ficar satisfeita. Mas acredito muito na transparência. Nestes casos, faço questão de explicar o porquê das decisões, de ouvir, de dar espaço ao diálogo. Esse feedback bilateral torna tudo mais claro e ajuda a manter a equipa envolvida, mesmo nos momentos menos fáceis.
De que forma acredita que um líder pode, verdadeiramente, inspirar os outros a dar o melhor de si — não apenas através de palavras, mas com ações consistentes?
Acredito que inspirar começa por sermos nós próprios a dar o exemplo, mostrando a nossa melhor versão e, acima de tudo, criando espaço para que as equipas também o possam fazer. Para mim, a inspiração nasce da proximidade, da empatia e da atenção ao outro — e isso não se faz com discursos bonitos, mas com gestos concretos no dia a dia.
Faço questão de conhecer as pessoas com quem trabalho. Lidero 11 equipas, num total de cerca de 90 pessoas — e, sim, nem sempre é fácil lembrar-me de todos os nomes (às vezes lá troco um ou outro!), mas esforço-me por os conhecer a todos, saber um pouco sobre cada um. Isso permite-me perceber quem são, o que os motiva, quais são as suas fragilidades, mas também as suas forças. Só assim se pode realmente desenvolver pessoas.
Há momentos em que noto que alguém não está bem — e nesses casos, abro espaço para conversar, para escutar e perceber de que forma posso ajudar. Isto faz parte do meu dia a dia. Não digo que não haja exigência — porque há —, mas acredito que, quando uma equipa sente que é vista, que conta e que não é apenas mais um número, envolve-se mais, entrega-se mais, e vai mais longe.
Inspirar, para mim, é isso: estar presente, ser coerente, e fazer com que cada pessoa sinta que o seu contributo tem valor.
Como vê o papel das mulheres na liderança em setores tradicionalmente mais masculinos, e que tipo de impacto acredita que uma liderança feminina pode trazer às empresas?
Acredito que o papel da mulher na liderança continua a ser um caminho desafiante, principalmente em contextos mais dominados por homens. Ainda sentimos, muitas vezes, que temos de provar o nosso valor a dobrar — fazer mais, demonstrar mais, como se tivéssemos de justificar constantemente o lugar que ocupamos. E o mais curioso é que, muitas vezes, essa pressão vem de nós próprias.
Somos, por natureza ou vivência, muito focadas, exigentes e comprometidas. Queremos dar o nosso melhor, mostrar que conseguimos — mesmo que isso signifique abdicar de momentos importantes com a família, de aniversários, de jantares tranquilos em casa ou até daquela rotina de ir buscar os filhos à escola. Fazemos essas escolhas porque acreditamos no que somos e no impacto que podemos ter, não só no presente, mas no exemplo que deixamos para outras mulheres.
E é exatamente por isso que acredito tanto na força da liderança feminina. Traz consigo equilíbrio, empatia, sensibilidade, mas também uma enorme capacidade de decisão e entrega. Liderar com o coração e com a razão, para mim, é das combinações mais poderosas que existem.
Uma liderança mais humana, mais próxima, que olha para as pessoas e não apenas para os números — e que, no fim, acaba por influenciar positivamente os resultados. Porque quando cuidamos das pessoas, elas cuidam do negócio.
Quais são as competências e qualidades que considera essenciais para um líder do século XXI, sobretudo num mundo em que a diversidade, a agilidade e o propósito são cada vez mais valorizados?
Para mim, um líder do século XXI tem de ser, acima de tudo, humano. Já não basta saber “mandar” ou controlar processos — hoje, mais do que nunca, é preciso saber ouvir, compreender e adaptar-se. Vivemos num mundo onde tudo muda rapidamente, onde as equipas são cada vez mais diversas e onde as pessoas procuram mais do que um salário: procuram propósito, equilíbrio e reconhecimento.
A empatia, para mim, é uma das qualidades mais importantes. Um líder que se coloca no lugar do outro, que percebe as necessidades da sua equipa, tem muito mais capacidade de criar um ambiente onde todos se sentem valorizados e motivados.
Depois, a capacidade de adaptação. Ser flexível, saber reagir rapidamente a mudanças, sem perder o foco, é essencial. Já não há espaço para lideranças rígidas. Hoje é preciso ser ágil e ter coragem para ajustar estratégias, testar novas abordagens e, quando for preciso, admitir que algo não está a funcionar.
Acrescentaria também a autenticidade. As pessoas reconhecem quando alguém está a ser verdadeiro. Um líder transparente, coerente e genuíno inspira muito mais do que alguém que tenta encaixar num modelo que não lhe pertence.
E claro, saber trabalhar com propósito. Um líder com clareza sobre o “porquê” das coisas contagia a equipa com esse sentido de missão. Quando as pessoas percebem o impacto do seu trabalho, envolvem-se de forma completamente diferente.
Em resumo, liderar hoje é muito mais sobre pessoas do que sobre processos. É preciso estar presente, escutar com atenção e liderar com intenção.
Acredita que liderar é mais sobre ouvir do que falar? Como equilibra a necessidade de dar direção com a capacidade de escutar e valorizar diferentes perspetivas?
Como em tudo na vida, acredito que o segredo está no equilíbrio. Sendo muito sincera, sou uma faladora nata — por isso, não posso dizer que falar não é importante, porque é. Mas também aprendi, com o tempo e a experiência, que ouvir é fundamental para se liderar bem.
Há momentos em que é preciso ouvir mais do que falar, perceber o que vai na cabeça e no coração da equipa, mesmo que nem sempre tenhamos, no momento, a resposta certa. Só ao ouvir conseguimos compreender verdadeiramente as dificuldades, os receios ou até as boas ideias que surgem do terreno.
Por outro lado, liderar também é dar direção. E, muitas vezes, as equipas procuram em nós essa orientação clara. Noto que, em certos momentos, as pessoas preferem que lhes digamos o que fazer — não por falta de capacidade, mas porque tomar decisões, especialmente quando podem ter consequências mais à frente, nem sempre é fácil.
O que tento fazer é dar-lhes ferramentas para que saibam decidir com confiança. Ensino a pensar com lógica, com base nos valores da empresa e nas prioridades do negócio. Quero que sintam que têm autonomia, mas também um enquadramento que lhes dá segurança.
E claro, quando vejo que não conseguem lá chegar sozinhos, aí sim, assumo o papel de guiar mais diretamente. Falo, explico, dou contexto — não para impor, mas para construir uma linha de raciocínio que os ajude a crescer.
Por isso, sim, liderar é saber ouvir… mas também saber quando é altura de falar com firmeza e propósito.
Que conselho deixaria a quem ambiciona liderar com autenticidade, respeito e impacto — especialmente a jovens mulheres que hoje começam a sua jornada profissional?
O maior conselho que posso dar é: mantenham sempre os pés bem assentes na terra. Liderar é uma responsabilidade grande, mas não é um título fixo ou garantido — hoje lideramos, amanhã podemos deixar de o fazer, mas o que realmente fica é quem somos enquanto pessoas e o impacto que deixamos nos outros.
Ser líder constrói-se com o tempo, com experiências, com erros e aprendizagens. E se há algo que valorizo profundamente é a humildade. A humildade de querer aprender, de reconhecer que não sabemos tudo, de estar presente no terreno, lado a lado com a equipa, a viver as dores e a celebrar as conquistas.
Como se costuma dizer, “não se apanham moscas com vinagre” — e conquistar equipas é mesmo isso: um trabalho diário. Quando somos genuínos, dedicados e humildes, conseguimos que as pessoas queiram remar connosco, e não apenas por nós.
Às jovens mulheres — e especialmente às líderes que estão agora a começar — digo que é preciso coragem para ser autêntica, mas também paciência, capacidade de escuta e muita resiliência. A geração Z, por exemplo, vem com outros valores e outras motivações. Nem sempre é fácil perceber o que os move, mas acredito que vão abrir caminhos que a minha geração ainda não conseguiu trilhar.
Por isso, o segredo está em saber comunicar, em respeitar as diferenças, e em promover a colaboração entre todos os perfis. Liderar com impacto é isso: inspirar pelo exemplo, sem nunca deixar de aprender.