“Cuidar da mente não é sinal de fraqueza, mas de Inteligência e Amor Próprio”
Maria Edite Oliveira, Psicóloga e Professora Universitária, concedeu uma entrevista esclarecedora à Business Voice, onde abordou um dos temas mais urgentes da atualidade: a saúde mental. Com clareza e rigor científico, destacou a necessidade de quebrar os estigmas que ainda persistem em torno do sofrimento psicológico, sublinhando que falar de saúde mental não é um sinal de fraqueza — é um ato de consciência e responsabilidade coletiva. Ao longo da entrevista, Maria Edite Oliveira refletiu sobre o impacto da era digital na saúde psicológica dos jovens, alertando para os efeitos da constante estimulação e da sobrecarga informativa. Num tempo em que se vive permanentemente conectado, o ruído exterior tem vindo a silenciar o espaço interior. E isso — afirma — tem consequências sérias no bem-estar emocional das novas gerações.
Que importância tem, na sua perspetiva, o combate ao estigma associado à saúde mental, e como podemos, enquanto sociedade, contribuir para uma mudança efetiva de mentalidades?
O combate ao estigma da doença mental é essencial para promover uma sociedade mais justa, equitativa e inclusiva. Para tal é necessário investir em educação e formação, desmistificando preconceitos e mitos associados. Para tal é necessário criar políticas públicas que garantam o acesso a tratamento dignamente humanizado. Criar campanhas de consciencialização e capacitação de profissionais uma vez que a mudança de mentalidades começará precisamente pela informação, formação e consciencialização desta questão. O conhecimento de casos reais e da sua superação pode ser muito positivo para esta mudança de paradigma.
Apesar dos avanços na área da saúde mental, ainda existe uma forte resistência em procurar ajuda psicológica. Que fatores culturais ou sociais considera que mais contribuem para este fenómeno em Portugal?
Os fatores são essencialmente culturais, sociais e pessoais. Existe ainda muito estigma social, a psicoterapia é muitas vezes encarada como sinal de fraqueza, o medo do julgamento do exterior, aspetos que podem tocar a autoestima e a autoimagem do sujeito. As crenças pessoais ou culturais limitadoras, por exemplo pensar que os problemas se resolvem sozinhos e a valorização excessiva de autossuficiência, a vergonha de pedir ajuda acumulada ao medo constituem dois freios muito fortes. Assistimos a muita falta de informação acerca dos benefícios e do funcionamento da psicoterapia. Em Portugal concretamente há ainda muito caminho a percorrer no sentido de desconstruir os objetivos e propósitos da psicoterapia. Por outro lado, as limitações financeiras no acesso ao tratamento condicionam igualmente a procura destes recursos.
Como psicóloga e professora universitária, que principais desafios observa nas novas gerações, especialmente entre jovens universitários, no que diz respeito à sua saúde mental?
Nestes últimos anos e, principalmente depois da pandemia, a saúde mental dos jovens tem diminuído de forma considerável. Os jovens encaram desafios a vários níveis pessoais, académicos, sociais e económicos. A nível pessoal, a falta de estrutura psicológica, com origem em contextos familiares fragilizados e desestruturados, que condiciona o estabelecimento de objetivos e propósito de vida. A nível académico com as exigências em termos de desempenho e competição pelo mercado de trabalho. A nível económico, espelhado em dificuldades financeiras para prosseguir os estudos ou planear a autonomia e a nível social, pela fragilidade das relações pessoais e presenciais muitas vezes desvirtuadas pelas relações virtuais e artificiais.
Vivemos numa era de constante estímulo digital e sobrecarga de informação. Que impacto acredita que esta realidade está a ter no bem-estar psicológico dos jovens?
A era digital tem vantagens e desvantagens, o impacto positivo da internet centra-se no acesso rápido à informação, facilita as comunicações sociais, permite o acesso à educação e ofertas profissionais de forma célere. Abre-nos portas para a criatividade e expressão, a partilha de ideias, recursos e talentos. Não obstante, existem aspetos negativos, por exemplo a exposição a padrões irreais de beleza e vidas perfeitas. O cyberbullying é cada vez mais frequente, a desinformação, uma vez que o acesso à informação é grande, mas por vezes errado e por fim, o isolamento social como consequência da dependência digital.
A pandemia da COVID-19 trouxe a saúde mental para o centro das atenções. Considera que houve uma mudança real na forma como o tema é encarado pelas instituições e pela sociedade em geral?
Claramente. Depois da pandemia da COVID-19, aumentaram as situações de doença mental, como depressão, ansiedade, isolamento social e stress e neste sentido os pedidos de ajuda aumentaram também. Este facto contribuiu para aumentar a consciência da necessidade de valorização e investimento nestas áreas por parte da tutela. E nesta sequência foram criadas algumas medidas de prevenção e combate à doença mental, nomeadamente campanhas de sensibilização e formação nas escolas, empresas e universidades.
Falar abertamente sobre saúde mental pode ser transformador, tanto a nível pessoal como coletivo. Que estratégias recomenda para promover um diálogo mais aberto, saudável e inclusivo sobre este tema nas escolas, universidades e locais de trabalho?
Continuar com o que referi acima, promover ações de sensibilização em escolas, universidades e empresas. Criar espaços de atendimento e acompanhamento psicológico e psiquiátrico com acesso direto nas instituições. Conjugar estas ações com formação e consciencialização dos benefícios da ajuda psicológica na promoção da saúde mental das pessoas.
Como é que os educadores, enquanto figuras-chave na vida de crianças e jovens, podem ser aliados na promoção da saúde mental e na deteção precoce de sinais de sofrimento psicológico?
Os educadores e os professores são elementos chave de identificação e referenciação dos alunos para o tratamento da saúde mental. Estes profissionais são as pessoas que mais tempo qualitativo passam com as crianças e jovens e por essa razão podem identificar sinais precoces de desajuste no desenvolvimento e no comportamento que rapidamente e facilmente podem ser resolvidos. Quanto mais precoce for detetado o problema e intervencionado mais fácil será a solução.
A integração de políticas públicas consistentes e eficazes na área da saúde mental pode ter um impacto direto no desenvolvimento do país. Que benefícios económicos e sociais resultariam, na sua opinião, de uma verdadeira política nacional de saúde mental?
Uma verdadeira política de saúde mental pode trazer muitos benefícios, a redução de custos com tratamentos de emergência, investir em prevenção e cuidados contínuos diminui internamentos hospitalares e tratamentos prolongados. Aumenta a produtividade no trabalho, uma vez que pessoas saudáveis trabalham mais e produzem mais e consequente desenvolvimento económico. Neste sentido, permite uma maior participação no mercado de trabalho e fortalecimento da economia. Em termos de benefícios sociais, permite a melhoria da qualidade de vida, a redução do estigma e do preconceito. Por fim, previne a exclusão social e fortalecimento de redes de apoio.
A psicologia da educação tem um papel importante na criação de ambientes escolares mais saudáveis. Que práticas concretas deveriam ser implementadas nas escolas para apoiar a saúde mental de alunos e professores?
Nas escolas deveriam ser reforçadas as campanhas de sensibilização para as questões da saúde mental bem como ações de formação regulares em temas diversos da saúde no geral. Por outro lado, uma rede de mentores que fossem formados e treinados para apoiar e acompanhar colegas que estivessem em situação de vulnerabilidade psicológica e social. Estas ações deveriam ser estendidas a toda a comunidade educativa para que o trabalho em rede pudesse fluir. Formação parental é também essencial sobretudo no pré-escolar e primeiro ciclo.
Por fim, que mensagem gostaria de deixar aos leitores que ainda veem a saúde mental como um tabu ou um sinal de fraqueza?
Cuidar da mente não é sinal de fraqueza mas de inteligência e amor próprio. Estar em equilíbrio físico e mental é viver com qualidade e bem-estar.