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“Cuidar da Mente é cuidar da Vida”

Filipa Jardim da Silva — Psicóloga Clínica, Autora e CEO da Academia Transformar — partilha a sua visão sobre um desafio ainda muito presente: o estigma em torno da saúde mental. Com uma abordagem clara e descomplicada, defende que cuidar da mente deve ser tão natural como cuidar do corpo. Ao desconstruir mitos e incentivar conversas abertas, a nossa interlocutora apela a uma mudança cultural que normalize o apoio psicológico, transformando-o num gesto de autocuidado tão comum quanto uma ida ao médico. Uma reflexão que convida a olhar para a saúde mental como parte indissociável do bem-estar.

Comecemos pelo essencial: Como define, na sua perspetiva clínica e humana, o que é ter saúde mental nos dias de hoje?
Para mim, ter saúde mental é viver com equilíbrio interno, capacidade de adaptação e sentido de propósito, mesmo perante desafios inevitáveis. Não significa ausência de tristeza, ansiedade ou frustração, porque essas emoções fazem parte da experiência humana, mas sim ter recursos internos e externos para lidar com elas sem se perder de si. É a capacidade de manter relações saudáveis, tomar decisões alinhadas com os próprios valores e preservar energia para aquilo que importa. A Organização Mundial da Saúde descreve-a como “um estado de bem-estar no qual o indivíduo reconhece as suas capacidades, consegue lidar com as tensões normais da vida, trabalhar de forma produtiva e contribuir para a comunidade” e hoje, mais do que nunca, este equilíbrio exige consciência, autocuidado e suporte adequado.

Ainda que o tema esteja mais presente na sociedade, o estigma em torno da saúde mental continua forte. Porquê que acredita que ainda há tanto preconceito?
O estigma nasce do desconhecimento e do medo. Durante décadas, a saúde mental foi associada apenas a doença grave ou incapacidade, em vez de ser vista como um continuum que nos inclui a todos. Em muitas culturas, incluindo a portuguesa, há uma valorização excessiva da “força” entendida como não demonstrar fragilidade. Assim, pedir ajuda é confundido com fraqueza. Estudos mostram que o preconceito diminui quando as pessoas têm contacto próximo com casos de recuperação e quando a literacia em saúde mental aumenta. É um trabalho de longo prazo: desconstruir mitos, falar abertamente e normalizar o cuidado psicológico como se faz com o cuidado físico.

Enquanto Psicóloga Clínica e Fundadora da Academia Transformar, quais são os estigmas mais enraizados que encontra diariamente nos seus pacientes ou até em contextos profissionais?
Três surgem repetidamente:
1. “Ir ao psicólogo é para quem está no limite” quando, na verdade, é também para prevenir, crescer e desenvolver competências emocionais.
2. “Se preciso de ajuda, é porque falhei” um reflexo da cultura de perfeccionismo e autocobrança, de rivalidade e comparação, em que o outro nem sempre é visto como um recurso e fonte de cooperação.
3. “As questões emocionais resolvem-se com força de vontade” ignorando que problemas de saúde mental têm causas biológicas, psicológicas e sociais, e que requerem estratégias específicas e, por vezes, intervenção multidisciplinar.
Estes mitos dificultam o acesso precoce a cuidados, que é precisamente quando as intervenções são mais eficazes.

Acredita que em Portugal a saúde mental ainda é vista como um tabu? Que mudanças têm sido mais visíveis nos últimos anos?
Ainda existe tabu, mas há avanços claros: mais cobertura mediática, mais figuras públicas a partilhar experiências, maior procura por apoio psicológico. Entre 2019 e 2023, por exemplo, a procura de consultas de psicologia em Portugal aumentou significativamente, sobretudo no setor privado e online. Porém, o tabu mantém-se mais forte em certos contextos laborais, onde o receio de discriminação leva muitas pessoas a ocultar sintomas ou consultas. 
Vemos a persistência do tabu quando Portugal é o país com a mais elevada taxa de prevalência de doença de saúde mental na Europa e em que mesmo com cerca de 3,66% do PIB nacional sendo atribuível a custos com a saúde mental, o investimento nesta área não tem ido além dos 5% do Orçamento do Estado. O lugar real que a prevenção e intervenção em saúde mental tem ocupado persistentemente, em todos os governos, mostra que ainda há um caminho a percorrer na forma como se encara a relevância da saúde mental numa sociedade.

A pandemia teve um impacto brutal na saúde mental global. O que mudou na forma como os portugueses encaram o apoio psicológico desde então?
A pandemia funcionou como um “acelerador de consciência”. O isolamento, a incerteza e a sobrecarga familiar e profissional expuseram fragilidades emocionais que antes eram disfarçadas pelo ritmo de vida. Muitos perceberam que cuidar da saúde mental não é opcional, é essencial. A aceitação da terapia online foi outro marco ampliou o acesso, especialmente a quem vive longe dos centros urbanos ou tem horários inflexíveis.

A Academia Transformar assume-se como mais do que uma clínica — é também um espaço de educação e transformação pessoal. Que papel têm as empresas e instituições na promoção da saúde mental coletiva?
Um papel central. Passamos cerca de um terço da vida a trabalhar. Empresas que integram políticas de bem-estar mental reduzem burnout, aumentam retenção de talento e estimulam criatividade. Estudos da Deloitte mostram que cada euro investido em programas de saúde mental pode gerar até cinco euros em retorno, graças à redução do absentismo e melhoria do desempenho. As organizações precisam de ir além da prevenção do risco: devem criar culturas de segurança psicológica, onde falar sobre dificuldades não seja penalizado.

Num país onde o acesso ao apoio psicológico ainda é desigual, o que falta fazer em termos de políticas públicas e investimento real na saúde mental?
Falta integrar a saúde mental como prioridade transversal: mais psicólogos no SNS, tempos de espera mais curtos, equipas multidisciplinares na atenção primária, investimento em prevenção e literacia, e incentivos para programas de bem-estar em empresas e escolas. A nível europeu, Portugal está entre os países com mais elevados níveis de sofrimento psicológico, mas com investimento per capita abaixo da média da OCDE. Isto é insustentável.

Fala-se muito em autocuidado, mas muitas vezes de forma superficial. Como podemos resgatar o verdadeiro significado do autocuidado na vida moderna?
Autocuidado não é apenas spa, velas e dias de descanso (embora possam fazer parte). É um compromisso diário com hábitos que sustentam o bem-estar físico, emocional e mental: sono de qualidade, alimentação equilibrada, movimento regular, gestão do stress, relações saudáveis e tempo para o que dá sentido à vida. É disciplina e autocompaixão em igual medida.

Há um crescimento visível da procura por psicoterapia, especialmente entre os mais jovens. Isso é sinal de maior fragilidade… ou de maior consciência?
De maior consciência. A Geração Z, em particular, mostra menos resistência em pedir ajuda e maior abertura para falar sobre saúde mental. Este movimento é positivo: problemas não tratados tendem a agravar-se, enquanto a intervenção precoce promove recuperação mais rápida e sustentável. Não é sinal de “fraqueza”, mas de maturidade.

Para quem ainda sente medo ou vergonha de procurar ajuda psicológica, que mensagem gostaria de deixar?
Pedir ajuda não é desistir é escolher continuar, mas com mais recursos. Assim como procuraria um médico para tratar uma dor física persistente, merece procurar um psicólogo para lidar com um sofrimento emocional que não desaparece sozinho. Assim, como nos vacinamos para prevenir doenças e fazemos higienizações orais para prevenir cáries, também merecemos ter “um treinador de emoções” em alguns momentos da nossa para nos ajudar a treinar a forma como pensamentos, como lidamos com as emoções e como nos comportamos. Todos precisamos de apoio em algum momento. Cuidar da mente é cuidar da vida.

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