“A Valorização dos direitos das Mulheres é uma obrigação de Todos”
Sobre a presença feminina em posições de liderança, Tânia Gaspar, uma das mais reputadas personalidades a nível nacional e internacional da Psicologia, não tem dúvidas: “Temos vindo a melhorar e temos um longo caminho para percorrer…”. Saiba tudo sobre o que disse a nossa interlocutora à Business Voice.
A Tânia Gaspar é uma das mais reputadas personalidades a nível nacional e internacional no que concerne à vertente da Psicologia. Antes de tudo e para contextualizar o nosso leitor, de que forma é que a Psicologia e todas as envolventes da mesma a levaram a apostar nesta carreira?
Numa visão abrangente o meu percurso académico e profissional integrou e articulou formação continua, atividade de investigação, atividade como docente universitária, prática profissional como psicóloga clínica, como consultora, atividades de gestão e atividade cívica, associativa e de contribuição para as políticas públicas.
Licencie-me em Psicologia Clínica. Em 2004 terminei o mestrado em saúde pública na ENSP/UL e nesse mesmo ano ingressei no doutoramento em Psicologia na Universidade do Porto. Em 2005 criei e fiquei presidente da Aventura Social Associação uma ONG. Quando terminei o doutoramento em 2009 fui convidada para criar e dinamizar o Instituto de Psicologia e Ciências da Educação na Universidade Lusíada. Ser diretora do IPCE foi dos grandes desafios da minha carreira. Durante 13 anos desenvolvi muitas competências profissionais ao nível da gestão, administração e trabalho em equipa e em rede. Considero que o que permite a minha capacidade de concretização é a minha paixão, dedicação, dinamismo, otimismo realista, diplomacia e pensamento virado para a resolução de problemas e procura e aproveitamento de oportunidades. A minha liderança é caracterizada pelo exemplo, empatia, assertividade e afeto. Em 2016 fiz as minhas provas de agregação na Universidade do Algarve na área da Psicologia da Saúde. Para desenvolver mais conhecimentos e competências na área de gestão, em 2018/2021 fiz doutoramento em gestão e desenvolvi a minha tese na gestão global da saúde, onde propus e estudei um modelo de avaliação da gestão e qualidade das organizações de saúde.
Atualmente sou professora associada com agregação na universidade Lusófona e diretora do Serviço de Psicologia, Inovação e Conhecimento (SPIC) uma interface entre a prestação de serviços à comunidade, investigação e consultoria.
Em 2021 criei e atualmente coordeno o Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis que tem como objetivo o estudo aprofundado, sistemático e ecológico da saúde e bem-estar dos profissionais e das organizações e a colaboração na promoção e proteção da saúde e dos riscos em contexto laboral ao nível nacional e internacional.
Analisando o seu trajeto, quais foram as suas principais motivações para seguir o trilho da Psicologia e da Investigação em campos como a intervenção social, a psicologia da criança e do adolescente, entre outras?
Tirei o curso de psicologia essencialmente pelo meu interesse por pessoas, pela sua forma de pensar, sentir e comportar-se.
Quando terminei o curso estava indecisa entre dois mestrados um na área da psicoterapia e outro na área da Saúde Pública, optei por Saúde Pública porque logo deste essa altura sentia que precisava de uma compreensão mais global dos fenómenos e processos, da saúde das pessoas, de uma abordagem preventiva ...
No mestrado abordei temas como a economia da saúde, saúde ambiental e administração que me deram uma visão mais abrangente que pude articular com a visão mais centrada na pessoa que tinha tido até ali.
Durante os primeiros tempos trabalhei na área da doença mental grave, com doentes com esquizofrenia e outras psicoses.
Posteriormente comecei a alargar o meu âmbito de intervenção e investigação na área laboral e qualidade de vida no trabalho. Numa fase inicial ao nível da consultoria ao nível da avaliação de riscos psicossociais no trabalho e intervenção na gestão de stress, prevenção do burnout e gestão de conflitos. Rapidamente me apercebi que para obter resultados reais e sustentáveis não seria suficiente promover competências juntos profissionais se toda a organização na sua cultura e liderança não tivessem no centro das suas políticas e práticas a saúde e bem-estar dos profissionais.
Neste percurso decidi ir fazer o doutoramento em gestão, especialmente em gestão de organizações de saúde. Senti a necessidade de desenvolver mais conhecimento e competências sobre a gestão, a sua linguagem, os seus processos e as suas prioridades. O doutoramento tinha como objetivo propor um modelo de gestão das organizações de saúde sistémico que incluía fatores da organização, processos entre a organização e o profissional e resultados de satisfação e económico-financeiros. Pretendia estabelecer a ligação entre cultura organizacional de bem-estar, processos do ambiente psicossocial e de gestão de recursos humanos promotores de bem-estar e consequentes resultados ao nível dos profissionais, doentes e resultados económicos, estes últimos tão valorizados pelas organizações. Aprendi muito, tive muito gosto em desenvolver este trabalho e mais uma vez com grande proximidade da DGS, Autoridade para as Condições de Trabalho e muitas outras organizações governamentais e não governamentais.
Fale-nos um pouco de si. Quem é a Tânia Gaspar e quais são os marcos mais simbólicos do seu percurso profissional e quais foram e são os principais desafios que, ao longo do seu trajeto, teve de enfrentar?
Sim quando me perguntam qual é a minha profissão fico sempre com dúvidas como responder: Psicóloga? Professora Universitária? Investigadora? Consultora? Gestora?
Efetivamente sou psicóloga clínica de formação e faço trabalho clínico, sou professora universitária e tenho vindo a desenvolver a carreira nesse âmbito. Gosto muito de ensinar, tenho prazer em ver crescer os estudantes. Nós acompanhamos os estudantes, grande parte das vezes, desde a licenciatura, mestrado, algumas vezes no estágio profissional e doutoramento. Maior parte das vezes é um orgulho acompanhar o crescimento pessoal e profissional dos estudantes, nota-se grande diferença neste processo. Como investigadora tenho um prazer enorme em pensar e delinear estudos, preparar e fazer contactos, estabelecer redes, analisar os dados e comunicá-los para diferentes públicos mais ou menos científicos, media e poder políticos de forma a contribuir para que as decisões sejam baseadas nas evidências científicas.
Sou presidente de uma organização social sem fins lucrativos, Aventura Social Associação e realizamos projetos de intervenção na área da saúde mental numa perspetiva global. Nesta instituição estamos a criar uma equipa que começa por fazer o estágio profissional e vai continuando a colaborar através de projetos financiados. Aqui o que me fascina é ver crescer e fortalecer a equipa, a intervenção junto das populações sempre baseada no nosso conhecimento científico, as intervenções avaliadas e publicadas para partilha e disseminação de boas práticas.
Como consultora estudo as organizações de forma aprofundada, reflito estratégias de intervenção e melhoria. Neste âmbito o gosto por comunicação e curiosidade por diferentes contextos e realidades muitas vezes está na origem de novos estudos e novas intervenções. Penso que todas estas áreas se complementam e enriquecem e não gostaria de deixar nenhuma delas.
A presença feminina nas posições de liderança tem vindo a aumentar, mas ainda existem desafios. Quais acredita que são as principais barreiras para as mulheres e como podemos superá-las?
Temos vindo a melhorar e temos um longo caminho para percorrer ...
As barreiras devem ser compreendidas de forma ecológica, temos barreiras individuais, relacionais, organizacionais, económicas e societais.
Individuais relacionadas com as caraterísticas mais comuns nas mulheres, os estudos que realizamos desde os 5 anos até aos 100, verificamos que a partir dos 8 anos as raparigas e os rapazes revelam diferenças estatisticamente significativas em relação à saúde e comportamentos, por exemplo as raparigas/mulheres tendem a ter à internalização do mal-estar psicológico, assim revelam mais sintomas psicológicos (ansiedade, tristeza, etc.), menor perceção de bem-estar, menos otimismo, menos autoestima e são menos assertivas. Por seu lado os rapazes e homens tendem a ter mais expressões do mal-estar psicológico através da externalização, nomeadamente, envolvem-se mais em lutas e situações de violência, tem maior consumo de substâncias (álcool, drogas etc.) e são mais assertivos.
Socialmente continua a ser mais expectável que a rapariga tenha um comportamento mais “tranquilo”, que seja “estudiosa” e que “cuide e ajude” em casa. Também se espera que enquanto mulher seja “cuidadora” e que acumule mais funções de cuidado e trabalho “informal”, tal como cuidar de filhos, e pais, organizar as tarefas domésticas).
Estas caraterísticas são, ainda, impressas e introjetadas no seio da família, na escola e na cultura geral.
Em termos laborais, sendo as organizações parte integrante da sociedade, também se refletem estas diferenças e disparidades de género, logo na seleção e contratação as mulheres tem desvantagem se estão em idade de ter filhos ou se tem filhos pequenos, quando tem filhos são as mulheres que continuam mais frequentemente a faltar ao trabalho para acompanhar os filhos em situações de doença, por estas razões e pela menor assertividade em expressar abertamente e negociar o seu valor as mulheres tem mais dificuldade de chegar a lugares de topo. A tomada de decisão continua a ser realizada por homens.
Vou dar três exemplos, uma grande empresa, preocupada com a desigualdade de género solicitou-me que fizesse uma palestra sobre este tema para os trabalhadores, tive 400 participantes, todos do género feminino. Outro exemplo foi que fiz uma formação sobre coaching de lideranças de topo numa empresa para melhor gestão de uma grande mudança organizacional que teve lugar, das 10 lideranças de topo, uma era mulher. Numa outra empresa tecnológica com com cerca de 90% dos profissionais homens, numa ação sobre gestão de stress e prevenção do burnout, tive 10% de participantes homens. Enquanto a igualdade e equidade de género, e as competências de gestão emocional forem temas “femininos” não vamos conseguir fazer a mudança necessária. A participação de todos, independentemente do género, é fundamental para um mundo mais justo e sustentável.
Na sua opinião, como é que a diversidade de género pode impactar positivamente a liderança de projetos e empresas, tanto em termos de resultados quanto de cultura organizacional?
O próximo estudo que vamos desenvolver no LABPATS surgiu da conjugação e concordância de todas estas valências: como professora verifico junto dos jovens, especialmente, nas raparigas o stress que é a entrada no mercado de trabalho, as suas expectativas, por vezes o gap que existe entre as suas expectativas e competências e as expectativas e exigências do mercado de trabalho, organizações e lideranças.
Como psicóloga clínica recebo diversos jovens adultas e mulheres que se debatem com a dificuldade de gerir todos estes desafios, estudar, trabalhar, autonomia, família, sonhos e futuro.
E no trabalho de consultoria ouço as profissionais muitas vezes cansadas, desiludidas e sem muita esperança de mudança, a sentir que as suas competências e o seu valor não está a ser apoiado e valorizado. A investigação que diz que são as mulheres que revelam mais riscos psicossociais do trabalho, são mais frequentemente alvo de assédio laboral, e que percecionam menos apoio e valorização da organização e liderança.
Todos estes aspetos resultam na necessidade de estudar a atitude, as expectativas e perceção das mulheres (e homens) sobre o que é um ambiente de trabalho saudável e de que forma o mundo laboral pode ser mais inclusivo. O estudo pretende incluir também empregadores/CEO de empresas com o intuito de compreender a sua perceção e dificuldades e propor recomendações para promover a diversidade de competências para um global objetivo comum.
Em relação às cotas femininas nas empresas ou nos cargos públicos, não me sinto confortável, num mundo ideal não seria necessário, a ideia de existir cotas pode remeter para uma discriminação positiva e ainda aumentar a perceção de que as mulheres não progridem nas carreiras por mérito, mas sim por serem mulheres. No entanto, tendo em conta que a sociedade e as organizações tendem a discriminar as mulheres e não tem as mesmas oportunidades, até ao dia que um homem e uma mulher com as mesmas capacidades tenham as mesmas hipóteses de serem selecionados para um cargo, talvez seja mesmo necessário e até considerado justo o estabelecimento de cotas.
Para mim não existe uma liderança feminina ou masculina, uma liderança de qualidade é positiva e agregadora e passa simplesmente pela capacidade de liderança da própria pessoa, independentemente de ser homem ou mulher.
Quais conselhos daria a jovens mulheres que estão a começar a sua carreira e que aspiram a ocupar posições de liderança?
Segundo o Banco Mundial as competências do futuro, são as competências digitais associadas a competências cognitivas e socioemocionais, tais como, pensamento critico, capacidade de resolução de problemas, autoregulação emocional, inteligência emocional e relações interpessoais positivas e saber trabalhar em equipa e em rede.
Por isso quando me perguntam o que devem as jovens mulheres ter como prioridade, as palavras que me vem à cabeça são curiosidade e comportamento pró social.
Costumo dizer às minhas alunas e alunos, que a formação em psicologia e os conteúdos abordados na universidade são iguais para todos, o que distingue os estudantes é a sua atitude dentro e fora da universidade. Além do interesse por estudar, ler mais, pesquisar, questionar, refletir o estudante também deve ir conhecer o terreno através do voluntariado, estágios de observação, envolvimento em movimentos cívicos etc.
Portanto o desenvolvimento de competências transversais de comunicação, abertura, curiosidade, procura ativa e escuta ativa são fundamentais para iniciar o caminho do contexto político e de tomada de decisão.
A valorização, orgulho e conhecimento aprofundado da ciência psicológica, valorizar a formação e procura de conhecimento continuo. Muitas vezes vejo nos estudantes ainda pouco segurança e assertividade em relação à Psicologia e no seu papel na sociedade e nas equipas multidisciplinares.
Por outro lado a resiliência, persistência, paciência e flexibilidade porque este caminho não é fácil, nem tão rápido, nem tão obvio, nem tão consistente como gostaríamos que fosse.
Além de todas estas competências, num mundo cada vez mais digital, com a necessidade crescente de humanizar a tecnologia, colocar a tecnologia ao serviço das pessoas, da promoção da sua qualidade de vida, as mulheres devem ter um papel fundamental neste equilíbrio, conciliação e integração. Para isso também devem desenvolver competências digitais, enquanto a formação nas áreas das engenharias e tecnologias for predominantemente selecionada por homens, teremos mais uma gap de género.
No domínio da Psicologia, sente que vivemos atualmente um tempo em que a mesma se torna, dia após dia, cada vez mais importante?
A psicologia e a saúde mental estão num processo crescente de influência e valoração na saúde, na sociedade, na tomada de decisão e no poder político. O caminho está a ser desbravado, precisamos de todos psicólogos e não psicólogos para o continuar a fazer. Contamos também com as próximas e futuras gerações de psicólogos para continuar o caminho na influência e participação na tomada de decisão e políticas públicas.
Para salientar a relevância da psicologia e dos seus profissionais, os primeiros aspetos que me vem à cabeça é a visão holística, integradora, de complementaridade e comunicação, competências mais frequentes nos psicólogos.
Os psicólogos têm uma visão aprofundada da pessoa, do seu funcionamento, do seu pensamento, comportamento e emoções, tudo isto em diferentes contextos, em diferentes papéis e momentos.
Por outro lado, a comunicação eficaz é fundamental para que a influência política e na tomada de decisão recorram e valorizem o conhecimento e as estratégias propostas pela psicologia.
Para conseguirmos comunicar de forma eficaz temos de dominar o tema, temos de conhecer bem os interlocutores do poder político e de tomada de decisão, o que valorizam, o que pretendem e como o nosso conhecimento e competências podem ir de encontro a esse objetivo.
A informação e a comunicação deve ser simples, focada e fácil de usar. Os psicólogos têm de encontrar um compromisso entre a informação científica aprofundada e complexa sobre os temas e a transformação dessa informação em conteúdos rigorosos, mas focados e que respondam claramente a uma necessidade.
Tenho tido muito boas experiências neste processo de comunicação, sinto que o psicólogo tem ganho um valor e relevância nas equipas multidisciplinares. Este processo deve-se aos psicólogos, à Ordem dos Psicólogos Portugueses que tem feito um trabalho otimo na aproximação da psicologia às pessoas, às organizações e ao policy and decision making context, temos vários exemplos de psicólogas e psicólogos em posições relevantes. Também a sociedade, as pessoas e as organizações apresentam uma maior abertura e integração do conhecimento e estratégias da psicologia nos diferentes contextos e equipas multidisciplinares.
Sim, trazer a psicologia para fazer parte da solução pode fazer toda a diferença.
A propósito do Dia Internacional da Mulher, que se celebra no dia 8 de março, que mensagem lhe aprazaria deixar a todas as Mulheres e que, diariamente, vivem e convivem com diversos desafios e dificuldades simplesmente porque são Mulheres?
Faz parte do caminho, passo a passo vamos no sentido da equidade e valorização de todos pelas suas competências, experiências e contributos.
Mulheres cuidem de vocês próprias, gostem mais de vocês próprias, acreditem mais nas vossas competências, capacidades e conhecimentos, verbalizem mais a vossa opinião e defendam mais a vossa perspetiva.
Continuem a cuidar, a amar, a partilhar, a criar, a construir, a apoiar, a incentivar e a lutar, mas sem culpa, sem medo do confronto e sem medo de perder.
A valorização, reconhecimento e defesa dos direitos das mulheres é uma obrigação de todos, junto dos filhos e das filhas, dos estudantes e das estudantes, dos profissionais e das profissionais, das e dos decisores. Em 1979 tivemos a única primeira-ministra portuguesa, na altura foi a segunda mulher a desempenhar o cargo na Europa. Quando teremos de novo uma primeira-ministra e uma mulher na presidência da república? Serão sinais dos tempos.